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Ser LGBT em Israel: A ilusão do respeito

Publicado: Atualizado:
GAY PARADE
Roberto Machado Noa via Getty Images
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A notória parada gay de Tel Aviv aconteceu sem que, no Brasil, houvesse muita comoção.

Como foi sucesso absoluto, desprovido das tragédias que hoje permeiam os principais canais de comunicação, Israel ficou de fora. Talvez isso se deva ao fato do publico alvo da parada gay geralmente não ser uma audiência pró terra santa. Se apoiam Israel, muito provavelmente não apoiarão a parada gay. Este é o limbo de se ser esquerdista aqui em Israel.

A maioria da população local já não se identifica com a cultura esquerdista "diferente e liberal", e o resto do mundo, não ciente dos valores defendidos e da bandeira em punho, não se manifesta - seremos para sempre um país monocromático no panorama internacional?

Quando é a pauta, o Oriente Médio vem com roteiro pronto. Na confusão de notícias a maior chance é de uma desistência cansada, ou ainda, da repetição de um conteúdo permeado de crendices. É ou não é?

Munida de vontade de abrir um debate sobre todos os prós e liberdades que regem a vida em Israel resolvi abrir um blog. Falar abertamente sobre o que acontece no país que moro e convivo diariamente e mostrar que israelense é sim gente como a gente, sofrendo as consequências do ódio generalizado, muitas vezes sem nenhum apoio considerável de dentro e fora do país.

Reforçando que este movimento não pretende ser crítica aos que não apoiam Israel, sim um veículo para discussões sobre o que a internet e a grande mídia vivem expondo sobre o país.

Mais um aviso: Pretendo expor fatos e estudos, tentando manter de fora, in the best of my habilities, minha opinião.

Parada gay 2016:

Aconteceram diversos protestos contra a parada gay israelense deste ano. E, curiosamente, não foram os religiosos os protestantes. Foi a própria comunidade LGBT.

Longe de querer o fim da parada gay, a comunidade LGBT de Israel tem lutado para que o governo se ausente mais do evento.

Os gastos abusivos do governo na promoção de eventos e festas acima de qualquer orçamento plausível e o uso do evento para promover a agenda política do estado - Israel é o único país democrático do Oriente Médio, gay friendly e liberal - geraram protestos.

A parada gay israelense é famosíssima e atrai centenas de turistas nessa época do ano. O governo mantém uma posição de interesse quanto ao evento, porém, quando se trata de garantir os direitos da comunidade LGBT, deixa a desejar.

Conclusão: a comunidade foi às ruas para declarar que se o governo está usando o nome da causa LGBT para trazer turistas ou se utilizar da causa para promoção política, que haja de acordo, ou se ausente do evento.
O evento, assim como os protestos, foi pacífico. A festa teve maior público já registrado: 200 mil pessoas!

A parada Gay e a semana da mulher:

A parada, esse ano, deu também destaque às mulheres. Junto aos direitos LGBT, também foi pedido mais igualdade de gênero nos ambientes profissionais.

Apesar de Israel ser um dos países onde a desigualdade de gênero é mais baixa, em comparação a outros países desenvolvidos, a desigualdade ainda existe.

Casamento em Israel:

Como país judaico, baseado em leis judaicas, Israel baseia muitas de suas leis no primeiro testamento. Mesmo com influência religiosa, a legislação do país não reflete, na grande maioria dos casos, a bíblia.

Apesar disso, o casamento civil não existe no país, por mais que o Wikipédia cisme em dizer o contrário. Só existe mesmo o casamento religioso. Isto é: um homem, uma mulher e, bem... Deus.

Apenas 20% da população israelense segue uma linha religiosa ortodoxa. Os 80% restantes, pela lei, sequer deveria casar. Seguindo o pensamento, o religioso secular, reformista, liberal não deve casar, em nome de Deus. E, como você já deve ter imaginado, casais formados por pessoas do mesmo sexo também estão de fora, deixando muitos pares homoafetivos na mesma desvantagem.

Porém, como em todo lugar do mundo, o casamento acontece pelos mais variados motivos: o casal está apaixonado, o casal está a muito tempo junto, o casal quer uma grande festa, casar é bonito, casamento é uma tradição não religiosa secular. São inúmeras razões que impulsionam a realização contratual.

Mas em Israel, como na maioria dos países do mundo livre, casar ainda traz algumas vantagens - mesmo para quem não é um romântico em absoluto: O casamento garante direitos cedido pelo Estado. Existem benefícios ao casar (divisão de bens a facilidade para alugar/comprar um imóvel), mesmo o Estado não tendo absolutamente nada a ver com seu casamento religioso (pois é, vai entender. O Estado gosta muito de se enfiar onde não é chamado).

Dica: Se você está em um relacionamento gay, em Israel, existem muitas formas de apoio, inclusive do governo, para garantir seus direitos estatais. Na verdade, às vezes é mais fácil para um casal gay provar que está junto, do que um casal heterossexual (judeus não religiosos), provar uma união estável.

A democracia de Israel e os países vizinhos:

Infelizmente é verdade que os países vizinhos tem severas penalidades para com casais do mesmo sexo. Desde multa e cadeia até a pena de morte.

Isso culmina na migração de muitos refugiados e Israel tem o costume de aceitar de portas abertas, quando é esse o caso. Novamente, por interesse do governo em manter uma imagem democrática e liberal quando comparado a países muçulmanos.

Ninguém está falando aqui sobre bondade de políticos ou até mesmo que isso é uma regra absoluta. Mas, fato é, por interesse e puro interesse, acontecem boas ações.

Conclusões finais:

Sempre será uma batalha diária de todos os lados tentar viver suas vidas e seus ideais sem interferir nos direitos dos outros ou sem achar que um lado é mais certo, mais inteligente ou melhor.

Não houve mudanças desde a parada gay com relação aos direitos civis da comunidade LGBT. Mesmo assim, Tel Aviv continua sendo uma das cidades consideradas mais gay friendly do mundo e um dos principais pontos turísticos da comunidade mundial.

É um dos poucos lugares onde, realmente, casais andam de mãos dadas sem que ninguém chamem-lhes a atenção ou os olhem torto. É uma pequena bolha no meio do caos, mas que brota esperança por quem aqui passa.

Reforçando, a luta contra qualquer preconceito - seja ele contra o homossexual ou contra um país inteiro - é diária. E precisamos falar mais sobre isso.

LEIA MAIS:

- Qual é a tua, jornalismo?

- Ter foco é importante ao defender uma causa. Seja ela qual for

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