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O fracasso da 'Escola sem Partido' mostra que o brasileiro não é tão conservador assim

Publicado: Atualizado:
MAGNO MALTA
Brazil Photo Press/CON via Getty Images
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Sim, o brasileiro é conservador. Mas uma nova geração surge, e com ela uma nova perspectiva. A pesquisa feita pelo site do Senado Federal comprova a rejeição da maioria sobre o projeto Escola sem Partido -- que mesmo se eventualmente aprovado, seria descartado pelo Supremo Tribunal.

Até às 17 horas da última terça-feira (26), mais de 300 mil votos foram dados em uma pesquisa online realizada pelo site do Senado Federal, sobre o projeto Escola sem Partido.

Deste número, cerca de 183 mil votos foram contrários ao projeto de Lei do Senado (PLS) 193/2016, de autoria do senador Magno Malta. Outros 173 mil votos se mostraram favoráveis ao projeto.

Esse polêmico projeto foi motivo de ampla discussão nas últimas semanas ao redor do Brasil, principalmente nas redes sociais e nos meios de comunicação.

Para os seus defensores, trata-se de limitar a propagação de ideologias políticas por professores e educadores. Mas para especialistas, é uma grave tentativa de silenciar e censurar o debate sobre temas políticos, além de tratar-se de uma questão completamente inconstitucional.

Mas a realidade é que o brasileiro já não é mais tão conservador assim.

Sim, ele continua conservador em vários aspectos. Temos o resultado das eleições de 2014 como exemplo. Mas mesmo assim é uma "via de duas mãos".

Elegemos o Congresso mais conservador da nossa história. Sim. Mas como isso aconteceu? Além do conservadorismo do brasileiro, outro fator que justifica o resultado das eleições é o próprio sistema eleitoral do nosso país. Candidatos com melhor condição financeira geralmente estão ligados com grupos específicos da sociedade. Não por acaso, temos hoje a Bancada da Bala, a Bancada do Boi, e a Bancada da Bíblia. São setores privilegiados, que financiam seus candidatos políticos para colocar em prática os projetos defendidos seguindo o seu próprio interesse.

Os demais candidatos, com menor condição financeira, não conseguem ter a mesma visibilidade. Portanto, mesmo tendo um bom discurso e defendendo projetos vitais e aprovados pela maioria da população, o candidato menos beneficiado financeiramente não conseguirá bater de frente com um político "apadrinhado" pela Bancada da Bíblia, por exemplo.

Outro sinal claro é a vitória do Partido dos Trabalhadores nas últimas quatro eleições presidenciais, em 2002, 2006, 2010 e 2014.

Com uma plataforma de centro-esquerda, Lula e Dilma mostraram que o brasileiro, mesmo conservador, não concorda com muitas medidas econômicas e sociais defendidas por setores mais reacionários da política brasileira.

Mesmo com a maior parte da população defendendo o impeachment de Dilma Rousseff, vale lembrar que uma parte maior ainda não concorda com a continuidade de Michel Temer na presidência da República. Desejam então novas eleições, desacreditados do sistema político atual. E parte desse sistema político é quem mantém justamente o Congresso mais conservador da nossa história no poder.

Com uma reforma eleitoral e política democrática, talvez esse cenário mude com o tempo.
Da mesma forma que nasce uma nova geração mais aberta para temas sociais e políticas. Questões como a legalização do aborto, a descriminalização das drogas, o casamento homoafetivo e o debate sobre a homofobia, os direitos das mulheres e o racismo, são cada vez mais parte das nossas conversas cotidianas -- algo que, vinte anos atrás por exemplo, seria provavelmente impossível.

Estamos falando de uma geração que ocupou escolas em diversos estados do país contra a precarização do ensino. Uma geração que se importa cada vez mais sobre política. Em partes, trata-se de uma herança saudável dos protestos de 2013, e claro, da influência das redes sociais em nosso dia-a-dia.

Outro fator que comprova isso claramente é a participação de jovens nos protestos de 2013, e posteriormente nas manifestações contra Dilma Rousseff. Um organizado por movimentos autônomos e progressistas, e outro liderado por grupos conservadores.

Por exemplo, segundo dados do Datafolha, na maior manifestação contra Dilma Rousseff, o público em média era composto por homens, com idade superior a 36 anos. Por outro lado, as manifestações de junho de 2013, lideradas pelo Movimento Passe Livre, foram protagonizadas por um público bem mais jovem, entre 15 e 25 anos, em sua maioria estudantes secundaristas e universitários.

Existe um senso comum nos debates sobre política de que os protestos contra Dilma foram "inspirados e causados" pelas manifestações de 2013, dando abertura para o conservadorismo ocupar as ruas.

Em partes, o argumento é correto. Em outras não.

Não é o mesmo público, não são as mesmas pessoas. O brasileiro recuperou o hábito de se manifestar em 2013, e isso influenciou as manifestações contra o governo petista. Mas as principais características dos protestos do Movimento Passe Livre são bem diferenciadas dos atos convocados pelos grupos anti-Dilma. São táticas e métodos completamente diferentes, além do modo de organização (enquanto um horizontal, outro totalmente vertical).

A rejeição ao projeto Escola sem Partido é só mais um sinal.

Defendido por grupos extremamente conservadores do país, ele até poderia ser aprovado pelo atual Congresso Nacional. Mas jamais seria aceito pelo Supremo Tribunal Federal, que provavelmente o rejeitaria.

Mesmo assim, é bom saber que diante do atual cenário, o brasileiro vai aos poucos mudando o seu perfil.

Ele continua sendo religioso, e conservador em alguns aspectos. Mas algumas coisas estão mudando. Em tempos de crise política e falta de representatividade, trata-se de uma luz no fim do túnel. Nem tudo está perdido.

*Este texto faz parte de um debate entre blogueiros do HuffPost Brasil sobre o polêmico projeto de lei que quer implementar a 'Escola Sem Partido' no País. Leia um contraponto ao texto de Francisco Toledo aqui.

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- 'Escola sem Partido' e a noção mentirosa de neutralidade e pluralidade

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