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Ascensão e queda de Biel: Como fracassou o projeto de Justin Bieber brasileiro

Publicado: Atualizado:
BIEL
Reprodução/Facebook
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Existe receita de sucesso para um se tornar um ídolo pop? A formula pronta certamente não existe, mas há caminhos que podem auxiliar um artista na tão sonhada conquista da fama. Não basta só conquistar; tem de se manter nela. Em um mundo cada vez mais efêmero, influenciado pela velocidade da internet, manter-se em exposição é algo fundamental... Resta saber como e com o que você se expõe.

Esqueça os shows em barzinhos, as fitas demo, os artistas regionais. Lançar cantores a partir da internet tem sido uma das tarefas das gravadoras, sobretudo os que chamam atenção do público jovem.

Pegue um rosto jovem e bonito. Abuse da sensualidade e explore a exibição nas redes sociais. Acrescente a isso músicas em um ritmo dançante com letras que reafirmem a imagem que você deseja transmitir de seu artista.

"Que que isso, hein?"

Assim é a trajetória de Biel; o paulista da cidade de Lorena começou a aparecer nas redes sociais com suas letras de funk ostentação e videoclipes de baixo orçamento. Um ponto a seu favor foi a semelhança com o cantor Justin Bieber.

A exposição do garoto chamou a atenção da gravadora Warner Music, que o contratou em 2015. O objetivo: criar um artista voltado ao público jovem em modelo semelhante ao desenhado para Anitta e Ludmilla.

O rapaz ganhou fama. Em pouco tempo estourava nas rádios jovens. Seus videoclipes ganharam um acabamento mais profissional, porém a fórmula de sucesso não mudou: a exposição do corpo e a letra com alto teor sensual. A partir daí se tornou figura presente em diversos programas da TV aberta.

"Quero ver se tu aguenta"

Parecia tudo certo no "fenômeno" Biel. As redes sociais continuaram sendo utilizadas na promoção dele, seja em sua conta no Instagram, Twitter, Facebook ou Snapchat.

Reuniu milhares de seguidores, seus vídeos batiam recordes e recordes de visualização.

Da fama aos escândalos, também foi muito rápido.

O primeiro - e mais grave - foi o de assédio sexual envolvendo uma repórter do portal IG. O fato teria acontecido numa entrevista concedida à jornalista para a promoção de seu disco. Frases como "gostosinha" e "te quebro no meio" foram ditas à jovem.

O caso repercutiu, tomou conta da imprensa escrita, falada e televisiva. Até quem não conhecia o cantor passou a tomar conhecimento - da pior forma - da existência dele.

Perto da velocidade com que o caso repercutiu, o cantor demorou para se posicionar. Primeiro disse que era um mal-entendido, que era uma brincadeira e utilizou de sua "pouca idade" para justificar o que aconteceu. O discurso também foi repetido por seu pai, Sérgio Rodrigues, em algumas entrevistas.

A Warner classificou o episódio como "lamentável".

O excesso de exposição causava a primeiro estrago na recente carreira. O projeto mostrava falhas na sua execução.

A imagem de garotão bonito, sucesso entre as meninas, ficava manchada por declarações preconceituosas e de extremo mau gosto. O que mostrava um mau assessoramento - ou até sua inexistência.

'Errar mais de uma vez cê tá ligada que é burrice'

Do empresário, passando pela assessoria de imprensa (Biel é assessorado pela Sato Rahal, empresa de Karina Sato Rahal, irmã de Sabrina Sato) à sua gravadora, não houve nenhuma "gestão de crise", condução do caso e das ações/atitudes do próprio cantor.

Aparentement Biel estava deixado à sua própria sorte, na esperança que o caso caísse no esquecimento.

Ele retomou sua agenda de shows e também se envolveu em polêmicas. Quando o assédio parecia ter sido esquecido pela mídia, o próprio Biel fez questão de reapresentar o caso.

Em meio ao show de aniversário de comemoração de aniversário da atriz Gabi Lopes, o cantor aparece no palco e cantou "tá gostosinha, te quebro no meio". Convidados do local gravaram o vídeo que rapidamente se espalhou nas redes socais.

"Que que isso, hein?"

Em entrevista recente, Biel comentou: "Eu sou isto. Não vou mudar". Ele disse que a jornalista do portal IG foi responsável por prejudicar sua carreira.

Um novo ponto de virada na carreira do cantor já havia começado e nem ele, nem sua assessoria, seus pais ou gravadora se deram conta.

Nas redes sociais - hábitat onde ele foi descoberto - usuários se voltaram contra ele subindo a frase "Errar é humano, persistir é Biel". Também levantaram postagens de quando ele ainda tinha 15 anos. Um trabalho rápido, preciso e amplamente divulgado.

Mensagens em que o cantor ofendia negros, obesos, idosos e mulheres foram printados, retuitados. Até um perfil exclusivo para divulgação dos tweets antigos foi criado.

Além dos comentários e piadas de mau gosto, o que também chamou a atenção foram as mensagens em que atacava artistas, sendo que tempos depois, os mesmos receberiam o cantor em seus programas.

Em meio ao ataque, os perfis no Twitter e Instagram foram bloqueados ao acesso público.

Biel teve shows cancelados; o principal foi o Baile da Pan, promovido pela afiliada da Jovem Pan FM em Belo Horizonte.

O cantor foi substituído na lista de atrações. Em resposta, a organização do evento declarou como rejeição do público ao cantor o motivo que levou à substituição.

Por fim, Biel teve o contrato rescindindo com a Warner.

O impacto foi tão grande que o cantor anunciou um tempo em sua carreira.

O caso Biel mostra o poder de ascensão e destruição da rede social. Também reapresenta questões como a fabricação de celebridades e como um trabalho mal assessorado pode causar manchas na construção de uma carreira.

Isso sem entrar no mérito no conteúdo machista, racista e homófobico do cantor e suas tentativas de "levar na brincadeira" e de polemizar como forma de atrair ainda mais atenção e exposição.

O fato é que não estamos preparados e talvez nem tenhamos a verdadeira noção do poder da internet e das redes sociais. Os erros e publicações do passado podem se eternizar na web.

O território virtual, por mais que nos dê a sensação de liberdade e de inclusão, mostra também que já não é uma terra sem lei. Expomos, somos expostos, julgamos e somos julgados.

A nova praça central agora está disponível em qualquer lugar do mundo, seja pelo celular, computador, tablet ou tela de televisão. Os tempos são outros.

Será que estamos preparados? A carreira de Biel, não.

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