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6 tradições de navegantes (que aprendi a bordo)

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Oi, Aventureiros!

Vocês já se perguntaram porque fazemos algumas coisas a bordo? As repostas podem variar entre "é cultural" ou "é uma tradição" ou até mesmo "sei lá! Porque sim" (rs)! Como muita gente curiosa, eu também já tentei entender alguns "rituais do mar". Cruzando a linha do Equador, por exemplo, passei por uma experiência que despertou ainda mais a minha curiosidade. E é daí que começo a nossa lista sobre as tradições dos navegantes, segundo a Família Schurmann.

1. Batismos na linha do Equador.

O batismo é um costume entre velejadores do mundo inteiro. Também é bem popular nos navios da marinha e acredita-se que tudo começou como uma maneira de preparar os marinheiros para travessias longas, durante as quais as brincadeiras da turma poderiam ser pesadas. Mas a tradição remete a Netuno o deus do mar, que batiza os Pollywogs para virarem Shellbacks e terem sorte no mar.

Recentemente, cruzamos a linha do Equador pela segunda vez. Na primeira vez, pensava: "Como começa o batismo? Vão me tirar da cama de repente? Tem limites"? Nas duas cruzadas do veleiro Kat, os batismos foram bem leves: restos de comida orgânica na cabeça junto com pó de café para dar um toque especial e deixar um cheiro especial no cabelo. Todos curtiram, especialmente o nosso "Netuno" (Capitão Vilfredo).

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2. Moeda em baixo do mastro.

Colocar uma moeda em baixo dos mastros é algo que não se pode esquecer! Como todas superstições, essa também tem várias explicações. Mas, acreditamos que tudo começou com os romanos. Eles acreditavam que, se algo acontecesse com o barco, a moeda pagaria o pedágio ao deus Charon (ou Caronte), que liberava a passagem da vida após a morte.

Durante a construção do nosso barco (feito por nós mesmos), tivemos a oportunidade de fazer algumas coisas e cuidar de alguns detalhes como, claro, botar uma moeda em baixo dos mastros. E olha que a gente quase esquece, mas meu tio Wilhelm estava acompanhado a instalação dos mastros, lembrou e colocou uma moeda de um real em baixo. Só precisamos ver se, eventualmente, ainda nossa moeda seria aceita, já que o real desvalorizou bastante desde a nossa saída. Infelizmente.

3. Cordeiro para cruzar o Drake.

Levar um cordeiro pendurado na parte exterior do barco, praticamente pronto para fazer um churrasco, é outra tradição. Loco, né? Mais uma dica para dar sorte enquanto cruzamos um dos trechos mais perigosos do mundo. Então, a gente faz, claro. Depois de algum tempo lá fora, ele fica salgadinho!

Compramos o cordeiro na cidade de Ushuaia, conhecida como o fim do mundo. Como vocês podem imaginar, no fim do mundo faz frio, mas muito frio mesmo. Então, nem precisava deixar a peça na geladeira. Sem brincadeira, ficou umas três semanas (pelo menos), antes de comer na Antártica. Até alguns pássaros enfiaram o bico antes da gente (rs). Finalmente chegou na hora de comer! Deixamos a peça por algumas horas numa "piscina" de limão e alecrim. Depois, deixamos no forno até chegar no ponto certo. Sentamos no geladinho da Antártica e devoramos o cordeiro em poucos minutos.

4. Flores para quem importa.

A tradição de jogar flores no mar é simples e clara: pedir proteção para Iemanjá. Mas atenção! Também é considerado má sorte ter flores a bordo, durante a navegação, porque poderiam ser usadas depois para um funeral. Sendo um símbolo de que alguém poderia morrer na viagem. Então quando está na hora de partir pegamos todas as flores e jogamos no mar. Quando começamos uma viagem ou fazemos uma travessia longa, como atravessar o Oceano Índico ou o Atlântico, temos várias coisas para checar: se temos água e comida o suficiente e, claro, flores. Normalmente, Formiga (Heloisa Schurmann) se encarga de comprar as flores para deixar a deusa do mar feliz.

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5. Nunca às sextas!

Sexta-feira é considerada data de má sorte pelos marítimos. Por isso, muitos marinheiros se recusam a embarcar para uma nova travessia nesse dia da semana. Histórias de barcos saindo neste dia e desaparecendo são uma das razões para respeitar está lenda. Precisa mais? Nossa Expedição Oriente, por exemplo, começou oficialmente num domingo, quando zarpamos do porto de Itajaí, em Santa Catarina. Eu sempre soube desta superstição e até achei engraçado. Com tanto trabalho a bordo, é até normal a gente esquecer que dia é. Então, vocês poderíam pensar "que diferença faz", né? Confesso que também acho isso, mas tradição é tradição e não é bom se despedir da terra firma às sextas. É melhor ir antes ou esperar mais um dia. E querem saber de uma coisa? Essa é uma regra antiga. A primeira grande aventura da minha família (aquela que começou há mais de 30 anos) deveria ter como data de partida o aniversário de 10 anos do meu tio David. Só que, naquele ano, o dia do níver dele caiu numa sexta-feira 13!


6. É proibido assobiar!

Tradições são para serem aceitas e não questionadas. Mas acho que esta foi desenvolvida para que todos a bordo pudessem ter paz nas travessias (rs). Diz a tradição que assobiando poderia trazer ventos fortes. Então, só se pode fazer isso quando não tiver vento. Na época dos grandes velejadores, só quem podia assobiar eram os cozinheiros, porque assim deixavam claro que não estavam comendo a comida.
De qualquer maneira, assobiar é algo que simplesmente não fazemos no veleiro Kat. E não existe qualquer punição para quem se esquece da regra. Nesse caso, apenas brincamos lembrando: "olha. Não chama o vento, hein"! Imagina que já estamos em um lugar pequeno e alguém assobiando o dia todo! Isso ia me deixar loco (rs).

Talvez, para quem não está a bordo, essas "tradições" possam parecer meio "ingênuas" ou "estranhas". Até entendo, porque eu mesmo achava. Mas depois que embarquei na Expedição Oriente, viraram regras divertidas. E já que vocês passaram a conhecer algumas, embarquem na nossa aventura!

Abraços,

Emmanuel

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