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O peso de achar que está grávida

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FEAR PREGNANT
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"O que você está sentindo?", o médico perguntou.

Medo, eu pensei.

Dor no estômago, cansaço e dor de cabeça, eu respondi.

Fazia quase três meses que tomava a pílula e mais de cinco efeitos colaterais - muitos deles semelhantes aos sinais de gravidez. Até aquela tarde, não havia me passado pela cabeça essa possibilidade, pois além dos hormônios, a camisinha estava sempre presente. A ideia de ter um filho agora? Nunca.

Em uma crise forte de gastrite, começam as brincadeiras no trabalho. Olha lá, mais uma grávida no time, o patrão vai ficar louco com outra licença. Eu ri e mandei todo mundo para o lugar mais obscuro dos xingamentos. Uma delas contou:"Eu, quando soube que estava grávida, já estava com quase quatro meses, menstruando e utilizando métodos contraceptivos".

Ou seja: nenhum método é 100% confiável. E mesmo assim botam a culpa nas mulheres, como se nós tivéssemos controle sobre o hormônio que deu errado, sobre o furo na camisinha, sobre o DIU de cobre que saiu do lugar. Eu estava fazendo tudo certinho, mas mesmo assim corria o risco de engravidar na hora errada.

Nessa hora, minha cabeça girou e eu descobri como o Google pode ser seu pior inimigo quando quer. Tenho os sintomas, logo, estou grávida.

É incrível como um segundo pode mudar tudo na nossa vida. Um "deslize", um pensamento mal encarado ou uma frase dita pelo avesso. Naquele momento eu, que já havia lido muito sobre o aborto, comecei a encará-lo como algo ainda mais real. É como minha mãe diz: fica mais fácil refletir sobre as coisas quando elas não estão apenas no quintal do vizinho. Estavam no meu quinta. Ou melhor: no nosso quintal.

Eu só pensava nos meus pais, no que eles iriam dizer, como iriam agir. Pensava no meu relacionamento saudável em sua recém construção. Pensava que teria que trancar a faculdade, ou que teria que pegar um empréstimo no banco para abortar, mesmo com o medo ensurdecedor que tinha de morrer, de não poder ter mais filhos no futuro (com planos e no momento certo). Pensei no que teria que abrir mão e em como tudo mudaria.

No hospital, eu tentava entender de onde todas aquelas dúvidas haviam saído e como mudaram tudo o que eu sentia de uma hora para a outra. Meu pai me esperava do lado de fora do consultório e, mesmo assim, tive medo de falar sobre o assunto com o médico. O resultado: rinite, gastrite nervosa e enxaqueca acompanhadas de duas receitas com seis medicamentos diferentes. Nenhuma resposta que eu, realmente, queria ouvir.

Passei o resto do dia espalhando meu pavor. Uma das minhas melhores amigas tentava me acalmar, enquanto eu depositava toda a minha paranóia no meu namorado, que insistia que eu não tinha nada do que me preocupar. A noite foi longa.

Pela manhã, um pouco mais calma, comprei um teste na farmácia mais próxima do meu trabalho. Nove horas. Três homens tiveram sua expressão simpática de "bom dia" transformada em julgamento. Nunca tivera um atendimento tão sério, tenso e desrespeitoso. A revolta tomou conta do medo, que desapareceu quando o resultado deu negativo.

Eu não estava sozinha, eu sabia, mas no fundo eu estava. Era o meu corpo. Meu namorado não receberia o mesmo olhar que eu recebi e minha amiga não ouviria dos meus pais o que eu ouviria. Os riscos eram meus e aquela sensação de impotência também era só minha.

Eu não sinto alívio, mesmo quando deveria. Não seguirei tranquila porque eu sei que todas essas sensações eu divido com milhares de mulheres neste mundo cheio de machismo e violência; uma brutalidade psicológica que criaram em nós desde o dia em que nascemos.

O resultado segue negativo enquanto a sociedade não entender que nós somos donas de nossas próprias vidas, nosso corpo e nossa mente.

Enquanto isso não for possível, não será um teste de farmácia que me trará de volta o sono.

*A autora pediu anonimato. E a gente respeitou, lógico.

*Publicado originalmente no blog Eu, Tu, Elas - Feminismo na Prática

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