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Orgulho e Preconceito: O paradoxo da vida com HIV

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HIV
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Há cinco anos vivo com HIV. E tenho orgulho disso.

Pode parecer loucura, mas meu comportamento já foi observado em outros anos, em um outro momento da epidemia.

O orgulho

Muitas pessoas bateram no peito para gritar que tinham HIV e que não eram menos humanas por isso. E sim, isso foi motivo de orgulho.

Brasileiros marcharam muito para garantir que receberiam tratamento gratuito pelo SUS até serem atendidos em 1996. Isso foi motivo de orgulho.

Estou vivo e produzindo, sou artista, sou gay e sou soropositivo. Sou quem eu sou e desfruto disso a cada dia da minha pequena vida. Isso é motivo para orgulho. Sim, é.

Mais de 30 anos se passaram desde que o mundo conheceu o primeiro caso de aids em San Francisco (EUA).

Foram 30 anos de luta de movimentos sociais e pesquisadores da área da saúde para garantir vida e dignidade àqueles que contraíssem o temido vírus da Imunodeficiência Humana.

Hoje vivemos uma nova realidade. Uma pílula ao dia, ao invés do coquetel tóxico que fazia os portadores do vírus sofrerem inúmeros efeitos colaterais sem ao menos ter certeza de que sobreviveriam.

Pacientes que, diagnosticados cedo, iniciam seus tratamentos e nunca desenvolvem a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.

Andamos um longo caminho. A cara da aids não existe mais - recuperamos nossa dignidade - mas frequentemente ainda nos vemos escondidos por motivos de discriminação. No trabalho, na família, nos nossos relacionamentos amorosos...

Além disso, percebemos uma juventude que não conhece a aids como conheceram aqueles que vivenciaram os primeiros anos da epidemia.

Uma juventude que não tem medo - mas falhamos em usar isso a nosso favor.

Onde o medo não existe mais, podemos plantar o amor e o diálogo por uma expressão sexual saudável, prazerosa e respeitosa.

Há a necessidade de mudarmos o discurso e celebrarmos nossas conquistas - como fizemos quando primeiro isolamos o vírus, descobrimos uma droga contra ele ou decidimos pela terapia antirretroviral.

30 anos se passaram. Tantas descobertas. E o preconceito ainda reina.

Você conhece alguém que vive com HIV? Você já se relacionou com alguém que vive com HIV? Você já deu o fora em alguém com HIV?

Talvez sim...

Mas a verdade é que dificilmente isso é assunto em rodas de conversa se não for por lampejos sensacionalistas do jornal anunciando carimbadores e aidéticos (termo extremamente pejorativo que ainda nos persegue e castiga volta e meia, em 2015).

Há cinco anos vivo com HIV. E me orgulho disso.

Não me orgulho por ter transado sem camisinha, assumido um risco.

Não me orgulho de ser igual aos demais. Isso não deve ser motivo de orgulho para ninguém. Sim, igual. Pois todos corremos esse risco - ou não?

Se você nunca transou sem camisinha na vida, por favor, compartilhe este artigo, e ele com certeza alcançará alguém que já o fez. Meu texto talvez terá mais efeito assim.

A verdade é que nós, brasileiros, não temos um hábito muito ferrenho de usar a camisinha. Uma rápida pesquisa no Google ilustra isso.

Por que então tenho orgulho da minha sorologia?

Tenho orgulho porque tenho sorte.

Tenho muito boa sorte.

Tenho o Boa Sorte.

Um Projeto que coordeno junto com meu namorado, Gabriel Martins, onde falamos sobre HIV da forma mais atualizada e responsável possível. Estudamos, pesquisamos, fazemos palestras, oficinas, um ensaio fotográfico e um musical.

Nosso Projeto cresceu muito e muito rápido. Hoje temos o apoio do UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids) para revisar nosso material.

E ainda há muito por vir.

Eu tenho orgulho porque do meu diagnóstico tirei uma força pra viver e fazer o bem ao outro que eu não conhecia até então.

Hoje minha vida é isso. Minha vida é falar sobre HIV. Eu decidi ser o rapaz com HIV. E tenho orgulho disso.

Em um mês, começo a contar a minha história no musical Boa Sorte.

A partir de músicas nacionais que falam sobre a efemeridade da vida, da condição humana, tento revelar à plateia o turbilhão de emoções e pensamentos que me arrebatou quando ouvi a palavra "reagente".

A peça por enquanto estará apenas em Brasília e está sendo construída com muito suor e, infelizmente, pouco apoio. Apesar disso, trabalho com profissionais incríveis e temos muita fé que nossa campanha de financiamento coletivo garantirá que ela se concretizará! Pessoas hão de ajudar.

São pessoas envolvidas e interessadas na causa, pessoas que se importam e que levam adiante o diálogo sobre HIV.

Homens e mulheres, gays e heterossexuais, brancos e negros, pessoas com diferentes histórias - todos estamos suscetíveis ao vírus e, portanto, todos deveríamos nos importar.

Todos.

Talvez você ainda não esteja lá. Talvez ainda não tenha começado a entender a dor de viver com HIV, escondido, com medo...

Aos poucos vou te falando a respeito. Na peça, posso lhe falar a respeito. Ou aqui neste blog no HuffPost Brasil.

Quem sabe um dia tenhamos todos orgulho em dizer:

Eu Falo Sobre HIV.

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