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Por que a prisão de Garotinho não me causou comoção

Publicado: Atualizado:
ANTHONY GAROTINHO
Inácio Teixeira/ Coperphoto/Fotos Públicas
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Abro o Facebook e me deparo com um textão a cada 10 minutos sobre a cena do ex-governador Garotinho (PR) sendo levado para uma ambulância, preso, enquanto sua filha grita clamando por sua liberdade: "Meu pai não é ladrão", disse várias vezes. Ele observa as câmeras, reage e se contorce.

Para quem não conhece a sua figura e seu histórico, parece uma cena realmente lamentável. Afinal, não existe nada pior e mais humano do que se sensibilizar diante de uma filha vendo seu pai sendo levado preso - principalmente naquelas condições.

Mas eu conheço Garotinho. E assim como boa parte da sociedade, isso não me causou qualquer comoção.

Devo me sentir culpado?

Não. E não se trata de qualquer sentimento de vingança ou rancor aqui.

Em uma conversa com o professor e filósofo Vladimir Safatle, em meados de 2014, ele me disse:

"O problema dos intelectuais é a sua distância da realidade. É impossível entender o mundo e a sociedade dentro de um escritório fechado".

Tive essa impressão quando percebi a reação de colegas da esquerda sobre a prisão de Garotinho. Vivemos em uma bolha, e disso todos nós sabemos. Quando a esquerda fracassou nas urnas neste ano, vi muitos pregando pela auto-crítica, sobre a necessidade de entender os anseios e vontades da população. Claro, vi outros criticando a população - inclusive a mais pobre e marginalizada - por "terem votado errado".

Hoje vejo essa auto-crítica afundar - de novo. Enquanto o condutor de ônibus, o trabalhador da fábrica, a empregada doméstica e a vendedora de uma loja pouco se importam com o trágico destino do ex-governador do Rio de Janeiro, a esquerda insiste em abraçar a figura de Garotinho, se sensibilizando com a sua peça de teatro, tocando com razão na questão do Estado de Direito.

Mas esquecem que a quebra do Estado de Direito já existe, em condições muito piores em outros níveis da sociedade. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. E quem criou essa máquina assassina? O Estado. Mas, quais políticos em específico utilizaram dessa sistemática repressão e limpeza social para auto-promoção? Homens como Garotinho. Um político que conta como base eleitoral em seu estado o apoio de milicianos como o ex-delegado Álvaro Lins, condenado a 28 anos de prisão por ter chefiado uma quadrilha. Em 2014, Lins convocou toda a sua base miliciana em defesa da candidatura de Garotinho ao governo do estado do Rio de Janeiro. Áudios gravados no WhatsApp mostram o ex-delegado conclamando a vitória de Garotinho e, consequentemente, garantir o regresso de seu grupo aos quadros da corporação. Outro amigo e cabo eleitoral de Garotinho é o ex-inspetor Fábio Leão, também miliciano. Segundo ele, Garotinho teria dito pessoalmente e prometido a reintegração do grupo.

Lins foi Chefe da Polícia Civil do Rio nos governos da família Garotinho (entre 2000 e 2006, nos governos de Garotinho e sua esposa, Rosinha Garotinho). Ele foi acusado de montar um esquema de corrupção na instituição, loteando delegacias e dando proteção a integrantes da máfia dos caça-níqueis. Aliás, o ex-governador também é réu no processo, sendo condenado a dois anos e meio de prisão, pena que posteriormente foi convertida em distribuição de cestas básicas.

Indiretamente ou até mesmo diretamente, Garotinho é responsável por uma verdadeira máquina pública que mata pessoas diariamente no Rio de Janeiro. E ele não é o único merecedor desse "prêmio" - o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), que também foi preso recentemente, consegue ser tão maléfico quanto.

São homens que carregam nas costas nomes de jovens mortos pela polícia e pela milícia.

E o trabalhador comum da periferia, deve se importar com as "condições desumanas" de suas prisões?

A nossa distância para a sociedade explica o resultado das urnas. E o resultado das urnas pode ser explicado por situações como esta em específico. Não falamos mais com a população. Falamos entre nós. Utilizamos argumentos e retóricas propositalmente complicadas para nos sentirmos mais a vontade, nos sentirmos com a razão. Tiramos sarro de uma mulher de extrema-direita intervencionista que confundiu a bandeira do Japão com a simbologia comunista. Pensamos: "Estúpida. Burra. Anta". Somos superiores, afinal. Temos Chico Buarque e eles Alexandre Frota.

Temos a Constituição em nossas mãos - apesar de termos permitido que durante a Copa do Mundo, uma instituição estrangeira como a FIFA passasse por cima dela criando um verdadeiro Estado de Exceção. Somos a favor do Estado de Direito, apesar de termos apoiado uma presidente que permitiu a entrada das Forças Armadas em uma comunidade periférica do Rio de Janeiro, estabelecendo sua própria lei. Somos contra prisões arbitrárias, apesar de pessoas como Rafael Braga continuarem presos até hoje por portar Pinho Sol. Defendemos as minorias, apesar do lulo-petismo ter dado as costas para as tribos em Belo Monte. Defendemos o feminismo, apesar de termos se negado a falar sobre aborto em ano eleitoral "por causa da opinião pública".

Esperemos por 2018.

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