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Protesto online motivado por pesquisa do Ipea convoca selfies de topless contra o estupro

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MULHERES
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Na quinta-feira (27), minha timeline do Facebook foi inundada por comentários de amigos chocados com os resultados da pesquisa do Ipea sobre a percepção do brasileiro acerca da mulher. Os dados realmente mostram uma realidade absurda: 65% dos entrevistados acreditam que mulher que usa roupa curta merece ser atacada. Pior: 66% dos entrevistados eram... Mulheres. Oi?

Indignada com os resultados da pesquisa, a jornalista Nana Queiroz criou um evento no Facebook para o protesto online "#EuNãoMereçoSerEstuprada", que já tem até agora 32.000 convidados e mais de 2.000 presenças confirmadas. A ideia é postar no perfil uma selfie com a hashtag do protesto às 20h desta sexta (28).

Leia também: Pesquisa mostra dados alarmantes sobre violência contra as mulheres

Nana disse ao Brasil Post que teve a ideia quando viu o resultado da pesquisa, inspirada na Marcha das Vadias e no grupo russo Pussy Riot. "A ideia é que a gente tire a roupa e se fotografe, da cintura para cima, com um cartaz tampando os seios com os dizeres "Eu também não mereço ser estuprada" e postemos, todas juntas, ao mesmo tempo, online. Quem tá dentro?", diz a descrição do evento. Quem não quiser fazer topless pode aparecer vestida, o importante é postar a foto com a hashtag #EuNãoMereçoSerEstuprada no seu perfil do Facebook às 20h.

O protesto reverberou nas redes e o evento começou a ser utilizado como lugar de debate sobre políticas públicas voltadas ao problema, desabafos e, claro, discussão sobre como proceder no protesto.




"Muita gente tem falado que a maioria das entrevistadas eram mulheres e usado isso para atacá-las, afirmando que são machistas. Eu proponho um novo viés: as mulheres são tão oprimidas que apenas reproduzem a opinião masculina, sem sentir-se no direito de ter uma opinião própria. É preciso falar a elas, dizer que elas podem, sim, questionar e abusar dos decotes e das minissaias coma convicção de que não merecem ser vítimas de nenhuma violência", afirmou Nana ao Brasil Post.

Na semana passada, falamos sobre isso no Huff Post Live. Como repercussão do artigo comparando o sexismo no Oriente Médio com o da América Latina, da correspondente da NPR Lourdes Garcia-Navarro, falamos sobre a complexidade da liberdade das mulheres. A descrição do hangout: "As mulheres brasileiras em biquínis cavados representam o ápice da liberdade comparadas às mulheres vestidas em véus, niqabs ou burcas no Oriente Médio. Mas quando apelo sexual se torna um símbolo de liberação, essa liberdade pode se tornar uma prisão?" Sempre foi uma prisão, na verdade. Faz parte de uma mentalidade misógina que objetifica o corpo da mulher. Durante o Huff Post Live, cantei a bola de que falta solidariedade entre as mulheres. Em outras palavras, falta se entender como um ser humano livre que é dono de seu corpo e suas vontades, assim como todo mundo.

Menos julgamentos se alguma mulher é "vadia", "baranga", "quer aparecer", "não se dá o respeito" ou "fez por merecer": isso é solidariedade entre as mulheres. Para mim, o fato de que 66% dos entrevistados de uma pesquisa de nível nacional que mostrou uma mentalidade machista são mulheres só comprova que falta solidariedade. Menos patrulha machista, mais sisterhood. Se as próprias mulheres não se unirem contra a violência contra a mulher, "quem poderá nos defender"? A cavalaria não está a caminho, senhoras. Eu não mereço ser estuprada, e você?

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