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De burkini ou topless as mulheres não são livres

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BURKINI
TIM WIMBORNE / Reuters
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Duas semanas atrás, eu estava em Antalya, no litoral sul da Turquia. A região é famosa pelo mar azul turquesa (belíssimo) e pelos resorts luxuosos. Pra mim, também é famosa pela inúmeros sítios tombados pela Unesco.

Com temperaturas altas de cerca de 38 graus Celsius, não é surpresa que as praias, especialmente as públicas, estivessem repletas de gente. Lá estava eu, com minha anfitriã turca, sentadas na beira do mar, quando me coloco a reparar nas pessoas ao meu redor, nas mulheres ao meu redor. A Turquia é um país de contrastes extremos - qualquer familiaridade é mera consequência. Ao meu redor havia, além de mim com meu biquíni brasileiro (comportado, diga-se de passagem) muitas garotas turcas: a grande maioria com biquínis maiores ou ate mesmo roupas, em especial shorts e saias. Mas havia também, em grande quantidade, mulheres e garotas de burkini.

Conversando com minha anfitriã eu não consegui deixar de mostrar minha excitação por poder compartilhar do mesmo espaço e tempo que aquelas garotas, por poder experienciar os extremos de forma relativamente harmônica e por fazer parte daquele contexto. Com um tom de curiosidade ela me perguntou "pra você deve ser chocante, não?", perguntei o porquê, "porque vocês fazem topless e usam micro-biquínis no Brasil, ué".

Relativizar, generalizar, banalizar, são verbos facílimos de se conjugar, verdade seja dita. Mas, ao invés de "deixar pra lá", resolvi colocar as cartas na mesa e conversar. Estávamos diante de dois extremos: o extremo do cobrir e o extremo da "nudez". Pra mim, burkini sempre foi algo esquisito no sentido de incomum, realidade à qual eu nunca fui muito exposta. Pra ela, o topless e o fio-dental estavam no mesmo patamar. "Vocês usam fio-dental porque se usarem maiô vão debochar de vocês?", ela perguntou, da mesma forma eu poderia ter perguntado: "Essas mulheres usam burkini porque foram obrigadas?".

Então, quem coloca o que em quem? Quem estipula qual a minha ou a sua zona de conforto? Quem dita as regras da "liberdade de expressão"? Mulheres de burkini, segundo o questionável governo francês, são oprimidas e, portanto, obrigadas a seguirem determinado código sartorial pra desfrutarem de uma vida social - além, claro, das questões do potencial uso da burca e burkini como instrumentos terroristas (!!!).

A questão é de uma delicadeza extrema, não porque gera discussões e debates acalorados e políticos (apenas), mas porque nos força a sair da zona de conforto e tentar entender o que a subjetividade da escolha significa pra mim e pro outro. Nos coloca diante de um sistema de governo (ou seria social?) que se força sobre a gente e nos dita como devemos nos expressar e qual o "dresscode" da nossa subjetividade. Novamente, qualquer familiaridade com nosso Brasil atual é mera coincidência... (?)

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Eu me senti sortuda, especial mesmo, porque eu tive a oportunidade de experimentar a diversidade cultural-religiosa em seus extremos. Pra mim, o Islã na Turquia acaba funcionando mais como um traço cultural do que um sistema religioso rigoroso, e minhas anfitriãs turcas concordaram com minha visão. Na cultura ou na religião (como se separam os dois, eu não sei), há escolhas e regras veladas, há paradigmas que cerceiam nossa subjetividade e colocam arestas no nosso jeito de se exprimir.

No Brasil, ainda corremos o risco de cometer "atentado ao pudor" caso queiramos retirar a parte de cima do biquíni, a não ser durante o carnaval, tempo do "tudo pode". E a hipocrisia por trás disso? Sabemos todos que ela está ali.

Assim como as mulheres em seus burkinis, rotuladas e tendo sua liberdade física restringida, temos nós, no Brasil, um sistema de restrição similar, que novamente coloca sobre o corpo da mulher, esse corpo tão polêmico (!), toda a carga de um pensamento cultural atrasado, tacanho e hiper-sexualizado.

No final, quem paga a conta, de novo, somos eu, você, sua irmã, sua prima, sua amiga, suas colegas, suas tias, todas nós, no Brasil, na França ou na Turquia. De novo somos nós, em nossa subjetividade, transformadas em um corpo. Um corpo tatuado por regras, tabus e polêmica, muita polêmica.

*Leia texto de Manuel Valls, primeiro ministro da França, sobre a polêmica envolvendo o uso do burkini por mulheres de descendência muçulmana no país.

LEIA MAIS:

- Polícia francesa obriga mulher a tirar parte da roupa em praia de Nice

- Nicolas Sarkozy faz da proibição do burkini sua principal promessa de campanha

- Suprema Corte da França derruba veto ao burkini

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