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Por que defender cegamente um político não parece ser a coisa certa

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FERNANDO HADDAD
Bloomberg via Getty Images
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Não se pode esperar muita coisa de quem prometeu urbanizar a Favela do Moinho e não cumpriu sua palavra até hoje, 4 anos depois. Criticar o prefeito Fernando Haddad (PT) por sua política higienista contra o povo de rua é uma obrigação, tão importante quanto denunciar a política conservadora do governador Geraldo Alckmin (PSDB). Defender cegamente um político no Brasil é uma cilada.

Conversava com um colega pelo Facebook sobre a questão dos moradores de rua, que nos últimos dias tiveram pelo menos 7 mortos por conta do frio em São Paulo.

"É realmente lamentável", me disse.

"Mas criticar o Haddad em ano eleitoral é dar voz para a direita", completou.

Não. Criticar a postura de Fernando Haddad contra a população em condição de rua é uma verdadeira obrigação. Se a direita se aproveita disso para contar vantagem, seja através dos meios de comunicação ou de discursos políticos, isso é culpa justamente do próprio prefeito, que permitiu a ação truculenta de guardas municipais contra moradores de rua, retirando cobertores dessa população fragilizada e marginalizada em pleno começo de inverno.

Chega a ser inaceitável tal postura por parte de algumas pessoas que acabam defendendo individuos políticos cegamente. Como se aquela personalidade representasse algo maior do que a ideia em que acredita. Como se Fernando Haddad na prefeitura de São Paulo fosse mais importante do que aquilo em que acreditamos.

Não é. Nunca foi.

Não é de hoje que Haddad assume tal postura higienista e autoritária. É bom lembrar de três pontos críticos em sua gestão até o momento.

O primeiro é na Favela do Moinho, que se torna cada vez mais "insustentável" na ideia de cidade que o prefeito petista tem para São Paulo: limpa, elitista e segregadora.

Sua promessa de campanha para a comunidade que vive na última favela aberta do Centro da cidade foi a urbanização da região, com serviços básicos como esgoto, saneamento básico, entre outros. Seu prazo para cumprir tal promessa era até o segundo semestre do ano passado. Hoje, faltando poucos meses para as eleições municipais, o prefeito Haddad ainda não cumpriu sua promessa.

Os moradores não se calaram.

Por meses se manifestaram contra o prefeito. Levaram cartazes para a prefeitura, exigiram reuniões com Haddad e sua equipe. Foram ignorados.

O mesmo se repete em relação aos moradores das malocas de Alcântara e Cimento. Em uma ação coordenada pela Guarda Civil Metropolitana (a GCM), moradores sofreram agressões nos meses de agosto e setembro do ano passado. São pessoas que vivem em habitações construídas com materiais improvisados, como sobras de madeira, papelão e lona. Vivem geralmente de baixo de algum viaduto ou ponte. E mesmo assim são vítimas da prática higienista da prefeitura de São Paulo.

O povo das malocas resistiu. Com o apoio do Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais (Catso) e da Pastoral Povo de Rua, eles ocuparam a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social. Conseguiram uma reunião com o secretário de Direitos Humanos, Eduardo Suplicy.

Não deu certo. A prefeitura não quis abrir mão do seu plano: não promover habitação digna para aquela população, mas sim oferecer a chamada "bolsa aluguel", além de oferecer "tendas". Já os moradores, argumentam que as medidas da prefeitura visam apenas em afastar os moradores das malocas do Centro.



E agora, com mais uma medida que parece ter como objetivo afastar o povo marginalizado do Centro -- o que seria uma prática higienista de fato -- , a prefeitura permite que a Guarda Municipal Metropolitana retire dos moradores de rua os cobertores doados pela população, em pleno começo de inverno paulistano -- um dos mais frios das últimas décadas.

Até o momento, foram cerca de 7 os moradores de rua que faleceram por conta do frio na cidade.

Haddad consegue ir além da sua prática, defendendo o indefensável: "Qual é a orientação? Não deixar favelizar praças públicas", disse o prefeito. Além disso, a prefeitura disse que não é permitido "a privatização do espaço público".

O mesmo prefeito que defendeu em determinado momento a privatização da Previdência Municipal, hoje considera um cobertor uma atitude que pode ser considerada como "privatização" do espaço no qual o morador de rua se encontra.

É higienista. Segregador.

Dizer que essa questão vai "muito além de um cobertor no inverno paulistano", tentando justificar ou diminuir o papel do prefeito petista nessa absurda ação vai além de se calar -- é defender cegamente aquilo que não representa nossas ideias, e sim uma personalidade, um individuo político.

Para Haddad, deixo a letra de Criolo, na música 'Tô Pra Vê':

"Sem moral na quebrada, sua carapuça caiu. Ai, coisa feia... É óleo de peroba nessa cara de madeira".

*Texto publicado inicialmente em Democratize

ATUALIZAÇÃO:

Sob pressão devido ao tratamento dado a moradores de rua na atual onda de frio em São Paulo, o prefeito Fernando Haddad (PT) decidiu mudar a política de assistência e anunciou ações emergenciais. Além disso, na noite da última quinta-feira (16), pediu desculpas por ter usado o termo "refavelização" ao falar do que precisava ser feito com a população de rua.

As informações são do jornal Folha de S. Paulo.

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