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'Big Brother' também observa a educação

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Edward Snowden é um programador que trabalhou para a CIA e NSA. Em 2013 foi acusado de vazar informações secretas do Governo dos EUA. Desde então é "caçado" pelos serviços secretos, sofreu várias ameaças de morte e vive em um local incerto sob a proteção do Governo Russo.

Julian Assange é um ciberativista fundador do WikiLeaks, uma ONG dedicada a publicação de informações secretas de fontes anônimas sobre empresas e governos no mundo todo. Desde 2012 vive confinado na embaixada do Equador em Londres, de onde não pode sair se não quiser ser preso e deportado.

Edward Snowden mostrou, entre outras coisas, como ações militares dos EUA mataram deliberadamente uma grande quantidade de civis em várias partes do mundo. Já o WikiLeaks mostrou, entre outras coisas, que empresários e políticos brasileiros, incluindo Dilma Rousseff, foram "grampeados" pela NSA, a agência de seguranças dos EUA, assim como aconteceu com políticos alemães e franceses.

A realidade é que todos, inclusive você, estão muito mais expostos do que imaginam e não estamos longe da realidade superar a ficção assustadora concebida por George Orwell.

Em sua obra mais famosa, 1984, publicada em 1949, Orwell descreveu um mundo totalitário, controlado pelo "Big Brother" que representava um Estado que tudo sabia sobre todos. Nada escapava à sua onisciência, nem mesmo os momentos mais pessoais desenrolados na intimidade do próprio lar.

Hoje, alguns sites como o Cartório Virtual vendem informações detalhadas sobre qualquer pessoa: CPF, RG, número de telefone com os quais conversou, veículos que já teve, locais por anda andou... mais uma vez a realidade imita a ficção.

Embora a bisbilhotagem seja tão velha quanto a espécie humana, não há dúvidas de que o avanço do mundo digital facilita o rastreamento das "pegadas" que involuntariamente vamos deixando por todo lado em nosso dia a dia.

Ao usar o cartão de crédito, o celular, a internet, a tv a cabo, ao chamar um taxi com um aplicativo ou fazer "check in" ao chegar em um local, ou simplesmente andar pelas ruas sob a mira de milhares de câmeras, vamos entregando uma vasta quantidade de informações sobre o que fazemos, o que nos interessa, por onde andamos, com quem falamos.

No Reino Unido, por exemplo, existe uma câmera de vigilância para cada 14 habitantes, o que resulta em 4,2 milhões de câmeras no total, segundo o Observatório de Segurança Púbica!

Com a atual rapidez do processamento digital, esse mundo de informações pode ser analisado em frações de segundos e interpretado para inúmeros fins: da simples oferta de produtos a definição de se você é ou não uma pessoa confiável.

Cada dia está mais evidente que os sistemas se comunicam, trocam informações e armazenam suas conclusões silenciosamente sobre cada atitude nossa. Por isso, não estranhe se a próxima vez que abrir seu navegador preferido surgirem mensagens de seu interesse ou se ao passar na frente de uma loja seu celular tocar com uma oferta. Esse é o mundo do big data, data minning, predictive analytics e outras técnicas.

É claro que todo esse poder de coletar e cruzar dados em busca de informações reveladoras sobre inúmeras perspectivas previsto na distopia de Orwell serve para algo mais do que o controle central e pode, também, colaborar com o empoderamento de cada um de nós.

Nada mal que essa perspectiva esteja sendo trabalhada em muitas iniciativas em prol da Educação, identificando e coletando dados sobre os hábitos e desempenho de professores e alunos, padrões de pesquisa, estilos cognitivos, processos de ensino e de aprendizagem, interesses, habilidades e competências, gaps e muitas outras informações que possam alimentar sistemas "inteligentes".

Quando tais sistemas tiverem suas premissas "inteligentes" adequadamente ajustadas e as bases de dados estejam abastecidas com informação suficiente sobre professores e alunos uma nova fase na educação será inaugurada e estaremos em condições, finalmente, de transpor uma fronteira entre distintos paradigmas de ensinar e aprender, do mundo analógico para o digital. Plataformas e conteúdos digitais estão no alicerce desse processo, muito menos pelo que aparentam ser - simples sistemas de entrega de conteúdo e informação - e muito mais pelo potencial de captar dados.

Um livro ao ser digital (que não deixa de ser uma plataforma) pode, por exemplo, ir muito além da simples função de entregar conteúdo para agregar novas e mais importantes funções, como permitir a comunicação dos estudantes e professores em um novo contexto monitorado e, especialmente, coletar dados sobre hábitos e desempenhos de todos.

Um mundo novo estará emergindo na educação! Restará, contudo, o desafio de preparar os professores e oferecer-lhes condições adequadas ao seu trabalho.

Afinal, é possível pensar em um avião sem piloto, mas não numa escola sem professor. Ensinar e aprender é do início ao fim uma ampla negociação de motivações e significados e parece razoável supor que somente seres humanos possam realizar essas negociações em sua plenitude. A história da humanidade está aí para não nos deixar enganar.

LEIA MAIS:

- A importância de seus colegas no aprendizado e ensino online

- Em que tipo de aprendizagem você acredita?

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