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#TalkToMe: Minha mãe fala sobre seu filho gay vivendo com HIV

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Dia desses sentei para conversar com minha mãe, Malu Estrela, 55, sobre como era ter um filho gay vivendo com HIV e o tanto que ela precisou desconstruir estigmas para lidar bem com isso.

Conversar com minha mãe foi conversar com toda uma outra geração que carrega preconceitos e estigmas que a nossa talvez não consiga entender. Mesmo sem querer, trazem consigo marcas da nossa sociedade de 30, 40, 50 anos atrás. Não é maldade ou ódio. É só que foram criadas em uma época diferente.



E muita coisa mudou.

Minha mãe não representa todas as mães no mundo, nem sequer todas as mães no Brasil. Mãe não é tudo igual, não (apesar do que dizem por aí). Mas ela pode, no entanto, ser vista como um recorte. Mas minha mãe é um bom exemplo.

Goiana, ela viveu seus 20 anos quando a epidemia de Aids começou a despontar pelo mundo. Sobre a época mais dramática da epidemia, ela afirma que ainda assim parecia (como parece aos jovens de hoje) uma realidade distante. Nada mais natural, já que a primeira campanha do Ministério da Saúde no Brasil, de acordo com o site do mesmo, é de 1987 - cinco anos depois do primeiro caso classificado no Brasil.

Se compararmos, por exemplo, com a atual preocupação com o zika vírus, quando foi quase imediata a inserção de campanhas em mídias como internet e televisão, fica clara a demora. Não que há 30 anos o Brasil tenha errado nesse tempo, não gostaria de me aprofundar nessa crítica. É só que a comunicação funcionava diferente naquela época e tinha um peso diferente nas nossas relações.

Foi só quando atletas e artistas começaram a aparecer na televisão carregando seus diagnósticos que a Aids de fato começou a ser tema para a mídia popular e, assim, servir-se à mesa de jantar das famílias que, preocupadas, começavam finalmente a discutir a prevenção em casa. Isso foi na década de 90.

"Mas, mãe, antes da Aids, antes de todo esse alarde... Quem te ensinou a usar camisinha?"

"Nunca usei" - minha mãe afirma, sem sentir vergonha. É que quando finalmente o preservativo começou a se tornar essencial minha mãe já estava casada. Camisinha até então era coisa que só se usava com prostitutas. Homens e mulheres de família não transmitiam DSTs. Uma mulher casada se preocupar com a saúde sexual? Jamais.

Mas as coisas mudaram.

E acho importante que a conversa com minha mãe nos lembre desses outros tempos que passaram. Porque o discurso da camisinha hoje parece vazio. É como se a geração anterior a minha tivesse esquecido desse processo de aprendizado, de reeducação sexual.

A camisinha não foi sempre a salvação da pátria que ela é hoje. E não quero dizer que ela não seja importante ou que as pessoas devam parar de usar. Mas, precisamos ser francos: sozinha ela nunca será o suficiente. Precisamos de outras formas de prevenção como o lubrificante, as profilaxias pré- e pós-exposição, o diálogo...

Ninguém nasceu usando camisinha (ou nasceu sabendo usar ou nasceu porque usaram uma).

Precisamos aprender. Aprender que é nosso direito viver a sexualidade com saúde e prazer. E dispor de recursos para poder colocar isso em prática.

A saúde sexual é uma construção gradual e que adquire formas e cuidados diferentes dependendo da pessoa, sua identidade de gênero, sua orientação sexual, suas práticas sexuais... Mas como construir essa saúde sexual quando o conservadorismo avança contra o progresso dos nossos direitos sexuais?

Como ter uma sexualidade saudável se nossa sexualidade é, com frequência, vista como anormal? Se só pelo fato de existir você já é considerada uma pessoa doente? Como desenvolver um relacionamento saudável com afeto e respeito se você é menos do que ele? Gays e lésbicas, travestis e transexuais, mulheres - vocês sabem do que eu estou falando. Pois foi por meio de muito diálogo que minha mãe se livrou da culpa de ter um filho gay, da culpa de ter um filho vivendo com HIV. A culpa de ter feito algo "errado".

Conversar com minha mãe, conversar com essa geração, mais do que comove - nos move. Nos move unidos para construirmos uma realidade melhor para todos. Foi dialogando que minha mãe finalmente entendeu a necessidade do filho dela falar sobre. Falar sobre ser homossexual. Falar sobre viver com HIV. Não conseguiremos acabar com a Aids se não nos unirmos. Precisamos fazer a ponte entre duas gerações.

E essa ponte jamais pode ser feita com o argumento de que "a informação está por aí". "Está tudo na internet". Entre tantas lendas urbanas e informações desatualizadas, quem resguarda o jovem contra esse des-conhecimento? O caminho fácil não vai fazer frear o aumento de casos entre a juventude. Precisamos sentar, nós e eles (ou vocês e nós, dependendo de onde você se encaixar) e vencer o conflito entre as duas gerações.

De um lado, há quem viveu as duas primeiras décadas da epidemia, assustadoras. Quem viu morrerem inúmeras pessoas sem nem ao menos poder tentar um tratamento. Viram uma doença misteriosa espalhar-se e não querem deixar isso voltar a acontecer. Aprenderam que a camisinha é o caminho.

Do outro, temos jovens que nasceram com rumores e estigmas dessa doença. Aids. Mas nunca a viram, e sentem da geração anterior uma resistência de falar sobre. É que eles querem ser livres, ser amados. Afetar e ser afetados. Assim como seus pais, antes da Aids, eles não entendem o preservativo.

Devemos aprender. Nós com eles. Eles conosco. Respeitar o que passou e se permitir ao que é novo. Não repetir os mesmos erros, mas evoluir. O conflito entre gerações não pode seguir gerando o preconceito.

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