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O 'brasileiro idiota' ainda não percebeu que não foi contra a corrupção

Publicado: Atualizado:
DILMA ROUSSEFF
Ueslei Marcelino / Reuters
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Os movimentos de rua pró-impeachment já mostraram sua cara no atual período eleitoral, se aliando e defendendo grupos já conhecidos por envolvimento em corrupção. No final das contas, o brasileiro ainda não percebeu o significado de "massa de manobra": sim, vocês foram feitos de idiotas.

Chegamos ao final do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Tudo leva a crer que ela será, de fato, afastada de seu cargo após ser eleita por mais de 54 milhões de pessoas.

E tudo o que eu consigo lembrar é da minha adolescência.

Na década passada, a vida de um adolescente não era nada fácil. Facebook não existia, Twitter não existia, Pokemon Go não existia. Mas ainda existiam bandas de rock -- mesmo que hoje eu questione se aquilo realmente era rock.

Nessa minha fase da adolescência a banda Green Day era presença confirmada na minha coleção de CDs. Principalmente quando lançaram o álbum American Idiot, de 2004.

E hoje, 12 anos depois, vejo que esse álbum faz mais sentido do que eu imaginava. Não necessariamente por achar o norte-americano um idiota, mas sim por entender a mensagem: certas coisas podem fazer qualquer pessoa um idiota. E nos últimos anos, o brasileiro acabou se tornando um belo idiota.

Posso parecer arrogante, mas segue um trecho da música que compartilha o mesmo título do álbum:

"Bem, talvez eu que seja o viadinho americano
Porque não faço parte dos planos conservadores
Agora todo mundo siga a propaganda!
E cantem junto na era da paranoia
Não quero ser um idiota americano
Uma nação governada pela mídia
Era da informação histérica
Está chamando a América de idiota"

É só trocar o 'americano' pelo 'brasileiro' e a 'América' por 'Brasil'. Pronto.

Oras, milhões de pessoas foram convocadas pra ocupar as ruas aos domingos desde o ano passado, em uma tentativa de "eliminar a corrupção desenfreada do nosso país". É uma causa legitima, bela, inocente e principalmente idiota.

Manifestações aos domingos de sol com cerveja na mão são tão perigosas quanto o Neymar bravinho com os torcedores.

Você realmente acreditou que com esse tour pela Paulista aos domingos os corruptos tremeriam na base, ficaram com "medinho"?

Pior do que isso são os próprios organizadores dessas manifestações. O tal Movimento Brasil Livre, que do liberalismo clássico só carrega a burrice, se dizia apartidário logo no começo. Presença de políticos no carro de som? Nem pensar! Diziam. Agora, é diferente. A Dilma já deve cair, então temos que aproveitar o momento, certo?

Nada melhor do que enfiar um monte de liderança do movimento em partidos políticos como o DEM e PMDB para disputar as eleições e fazer aquilo que o liberal mais gosta: viver com dinheiro do Estado para falar mal do Estado.

O Fernando Holiday, que mais parece um péssimo ator de uma péssima peça de teatro da Augusta, já quer se tornar vereador. Tira fotinhas ao lado do empresário e candidato tucano, João Doria. Antes disso, abraçou o deputado federal Pauderney Avelino (DEM), condenado pela Justiça a devolver R$4,6 milhões aos cofres públicos.

E é bom lembrar: trata-se apenas de um exemplo. Esse grupelho tem vários candidatos, inclusive para a prefeitura de cidades no interior de São Paulo, fazendo alianças com PP, PRB e outros partidos conhecidos justamente por mamar na teta do Estado -- seja roubando ou simplesmente dando uma de Bolsonaro, gastando quase meio milhão de reais em apenas um ano utilizando sua cota parlamentar (dinheiro de quem?).

E o brasileiro idiota? Será que percebeu essa cagada?

Você percebe o tamanho da bosta quando acaba lendo alguns comentários na internet do tipo: "Dur, o importante é tirar o PT". Mas, desde quando o PT é o idealizador da corrupção moderna que passa por cima do nosso país desde a colonização?

Ai começa outro papo: não é sobre a corrupção, é por questões ideológicas.

Viu só? A conversa mudou. Você já foi feito de idiota, mas mesmo assim continua aceitando o discurso desses grupelhos.

"O PT é comunista, ele tinha um projeto bolivariano para o País".

Não tinha não, amiguinho. Pelo contrário. Podemos chamar de neo-social-democracia moderada a experiência petista desde o governo Lula, no máximo. Afinal, tivemos uma leve política de distribuição de renda, através de programas sociais insuficientes, que no final das contas, não chegava nem no joelho do "Bolsa Banqueiro" petista, que levou para os bancos lucros históricos.

O PT bolivariano não fez a reforma agrária. O PT bolivariano não regulamentou os meios de comunicação. O PT bolivariano não fez a Reforma Política democrática com participação popular.

O PT bolivariano não aumentou os impostos para os mais ricos. O PT bolivariano não nacionalizou ou estatizou nem o jardim do Planalto. O PT bolivariano permitiu que a violência contra a comunidade periférica continuasse nas grandes cidades, aprimorando a máquina de repressão do Estado em favor dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo, um evento que representa o máximo da burguesia.

Então, brasileiro idiota, você foi enganado duas vezes.

Não se trata sobre a corrupção. Muito menos sobre uma guerra ideológica contra o malvado comunismo.

Preparado para a realidade?

Tudo isso aconteceu por interesses.

Sim, interesses políticos e financeiros.

Político porque um grupo que já não consegue mais vencer nas urnas necessitava voltar ao protagonismo. Qual a melhor maneira de conseguir isso? E claro, não podemos esquecer dos grupelhos de rua pró-impeachment, que já aproveitam o momento para se estabelecer na política institucional, dentro de partidos corruptos para ganhar cargos -- e ah, você que vai pagar o salário deles!

Financeiros porque o mundo caminha para uma nova necessidade de experimentos sociais e econômicos. O mundo precisa de laboratórios, e onde melhor que o terceiro mundo para fazer isso? Vamos pegar um país subdesenvolvido, aplicar medidas econômicas de austeridade, eliminar o que resta de direitos trabalhistas para favorecer os empresários (com empresários você deve pensar no padeiro da esquina, mas na verdade é gente como Paulo Skaf) e passar por cima de restrições e regulações em questões ambientais e direitos humanos.

Pronto!

Isso tudo, claro, com o apoio da mídia e de grupos conservadores da sociedade -- como bem lembrou o Green Day em sua música citada acima.

Eu só queria dizer que estamos de parabéns. Principalmente vocês, brasileiros e idiotas. O restante, deixo a minha adolescência falar:

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