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Feminismo poliglota

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Quando comecei minha viagem eu tinha apenas um objetivo em mente: estar sozinha. Mas estar sozinha, aqui no feminino, significava de alguma forma mergulhar dentro de mim mesma e entender um monte de coisa que, bom, não vem ao caso no momento. O que vem ao caso aqui é o feminino daquela palavra ali em cima. De mochila nas costas, eu percorri doze países sozinha (sem contar nos quais eu apenas fiz conexões). Mas então que em alguns deles eu esbarrei num certo tipo de gente, certos tipos de femininos, que apagaram o sentido que a palavra sozinha tem. Esse texto é uma nota a elas, uma nota "feminista", porque trata de mulheres de culturas totalmente diferentes, mas com um mesmo ideal.

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Ainda em Londres, Diana acolheu minha mudança, malas e malas de cinco anos de vida na capital inglesa, todas cuidadosamente acomodadas na sua casa. Me desejou boa sorte, me deu força pra começar a viagem tranquila. A caminho da Sérvia, presas durante algumas horas no aeroporto por conta de uma conexão perdida, puxei papo com a Iva. Doce e de uma serenidade invejável, ela me falou dos seus sonhos, dos planos de advogar, da ambição de estudar fora de Belgrado. E quando percebi estávamos compartilhando visões de mundo. Pouco tempo depois, em Budva, Montenegro, encontrei uma australiana de olhar intenso e misterioso. Eliza é terapeuta ocupacional e, por algumas semanas, foi minha terapeuta. Noiva e apaixonada, pelo noivo e pela vida de viajante solitária, Eliza me mostrou como equilibrava seus desejos, sonhos e expectativas sociais. Adiante, na costa do Adriático na Itália, reencontrei a Dani; carioca, de uma delicadeza e força extremas, ela me acolheu na sua casa, me serviu o melhor da culinária da Puglia, me ensinou como lidar com os italianos (furadores de fila!), me aconselhou no começo de algo que, hoje, me ocupa por inteiro. Dani me deu chão. Na Turquia, um sofá se transformou na minha casa, Sebnem me recebeu com todo o carinho, respeito e comida (!) que a cultura turca demanda. Minha companheira de tantos desabafos, Sebnem me mostrou como lida com as dificuldades de lecionar numa universidade vinculada a um governo instável; me mostrou como a leveza e a autoconfiança podem nos sustentar. No Cazaquistão, Aika e eu tomamos um café e foi instantâneo; amante do jiu-jitsu brasileiro, a jovem jornalista me encantou com a certeza de seus ideais e com a força de quem conhece sua cultura como ninguém e sabe rebater qualquer estereotipo. Por fim, em Winchester, na Inglaterra, foram cinco dias intensos de conversas regadas a vinho e cuidado, Kate me deu um teto, um abraço e um porto no qual devo me segurar por muito tempo. Arqueóloga bem sucedida, Kate me ensinou que a palavra "feminismo" não deve servir de escudo pra esconder nossas inseguranças.

O que todas elas tem em comum? O feminismo. Não um feminismo de dicionário, rotulado e segmentado. Mas um feminismo que é real, que se adequa a contextos muitas vezes díspares e incongruentes. Uma vontade insaciável de serem inteiras, de se construírem e reinventarem, de ser ativa na política de cada cotidiano, mas nem por isso esconderem suas inseguranças e as dificuldades que, muitas vezes, o mundo nos coloca apenas por sermos femininos. Para alguém que lida com a critica feminista ha tantos anos, eu não posso deixar passar a oportunidade de mostrar pra vocês, aqui, que somos muitas, mas somos todas uma só. Não estamos sozinhas, nunca estivemos, e em cada canto do mundo, seja da forma que for, nos esbarramos com diferentes versões de nós mesmas: esse discurso e essas políticas, tão debatidas aqui no Brasil hoje e ontem, são a causa de muitas outras de nós nos recantos mais inesperados do mundo.

A essas mulheres maravilhosas, sem hipérbole, eu só tenho a agradecer: pelo espelho que puseram na minha frente, por me fazer sentir parte de algo maior, por me fazer acreditar que discurso é, sim!, prática e que estamos no caminho certo. Eu comecei minha viagem sozinha e terminei acompanhada. Estar sozinha é uma condição e é fundamental pra qualquer um que deseje crescer e se conhecer. O processo não é fácil, mas necessário. E a elas deixo aqui o meu muito obrigada. No feminino. E no singular.

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