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Ipea: Ensino Médio completo combate machismo e homofobia (ESTUDO)

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DANI LINDA
Reprodução
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Era piada, mas Dani Calabresa passou muito perto da realidade patriarcal brasileira no Furo MTV. Perto demais. “Existe cura para homofobia, sabia? Se chama Ensino Fundamental Completo”. Ao pé da letra, precisa do Ensino Médio, no mínimo. Se não for evangélico ou católico também ajuda. Uma pesquisa do Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, ligado ao governo, confirmou isso.

A pesquisa, divulgada nesta quinta-feira (27), mostra que 65% das pessoas entrevistadas acreditam que mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. Sim, MERECEM, esse foi o termo usado na afirmação, e mais da metade dos entrevistados concordara. Segundo a pesquisa, residentes das regiões Sul e Sudeste, jovens e pessoas com educação média e superior apresentavam menores chances de concordar com esse absurdo.

Ou seja, culpar a vítima é um mecanismo aprovado pela maioria das pessoas. Além de achar que merecem, mais da metade (58,5%) dos entrevistados concordaram com a frase “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”.

“A violência parece surgir, aqui, também, como uma correção. A mulher merece e deve ser estuprada para aprender a se comportar. O acesso dos homens aos corpos das mulheres é livre se elas não impuserem barreiras, como se comportar e se vestir ‘adequadamente’”, diz o Ipea no documento.

Como diz o próprio instituto no texto, a dominação masculina sobre o corpo e o comportamento é um dos mecanismos de funcionamento de uma sociedade ordenada do ponto de vista patriarcal, no caso, a nossa. “Os corpos das mulheres foram historicamente vistos como pertencentes aos homens, de livre acesso por eles e, complementarmente, como repositório de uma vida embrionária”.

Outra prova disso é a taxa de 40% dos entrevistados que concordam ao menos parcialmente com a ideia de que a esposa deve ser uma escrava sexual do marido. “A mulher casada deve satisfazer o marido na cama, mesmo quando não tem vontade”: 14% dos entrevistados concordaram totalmente e 27,2% parcialmente com isso. Novamente, quanto maior o nível educacional, menor a tendência em concordar. Ah, e olha aí o papel da religião: evangélicos têm chance 1,3 vez maior de concordar com a frase.

Na causa gay, religião e nível menor de educação também são fatores determinantes da homofobia, o que faz muito sentido, porque os dogmas patriarcais estabelecem o núcleo familiar formado por pais héteros e os filhos (se não forem gays, claro). Como sabemos, machismo tem a ver com homofobia. Mas há um avanço da aceitação do princípio da igualdade de direitos de casais homo e heterossexuais. Exatamente metade dos entrevistados concordam, parcial e totalmente, que casais de pessoas do mesmo sexo devem ter os mesmos direitos dos outros casais. No entanto, diante de uma formulação mais incisiva da mesma ideia – “o casamento de homem com homem ou de mulher com mulher deve ser proibido” – mais da metade, 52%, tendem a concordar com a proibição.

A intolerância chega ao pico quando a relação homossexual é explícita em público. Mais de 59% dos entrevistados se sentem incomodados ao ver dois homens, ou duas mulheres, se beijando na boca em público. A religião foi bem significativa na questão gay. Enquanto os católicos só se mostraram intolerantes além da média na ideia do casamento gay, os evangélicos “brilharam” como grupo mais intolerante à homossexualidade. A chance de tenderem a concordar total ou parcialmente com a proibição do casamento é 3,5 vezes maior do que a de não católicos ou evangélicos, enquanto a dos católicos é 1,4 vez maior.

Sublinho aqui, para embasar minha posição de que a violência contra mulheres e gays é uma questão de educação, mais dados da pesquisa SIPS – Sistema de Indicadores de Percepção social. As entrevistas da pesquisa, realizadas em 2013, garantem representatividade do Brasil. Tudo isso só comprova como ainda há muito trabalho a ser feito no país no âmbito social e cultural. Em outras palavras, mulheres e gays vivem, sim, em um ambiente opressor que deve ser combatido. Veja mais algumas frases de arrepiar a espinha:

- Mais da metade dos entrevistador concorda parcial ou totalmente com a afirmação “tem mulher que é pra casar, tem mulher que é pra cama”;

- Apenas 64% discorda da justificativa “dá para entender que um homem que cresceu em uma família violenta agrida sua mulher”;

- “Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”: 26% concordam com isso. A pesquisa usa o termo “somente”, para mim já é demais;

- 64% dos entrevistados e das entrevistadas afirmaram concordar total ou parcialmente com a ideia de que “os homens devem ser a cabeça do lar”;

- “Uma mulher só se sente realizada quando tem filhos”: quase 60% dos respondentes disseram concordar total ou parcialmente com essa afirmação.

- Somente cerca de 41% dos entrevistados concordaram que “um casal de dois homens vive um amor tão bonito quanto entre um homem e uma mulher”.

- 91% dos entrevistados acham que “homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia”, mas 63% concordaram, total ou parcialmente, que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família” e 89% dos entrevistados tenderam a concordar que “a roupa suja deve ser lavada em casa”. Confuso, não?

É, Dani, foi por pouco.