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Não. Não foi a democracia que venceu no Congresso

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Ueslei Marcelino / Reuters
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No domingo, dia 17 de abril, estive no Vale do Anhangabaú com alguns amigos, e lá assisti a uma coisa que nunca achei que fosse ver na vida: um golpe parlamentar. Sim, é essa mesma a palavra que estou usando. Eu e você, mesmo que você não concorde com o termo, presenciamos um golpe.

Nem vou falar aqui de como chorei no dia da votação - e que, assim como eu, boa parte da juventude brasileira saiu machucada disso tudo (e sim, também já espero comentários dizendo "hahaha, bem feito", e aviso que: a única coisa me farão sentir é pena de vocês).

Não vim falar aqui de como essa foi, para muita gente, a nova versão do que aconteceu em 1989. Tão pouco quero falar da forma como me dói em um nível pessoal ver uma mulher que começou sua vida lutando contra um regime ditatorial - inclusive sendo presa e torturada - agora estar prestes a ser deposta por um golpe de Estado. Não, agora eu não vou falar de nada disso.

Vim aqui apenas elucidar alguns argumentos e mostrar outras perspectivas.

Alguns falam, "Mas como assim um golpe? Tudo está correndo conforme a Constituição!". Acho que as pessoas que perguntam isso não sabem muito bem o significado da palavra golpe. Muito menos do golpe branco, ou seja, um golpe "constitucionalizado", que foi pelo que Honduras passou alguns anos atrás.

Antes que você feche esse texto, peço que leia um pouco sobre o nosso lado: sabemos que o rito do impeachment está previsto na Constituição. Nunca negamos isso. Contestamos apenas a forma como este processo contra Dilma Rousseff está sendo conduzido.

É tão nítida a falta de motivos criminais para julgar a presidenta que a maioria dos deputados presentes no circo do último dia 17 nem se lembrava de falar o motivo pelo qual ela estava sendo julgada ali: pedaladas fiscais, uso de recursos dos bancos públicos para cobrir déficits orçamentários... E os que se atinham a essa razão, votaram contra o seu impedimento.

O que estamos sugerindo é exatamente que existe um movimento conspiratório contra a presidenta e que ela está sendo tirada do poder por razões que não as previstas na Constituição. E tudo isso é apoiado por três pilares: sua impopularidade, a mídia tradicional e a direita política.

Como Miguel Sousa Tavares escreveu no jornal português Expresso, nossos cidadãos estão tão acostumados com políticos ladrões, que confundem o que chama de uma má governança (um governo ruim) com uma governação difícil (um governo inserido num contexto complicado).

A crise política se transformou numa imagem direta de quem nos governa - e, seguindo essa lógica, que não leva em conta qualquer contexto mundial, a prosperidade de um País depende apenas da índole de seu chefe de estado. Logo, nesta teoria, o Brasil está em crise porque a Dilma é uma ladra (e aqui te convido a entrar na justiça contra ela, já que ela não responde por nenhuma acusação de enriquecimento pessoal, e você com suas informações deve saber bem do que fala), e não porque o mundo inteirinho está em recessão.

Entende? Nem eu.

A popularidade de Dilma é baixa, sim, já que ela tomou medidas econômicas que realmente se provaram erradas. No entanto, desde quando isso é motivo para "impeachmar" alguém? Oras, se for assim, o Datafolha pode fazer pesquisas mensais sobre a popularidade de cada político e, quando esta estiver em baixa, vamos tirá-los todos do poder.

Não é assim que funciona: Dilma deve ser julgada pelo que é acusada, e não por você não gostar dela, não concordar com sua política externa ou até mesmo pelos 10 milhões de brasileiros desempregados (alguém aqui lembra dos desempregados da época do FHC? Das filas de provas para ser mata-mosquito? Ou do tanto de gente que o próprio PT tirou da pobreza?).

Se você não concorda com o governo petista, você deve esperar as eleições de 2018 para fazer valer sua opinião.

Seu voto não vale mais que o meu e vice-versa. Dilma teve 54 milhões de eleitores; por mais que seja doloroso, você precisa aceitar e entender que perdeu as eleições e que terá uma nova chance daqui dois anos.

Isso tudo seria razoável, se aqui não agissem as outras duas lacunas responsáveis pela possível queda de Dilma: a direita, morta de vontade de voltar ao poder depois de 14 anos - e os veículos de comunicação tradicionais brasileiros, que insuflam a sociedade contra o governo e não enganam mais nem a imprensa estrangeira.

Lá fora, já notaram o que a gente repete por aqui: nossa mídia tem uma agenda, que é diametralmente oposta ao governo petista.

Esperemos que agora, que o mico já está ficando internacional, os brasileiros percebam o oligopólio midiático que têm.

Não duvido nada que, quando notarem que o coro de "golpistas" está aumentando, peçam eleições novas para "legitimar o voto popular" (como se as eleições de 2014 simplesmente não merecessem tal privilégio, já que não as venceram). E uma boa parte vai cair como um patinho nesse discurso.

Se eu te disser que novas eleições são outra forma de legitimar o golpe, você acredita? Votações antecipadas não estão previstas na Constituição e, por isso, precisam passar pela Câmara dos Deputados (aquela mesma...) para acontecer. O Congresso nunca vai retificar uma emenda constitucional que vá contra eles mesmos, e logo, no máximo, aprovaria uma que pedisse novos pleitos apenas presidenciais.

E você acha mesmo que, com uma Câmara daquelas, trocar apenas de presidente vai trazer mudanças boas?

"Ainda não acredito que seja um golpe, nada disso que você falou faz sentido. Os deputados são os representantes do povo! Eles não agiriam visando seus próprios interesses".

Sim, já ouvi gente falando essa frase e, apesar de admirar a inocência de quem acredita nisso, tenho que explicar que, infelizmente, não é assim que as coisas funcionam no Brasil.

Os deputados, que negociavam cadeiras no governo tanto de Dilma como de Temer, votaram em sua grande maioria visando apenas os seus interesses pessoais. Não é possível que ainda se pense que aqueles políticos estavam pensando no bem coletivo quando, literalmente, dedicavam votos desde "para minhas filhas" até a "terra sagrada de Jerusalém".

Isso sem falar nos escândalos envolvendo deputados que estouraram na semana seguinte à votação. Não importa que eles tenham ajudado o lado de quem quer a Dilma fora do governo, mas é impossível acreditar que aquelas pessoas visavam mesmo os interesses da sociedade.

"Ok. A votação no Congresso foi realmente horrorosa, mas vocês não estão exagerando chamando todo mundo de conspirador? Como assim Temer é golpista?"

Ora, cada um chega na conclusão que quiser, mas uma pessoa que esteve na chapa de Dilma e entrou no governo quase que como um parasita; que teve sua cartinha e áudio com programa governamental "vazados"; que deixou a base aliada de Dilma já com gritos de "Temer presidente", deve agir, no mínimo, de caso pensado.

E por fim, quem não concorda com o uso da palavra "golpe", sempre me pergunta:

"Mas o PT colocou 8 dos 11 ministros no STF, como assim eles vão dar golpe na Dilma?"

Apesar de não afirmar que eles irão fazer isso (afinal, o julgamento do Supremo ainda não aconteceu), o fato de serem indicados para o cargo durante os governos petistas (veja bem, indicados, no meio de muita gente, e depois terem sido de fato nomeados pelo órgão) pouco importa.

Se a Dilma for impedida por uma tecnicalidade, sem precedente jurídico - já que a mesma lei nunca pegou outros governos e até outros juristas já assumiram não ser o suficiente para destituir a presidenta -, será um golpe. Porque é isso, e apenas isso, que está sendo julgado nesse processo de impeachment.

***

Um pouco de como tudo começou:

Dilma recebe pedidos de impeachment praticamente desde o momento em que foi reeleita. Eduardo Cunha, até pouco tempo, se sentava em cima desses mesmos documentos. O PMDB, partido de Cunha e Temer, era aliado do governo até dois meses atrás.

O que mudou agora, afinal?

Temos que voltar um pouco mais no tempo. Dilma Rousseff é a presidente que mais investigou a corrupção nesse País. Isso é um fato. Em seu governo, foi a primeira vez em que a Polícia Federal experimentou algo parecido com a não interferência política.

De 2010 para cá, vimos ineditamente figurões da política, seja de qual partido for, serem investigados e presos. É por isso que você, amiguinho, acha os partidos políticos tão corruptos e prega que todos sejam extintos: porque finalmente foi jogada luz em cima de muitos esquemas de corrupção que assolam o país.

Em 2014, Dilma deu um aviso para a população: iria investigar a corrupção, "doa a quem doer". E foi assim que fez: quando, em dezembro do ano passado, Eduardo Cunha procurou o governo Dilma para fazer um acordo, visando que seu processo no Conselho de Ética fosse barrado, Dilma disse que não.

Em represália, Cunha deu continuidade ao processo de impeachment de Dilma. Com isso, também conseguiu jogar areia sobre aqueles que o investigavam e, de quebra, fugir das acusações que ele mesmo sofre de lavagem de dinheiro e recebimento de propina.

Não se confundam, é apenas por isso que estamos aqui hoje.

Vejo gente na rua gritando contra a corrupção e pedindo o afastamento de Dilma, e não sei se rio ou se choro. Mal sabem eles que estão tirando uma presidente que não responde à nenhum processo relativo a corrupção, e colocando no poder dois homens investigados incansavelmente pela Operação Lava Jato. Operação esta que não dou dois meses - caso o impeachment de Dilma realmente aconteça - para parar de ser manchete na TV.

Ah, e além disso, Cunha também é citado nos Panama Papers (aquele caso que derruba ministros na Europa, mas que aqui não chega nem como marola) por envolvimento no escândalo da Petrobras.

Temer e Cunha, os dois nomes que assumiriam nossos mais importantes cargos, fazem parte de uma bancada fundamentalista de um partido que tem como diretrizes congelar o aumento real do salário mínimo, diminuir os direitos trabalhistas e retornar ao "regime anterior de concessões na área de petróleo" (ou seja, vender o petróleo brasileiro agora em que o preço do barril está em baixa). E tudo isso é sério! Se não acredita em mim, dá para ler aqui o texto-proposta do PMDB na íntegra .

Como disse Eduardo Cunha, que Deus realmente tenha misericórdia da nossa nação.

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