Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Francisco Toledo Headshot

Maranhão e Cunha: Heróis de duas faces de uma moeda chamada farsa política

Publicado: Atualizado:
MARANHO CUNHA
Reprodução/CamaradosDeputados/Divulgação
Imprimir

Não se deixem enganar. Waldir Maranhão e Eduardo Cunha não podem, de forma alguma, se tornarem ícones políticos. São duas faces opostas da moeda -- o que não significa ser uma diferente da outra. É o fracasso do sistema político brasileiro pós-ditadura, conciliador e feito de esquecimentos.

Antonio Gramsci dizia:

"É preciso atrair violentamente a atenção para o presente do modo como ele é, se se quer transformá-lo. Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade".

O brasileiro precisa entender o que isso significa, para então entender o que acontece em Brasília nos dias de hoje.

Precisamos de um choque de realidade, para então podermos ter condições de retratar os últimos acontecimentos políticos da maneira como ele é: uma farsa, um teatro político baseado em interesses mesquinhos de grupos específicos que não possuem bandeira ideológica, e sim apenas interesses políticos de poder.

Isso não vai acontecer se não de forma violenta.

A violência, superestimada pela sociedade conservadora que controla as necessidades e ansiedades da maioria da população, é a única arma possível para enxergar o descontrole político e social pelo qual vivemos hoje.

Não falo da violência de modo simplista, como dito nos noticiários durante os protestos de Junho em 2013. Falo da raiva, da insatisfação, da decepção.

Na manhã da última segunda-feira (09), o presidente interino da Câmara dos Deputados, Waldir Maranhão (PP), resolveu por suspender a sessão do plenário da Câmara dos Deputados realizada no dia 17 de abril, onde aconteceu a votação determinando o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Não demorou muito, Maranhão se tornou o herói dos setores pró-governo.

Lembrei daquele velho mantra da direita brasileira, despolitizada e completamente baseada no senso comum:

"Primeiro tiramos Dilma, depois tiramos Temer, Cunha..."

Pensei exatamente nos governistas, com aquele sorriso torto dizendo: "Primeiro tiramos Temer, depois Cunha, Maranhão...".

Assim como Eduardo Cunha (PMDB), Maranhão representa o que de pior existe na política brasileira: a despolitização.

No terceiro mandato como deputado federal, foi primeiro filiado ao PSB, e depois ao PP: partidos que em teoria defendem bandeiras ideológicas completamente opostas -- mas que no Brasil, isso pouca importa. Trata-se de poder, de despolitização da política.

Para quem não se lembra, Maranhão é aliado de Eduardo Cunha, sendo que foi dele a decisão de limitar a investigação no Conselho de Ética sobre o então presidente da Casa. Com isso, Cunha não poderá ser investigado sobre as acusações de que teria recebido propina, conforme relato de delatores da operação Lava Jato.

Maranhão, assim como Cunha, é alvo da Lava Jato. Segundo o depoimento do doleiro Alberto Youssef na delação premiada, Maranhão fazia parte de um grupo de menor expressão do PP que recebia repasses mensais entre R$30 mil e R$150 mil da "cota" da legenda no esquema de corrupção na Petrobras.

Isso não impediu a reação desproporcional, teatral e beirando o ridículo de setores petistas e pró-governo.

Para quem tanto crítica os heróis do outro lado, colocar Maranhão em um pedestal é desmoralizar aquilo que resta de conteúdo ideológico defendido nas "trincheiras" da esquerda.

O próprio processo de impeachment contra Dilma foi movido por interesses mesquinhos baseados em uma farsa política.

Mas o que esperar de um País que não acordou? Como Gramsci pediu, fizemos o oposto. Não atraímos a atenção para o presente como ele realmente é, e por isso não vamos mudar absolutamente nada do que acontece por aqui, com ou sem impeachment.

Vivemos em um período político herdeiro de um fracasso chamado Ditadura Militar. Perdoamos nossos torturadores. Deixamos as instituições de repressão da forma como ela é. Não pregamos por justiça pelos mortos da época, e hoje assistimos chacinas e assassinatos políticos na periferia. Não tivemos a maturidade de reconhecer o presente como ele é -- preferimos seguir em frente, rejeitando o conflito e se baseando na conciliação.

E hoje, com o conflito em nossa frente, nos apegamos em ícones que usam do discurso político como lençol para tampar o que ele realmente é -- um teatro baseado em interesses objetivos e mesquinhos de grupos opostos, que no fundo defendem o mesmo.

O culpado disso?

Você. Eu. Nós. Eles.

*Texto publicado inicialmente em Democratize

ATUALIZAÇÃO:

Após se tornar o protagonista do noticiário político nesta segunda-feira (9), ao anular a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara Federal, o presidente interino da Casa, Waldir Maranhão (PP-MA), recuou e decidiu revogar a própria decisão. Leia mais aqui

LEIA MAIS:

- 'Ele está de volta' mostra como seria a volta de Hitler e faz alerta sobre 'populismo de direita'

- O Cunha caiu, mas a idiotice não

Também no HuffPost Brasil:

Close
Personagens do Impeachment
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual