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A exposição nossa de cada dia: Em um relacionamento sério com a internet

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Bernhard Lang via Getty Images
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A Olimpíada do Rio chegou ao seu final. Sem sombra de dúvida foi a olimpíada mais conectada, mais disponível e mais divulgada nas redes sociais. Um fenômeno que não é recente, mas que ganhou maior intensidade ao ser comparado às edições dos jogos de Londres há quatros anos atrás.

Além das competições, das histórias de vida dos atletas, dos recordes olímpicos e do "calor" da plateia brasileira, os bastidores, o que acontecia fora das competições também preencheu a timeline das redes sociais, além de portais de notícias e claro, emissoras de rádio, televisão e jornais impressos.

O conteúdo era vasto, desde o flagra da garrafinha de água preenchida com vodca feita por uma integrante da deleção russa, passando por perfis dos atletas em aplicativo como Tinder, imagens dos vestiários, vídeos - incluindo das câmera de segurança - os bonitões e bonitonas de cada delegação, as festas, até o famoso "Quem pegou quem?" na emblemática Vila Olímpica.

Os próprios atletas usaram e abusaram de seus perfis no Instagram, Facebook, Youtube, Snapchat e Twitter. Expuseram não só as modalidades em que competiam, seus corpos, mas também o dia a dia do evento olímpico. Tornaram-se alvos de elogios e críticas, de apoios e condenações. Segundo o Instagram, a Rio 2016 foi o assunto mais comentado na história da rede social. Entre os dias 5 e 21 de agosto, mais de 131 milhões de pessoas foram responsáveis por 915 milhões de interações.

Além de fotos, tweets, vídeos olímpicos, um caso que repercutiu tanto na internet como fora dela foi o artigo publicado no diário The Daily Beat em que o jornalista Nico Hines criou perfis em aplicativos de paquera voltados ao público gay, para descobrir quem eram e quantos atletas estavam nessas redes. Hines chegou a marcar encontros em que nunca apareceu. No artigo "Consegui três encontros no Grindr em uma hora na Vila Olímpica", o jornalista, embora não citava nomes, revelava nacionalidade, modalidade esportiva e características físicas capazes de identificar e "tirar do armário" muitos dos atletas. Vale lembrar que em muitos países, além do preconceito, há a proibição, podendo levar as pessoas à morte, caso seja realmente comprovado que seja homossexual.

O caso trouxe à tona a falsa sensação de segurança que a internet nos dá. Como a ideia anonimato, em um território praticamente livre, podem ser utilizadas de maneira errada, por pessoas totalmente despreparadas, dispostas a prejudicar o outro como se a vida em questão fosse irrelevante.

Assuntos como o novo caso do chefe, a traição da vizinha, as imagens íntimas daquele artista de TV, o suposto casamento do apresentador, assim como toda e qualquer informação que diz respeito a um terceiro e que repassamos sem perceber (ou na maldade mesmo). Atitudes assim são praticadas com relativa frequência não por meios de comunicação "especializados" em fofocas, como também na conversa de bar, nos corredores da firma, nas conversas de faculdade e claro, nas redes sociais de forma direta ou indireta.

Quem não se recorda do aplicativo Secret, disponibilizado em 2014 para os smartphones e permitia que a pessoa revelasse segredos sem se identificar e os deixava disponíveis para visualização de amigos, amigos de amigos e desconhecidos. A ideia, embora sensacional, foi utilizada da pior maneira: postagens que ofendiam, espalhavam boatos e denegriam a imagem de terceiros. O "estrago" foi tão grande que o aplicativo chegou a ser proibido no país pela Justiça do Espírito Santo. Tempos depois, os próprios criadores decidiram descontinuar o APP.

Deixou de existir o aplicativo Secret, mas o "bullying virtual" continua sendo praticado e muitas vezes somos cumplices disso e talvez nem demos conta. Você já parou para pensar quantos vídeos, memes, imagens, boatos, textos, áudios você já repassou pela internet seja pelo Facebook, Twitter, WhatsApp ou qualquer outra rede social simplesmente pelo fato de achar engraçado, excitante, sensual, polêmico, engajado, ideologicamente próximo ou totalmente contra da sua convicção e sem ao menos ter buscado a origem ou a verdade do fato?

Quantos casos de vídeos e fotos íntimas divulgadas, muitas com objetivo de "destruição" da pessoa envolvida nós já tomamos conhecimento? Quantas notícias falsas nós compartilhamos em nossa timeline e depois de descobrirmos a farsa não termos nos preocupado em desmentir e apagar o compartilhamento? Reproduzimos agora, através das redes sociais, o que se fazia nas praças e pátios públicos. A disseminação de assuntos - para o bem e para o mal - agora são realizadas da tela do celular, do computador ou de qualquer outro dispositivo com acesso à internet.

Será que estamos mesmo preparados para essa liberdade, facilidade de acesso, quantidade de conteúdo disponível pela internet e de certa maneira mais disponível com o advento das redes sociais? Será que sabemos trabalhar o conteúdo recebido e distribuído sem o juízo de valor, sem a doutrinação e com respeito ao próximo? Criticamos isso diariamente na sociedade - principalmente nos meios de comunicação - mas será que não estamos repercutindo, e pior, amplificando esse tipo de comportamento?

Não é para criar alarmismo, mas sim promover uma reflexão. As consequências de nossos atos aparecerão em nossa linha do tempo. O receio é que nem a desativação/exclusão do perfil possa reverter ou transformar o universo incrível e de infinitas possibilidades que a internet nos trouxe.

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