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O 'governo Temer' e a paranoia na jovem democracia brasileira

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Após treze anos, quatro meses e doze dias, chega ao fim o governo do Partido dos Trabalhadores no Brasil. O PT, partido treze nas urnas brasileiras, foi o único partido programaticamente de esquerda eleito no País.

Pode-se discutir onde estaria o PSDB, social-democrata, no espectro político, mas a imagem do PT sempre foi a ligada à esquerda tradicional, até pela própria simbologia do partido, uma estrela vermelha. O segundo processo de impeachment da Nova República afastou Dilma Rousseff do cargo, enquanto prepara sua defesa em relação ao futuro julgamento. E numa sexta-feira, treze de maio, temos o primeiro dia de governo do Presidente em exercício Michel Temer.

O atual período é a mais longa experiência democrática da história do Brasil. O tema e sua importância não é um tópico novo no Xadrez Verbal. Independente das discussões e das convicções dos leitores sobre o atual processo político, se é um processo justo ou um golpe, uma coisa é clara e certa: o cultivo do espírito democrático é essencial, dado o histórico e a fragilidade do momento.

Se é o mais duradouro período democrático brasileiro, temos também a inédita ascensão de um governo de esquerda, pela força do voto; sua reeleição, a segunda no Brasil; sua continuidade, com Lula elegendo sua sucessora, outro evento único até o momento; mais uma reeleição, com um partido vencendo quatro eleições federais seguidas pela primeira vez (o PSDB paulista já havia conseguido o feito na esfera estadual). E, finalmente, o final do governo. Todas transições pacíficas.

Um dos aprendizados para essa democracia, então, é o da falta de necessidade da histórica paranoia do "perigo vermelho". Desde a década de 1930, o medo dos movimentos de esquerda, classificados todos como "comunistas", movimenta parte da política brasileira. Exemplo maior é a instauração da ditadura getulista em 1937, o Estado Novo, sob a égide de evitar um golpe comunista expresso no Plano Cohen; um documento falso que foi forjado por um integralista, o capitão Olímpio Mourão Filho. A mesma retórica existiu em 1964. Em ambos os momentos, entretanto, elas tinham alguma base concreta, com movimentos de esquerda autoritários presentes no Brasil, que defendiam o uso da força para tomada do poder político.

O que não era o caso do PT, fundado em 1980 e que sofreu diversas dissidências, justamente por advogar, em sua maioria, pela via institucional e democrática. Alas radicais originalmente do PT que fundaram, por exemplo, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e o Partido da Causa Operária (PCO), por discordarem dessa perspectiva. O discurso político contra os partidos de esquerda, entretanto, continuou a seguir um raciocínio da Guerra Fria ou do getulismo. Em 1989, Fernando Collor, ironicamente, acusou que Lula iria "tomar o seu dinheiro da poupança" em debates e pronunciamentos televisionados. Na campanha em que Lula foi eleito, em 2002, tornou-se símbolo a atriz Regina Duarte afirmando que "tinha medo".

O tom conspiratório permaneceu durante os últimos treze anos. O tal "golpe comunista do PT" seria questão de tempo. O partido teria ligações paramilitares com Cuba, Venezuela, Bolívia, China, dentre outros, para fazer uma revolução, aos moldes bolcheviques de 1917. Tropas paramilitares venezuelanas operariam no Brasil. Os profissionais cubanos do programa Mais Médicos seriam, na verdade, agentes infiltrados.

Refugiados haitianos, o país mais miserável do continente, vítima ainda de um grande terremoto, seriam parte dessa grande conspiração, futuros soldados do golpe (ao ponto de um refugiado ser acossado na rua por essas "suspeitas"). O Movimento dos Sem-Terra seria armado por Cuba ou Venezuela. Uma infinidade de teorias e de conspirações; alimentadas também, deve-se dizer, pela retórica inflamada de Lula, que chegou ao ponto de chamar o MST de "exército do Stédile".

Todas essas teorias alimentadas seja por páginas nas redes sociais com alta visibilidade, ou até colunistas conservadores de grandes veículos de imprensa; nomes não são necessários, eles sabem quem são, assim como os leitores, deles e deste texto. E o que aconteceu? Dilma tirou seus pertences pessoais do gabinete presidencial no dia onze de maio, recebeu a notificação do Senado no dia doze, assinou, fez uma declaração para a imprensa e se retirou, preparando sua defesa.

Sem golpe, sem invasões estrangeiras. Onde estariam os guerrilheiros cubanos ou venezuelanos? Quando apontava-se a paranoia do pensamento, o retorno era de acusações de receber dinheiro por isso ou evocações pelas Forças Armadas. A única demonstração recente de incômodo nas Forças Armadas brasileiras foi contra a nomeação de um inexperiente político como eventual Ministro da Defesa de Michel Temer.

Forças armadas essas que, diga-se, tiveram um grande papel nos últimos treze anos, seja no orçamento, contrariando o senso comum de sucateamento, seja em sua missão, com papéis de liderança no Haiti, no Congo e no Líbano; de fato, o governo Dilma foi o único das últimas décadas que deu aumento real ao soldo militar, além de mera reposição da inflação.

O cerne da questão é: chegou-se o momento de amadurecimento na democracia brasileira de superar o "perigo vermelho" da Guerra Fria e aprender a lição que um governo de um partido de esquerda pode ascender e ser derrocado pelo voto e pelas instituições. Sem um tiro. Com erros e acertos, com o amadurecimento institucional necessário à democracia.

Colocando em termos claros, os tais colunistas, movimentos e páginas de redes sociais, no mínimo, erraram em suas análises e previsões. Erraram. Cederam à paranoia e ao espalhar de boatos e de rumores. Disseminaram desinformação e acirraram os ânimos. Além de erro, foi sensacionalismo e correlatos. Não adiantará falar que algum deles tem razão; não, não teve. O alardeado "perigo vermelho" não ocorreu. O que tivemos foi democracia, política partidária, jogo político, corrupção, troca de favores, fisiologismo. Uma miríade de aspectos, de crimes e de materiais que devem ser analisados, mas baseados na realidade, não em desatinos.

Que a política brasileira possa ser feita e discutida com a cabeça e, eventualmente, com o coração; nunca com o fígado. Uma sexta-feira treze marca o início de um novo período de governo. Esperemos, também, de mentalidade, no futuro de todos os setores da sociedade.

*Publicado originalmente no Xadrez Verbal

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