Huffpost Brazil
Gilberto Dimenstein Headshot

Razões para não ler minha coluna

Publicado: Atualizado:
Print Article

Fomos treinados com a frase de que "boa notícia é a má notícia" -- aí está, em essência, a ideia que orienta a construção da reputação (e os prêmios) de um jornalista, capaz de revelar mazelas, impasses e tragédias.

Essa é uma das razões para o leitor evitar esta coluna. Simplesmente não acredito mais nesse pressuposto sagrado, considero-o uma visão deturpada da realidade. Diria mais, é uma bobagem repetida de geração em geração.

Montei boa parte da minha reputação profissional caçando apenas ótimas más notícias, o que me rendeu todos -- e por diversas vezes -- os principais prêmios de jornalismo e literatura.

Entreguei-me à investigação das mais variadas formas de corrupção pelos gabinetes de Brasília, passando pelo assassinato de crianças até a escravidão de meninas nas regiões amazônicas. Confesso a vaidade de ter, com esses prêmios, obtido reconhecimento internacional, o que me ajudou a passar tempos como acadêmico-visitante na Universidade de Columbia (Nova York) e, mais recentemente, em Harvard.

A denúncia é fundamental e necessária, sem ela os poderosos ficariam ainda mais livres para qualquer traquinagem. Óbvio.

Mas passei a ver as coisas diferentes, quando, além do jornalismo, dediquei-me ao ativismo comunitário, misturando as linguagens da comunicação com educação -- aliás, essa mistura, complexa, também é uma razão para o leitor evitar esta coluna. Para mim, todo cidadão responsável, a começar dos jornalistas, deveria participar de ações em sua comunidade. O que não significa envolvimento com partidos e governos. Significa não ficar só criticando e reclamando.

O jornalista pode ser cínico, cético e pessimista -- o educador precisa ser necessariamente um otimista, acreditando no poder de mudança da palavra.

Desenvolvi um prazer enorme não apenas em revelar o que vai mal ou pessoas e instituições que não prestam, mas em falar sobre quem faz a diferença, encontrando pérolas no chiqueiro.

Gosto hoje de descobrir e falar mais de quem encontra soluções, reinventores do mundo, do que daqueles que produzem problemas. Esse olhar me leva a tentar achar ações positivas onde muitos só veem o negativo. Por isso tanto posso elogiar como criticar na mesma intensidade qualquer partido ou governante.

Apenas criticar e falar de problemas é tão distorcido como ver o mundo de forma alienada num otimismo ingênuo, incapaz de encarar as dificuldades.

A importância da notícia deve ser medida pelo impacto que o fato, seja bom ou ruim, tem na vida das pessoas -- aí mora a boa notícia.

O resto é ficção jornalística.