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A leitura e o pensamento: Novas conexões no mundo físico e no digital

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Jeffrey Coolidge via Getty Images
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O Congresso do Livro Digital, que antecedeu a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, debateu temas sobre o processo da leitura em plataformas diversas. Entre as discussões, está a conexão entre a leitura e o pensamento humano. Este foi o ponto do meu trabalho apresentado aos participantes na ocasião.

Até onde conhecemos, o cérebro humano é a mais fantástica maravilha da evolução da matéria, o ápice de um processo com quase 14 bilhões de anos. Sua morfologia é composta por cerca de 85 bilhões de neurônio e outros 85 bilhões de células gliais que formam uma massa cinzenta do tamanho aproximado de um abacate. Sua fisiologia é determinada por uma dinâmica química intensa que faz percorrer correntes elétricas conectando os neurônios por meio das sinapses. Toda essa atividade consome muito oxigênio, o que exige um fluxo permanente de 750 ml do sangue, pouco menos de um litro ou quase 20% de todo o sangue do corpo. É por isso que nossa cabeça pesa, sozinha, entre 6 e 8 quilos!

Nas últimas décadas, as Neurociências têm avançado na compreensão do que acontece na complexa dinâmica cerebral, que determina quase tudo o que somos capazes de fazer, saber e sentir, de um simples transpirar até a criação das mais fantásticas obras das ciências e da arte, inclusive nossa capacidade de ler e aprender com a leitura. Exames como a tomografia funcional têm permitido observar o cérebro em funcionamento e permitiram mapear seu funcionamento em detalhe, associando cada função a processos e áreas específicas de maior atividade.

Uma das descobertas mais fantásticas é a capacidade do cérebro de auto-direcionar seu desenvolvimento de modo a que possa melhor atender às necessidades de cada indivíduo. Essa característica pode, inclusive, fazer com que determinadas áreas do cérebro sejam "solidárias" com outras assumindo suas funções quando por qualquer razão deixam de ser capazes de realizar suas atividades rotineiras. É justamente o que acontece quando um paciente recupera a fala ou a capacidade de andar após um AVC.

Fenômeno semelhante acontece quando alguma função é exigida em demasia. Foi o que constataram pesquisadores ao analisar as áreas responsáveis pela orientação espacial no cérebro de taxistas de Londres e descobrirem que eram desproporcionalmente maiores que as mesmas áreas em não taxistas. Descobriram, também, que quanto maior o tempo de profissão mais desenvolvidas eram essas áreas.

No caso da leitura e da escrita, por exemplo, há uma intensa atividade cerebral, como constataram os investigadores. Tão intensa que o seu exercício contínuo é capaz de influir no desenvolvimento de áreas específicas do cérebro, como verificado nos taxistas de Londres. Quando lemos e escrevemos estamos desenvolvendo as áreas do pensamento superior complexo. Por isso, ao aprender a ler e escrever, "preparamos" nosso cérebro para fazer muito mais do que ler e escrever: preparamos nosso cérebro para pensar melhor. Eis aqui a verdadeira importância de se desenvolver ao máximo as habilidades e competências leitoras e escritoras.

Não é a toa que ensinar a ler e escrever tornou-se o principal desafio de todos os sistemas educacionais em todo o mundo. Essa verdadeira "obsessão" trouxe resultados bem concretos: em 2015, 84,1% de toda a população mundial sabia ler e escrever, nos mais variados níveis de proficiência, segundo dados da UNESCO.

Um dos grandes projetos da Educação moderna foi a universalização da escola fundada na razão, no sujeito (professor e aluno) e na leitura de livros. Em menos de quinhentos anos esse projeto transformou a vida no planeta, fazendo florescer a revolução industrial (Inglaterra), a revolução política (França), a revolução científica e tecnológica e tantas outras disrupturas nas artes e nos costumes. Tudo isso tem muito a ver com a expansão das possibilidades de pensamento do cérebro humano, impulsionado pela aprendizagem da leitura e da escrita.

Contudo, o desenvolvimento da leitura e da escrita se deu, essencialmente, com o livro e outras formas de impresso e a leitura em meio digital solicita algumas habilidades e competências que o impresso não exige. Este é um ponto importante! Ao contrário do texto impresso, nos dispositivos digitais o texto pode mudar, mover, piscar, desaparecer, alterar o tamanho, a cor, pode vir acompanhado de uma profusão de imagens, sons, assim como vínculos, links e mesmo comportamentos.

O ambiente de leitura constituído pelos novos suportes digitais e suas linguagens promovem a sobreposição sucessiva dos planos de leitura como janelas e abas, tornando a experiência menos linear, mais multimodal, além de polinuclear quanto aos interesses e motivações. Já não lemos apenas grandes massas de textos, mas, com muito mais frequência, imagens, animações, vídeos, áudios, infográficos, entre outras formas. Também é raro nos restringirmos a apenas um único foco: mais comum é a leitura a partir de um campo de interesse que se sustenta em uma rede de conexões, aproveitando a usabilidade do meio digital, mais confortável para uma leitura menos linear ancorada na facilidade dos links imediatos.

A escolha do encadeamento narrativo é, agora, um campo de interação entre o autor-editor e o leitor-editor. Em alguns casos, como em livros didáticos e livros de referência, por exemplo, o novo ambiente digital permite critérios ao mesmo tempo mais enxutos de edição - uma vez que é oferecido ao leitor-editor, a possibilidade de, com mais facilidade, reestruturar a narrativa a partir dos componentes que julgar necessário - e mais generosos, com larga quantidade de conteúdo considerado, a priori, complementar.

Ao contrário dos meios anteriores, como o papel, os dispositivos digitais são ativos e mantêm atividades paralelas enquanto o leitor lê, observando, registrando, armazenando, gerando big data, realizando data mining, analytics, computando e cruzando dados em algoritmos intrincados, que classificam e coligam ações, identificam padrões e pouco a pouco aprendem a antecipar desejos e necessidades para conectar interesses no contexto da leitura, ou, em contextos conexos propondo conteúdos e caminhos de exploração.

A leitura tende, assim, a sair da esfera estrita do diálogo leitor autor, privado, para uma esfera pública envolvendo o sistema e, possivelmente, uma comunidade de leitores que em seus caminhos de exploração deixarão rastros de seus interesses e compartilharão os significados sob a mediação dos sistemas. Por tudo isso, ler em dispositivos digitais impulsiona uma experiência multifacetada e promove novas habilidades.

Como consequência, surgem também novas formas de escrever. Como disse Paulo Freire (A importância do ato de ler, 1986), a leitura e a escrita não vivem uma sem a outra. Nesse contexto, surgem linguagens com novas formas de articulação, lincadas, mixadas, híbridas, minimalistas que, muitas vezes, colocam quase simultaneamente a produção do texto e sua leitura, disseminando novas formas de interação. Verifica-se então que a leitura parece querer antecipar a escrita, quando se apropria de novos gêneros discursivos e práticas sociais: a disponibilidade para a leitura antecede a disponibilidade para a escrita. E afeta, portanto, o texto de muitas formas: vc em vez de você, blz em vez de beleza, add em vez de adicionar, mto em vez de muito, vlw em vez de valeu,: ( em vez de estou triste, : / em vez de estou indeciso, um twiter em vez de uma página inteira, um microconto em vez de um conto.

Torna-se, portanto, indispensável educar considerando-se as novas relações que surgem com o texto, seja na produção ou na fruição, a partir da diversificação dos meios utilizados e dos contextos sociais em que tais práticas adquirem sentido. O trabalho da escola frente à leitura e à escrita ampliada aos novos meios busca evitar que se desenvolvam sujeitos que sejam "asfixiados ou afogados pela profusão da escrita", na expressão de Chartier (A aventura do livro: do leitor ao navegador, 1999). A tecnologia intelectual mais sofisticada que a humanidade desenvolveu, a leitura e a escrita, agora se associa e articula com os mais intelectuais de todos os dispositivos que já foram inventados. O que está em jogo é o próprio desenvolvimento intelectual, a capacidade de pensar bem para ir mais longe!

LEIA MAIS:

- A importância de seus colegas no aprendizado e ensino online

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