Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Grasielle Castro Headshot

Queremos uma escola que troca estudantes pela polícia?

Publicado: Atualizado:
OCUPAES
Wilson Dias/ Agência Brasil
Imprimir

"A escola ainda está ocupada?"

"Hoje, ela está ocupada pela polícia."

O curto diálogo ocorreu na última quinta-feira (3) no Centro Educacional Gisno, na área central de Brasília, em horário de aula. Apenas dois estudantes estavam na porta da escola.

Distante 30 km dali, também fui recebida por policiais. A escola é o Centro de Ensino Médio 304 de Samambaia.

"Não tem nenhum aluno aqui?"

"Não, a escola já está completamente desocupada", me respondeu o policial.

Mais uma vez, tiraram os estudantes e colocaram a polícia.

Os alunos não desistiram do protesto, mas tiveram que ceder à decisão da Justiça e à força da polícia. Os secundaristas seguem em vigília contra a PEC 55 (antiga PEC 241, que impõe um limite aos gastos do governo), a reforma do Ensino Médio e ao projeto Escola Sem Partido.

No Gisno, me aconselharam ir para a Universidade de Brasília (UnB), também ocupada. Muitos migraram para a universidade, na qual a autonomia é maior.

A decisão de adiar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) nas escolas que estão ocupadas, o que impulsionou a Justiça a autorizar uso da força policial para desocupar as escolas, não foi suficiente para esvaziar o movimento.

Mesmo se tivesse sido, o que se vê nas escolas é o despertar do pensamento crítico. Seja ele contra ou a favor das ocupações, jovens de 15 anos estão interessados em discutir e estudar temas que vão além da educação formal.

Estão tendo um contato único com outras esferas da organização social, com a democracia. No domingo (30), os alunos do Centro de Ensino Médio Setor Oeste, também na área central de Brasília, davam uma palestra aos pais e à comunidade sobre a ocupação.

"Não é que não queremos a reforma do ensino médio, é justamente porque queremos que estamos aqui. Mas não tem reforma sem dinheiro, não adianta cortar dinheiro da educação e prometer que o sistema de ensino vai melhorar."

O discurso foi feito por uma menina de 16 anos que discursava ao mesmo tempo em que atendia professores voluntários interessados em dar aulas nas escolas. Os "aulões" eram de temas voltados para a prova do Enem.

Eram estudantes cuidando da escola. Preocupados com ter aula, com um Ensino Médio atrativo, que tiveram que sair da escola para dar espaço à polícia que deixou as salas de aula sem aluno e professor. Foram esses secundaristas que impulsionaram o movimento e conseguiram a adesão dos universitários.

Diálogo

São estes estudantes que estão fazendo o alerta de que é preciso diálogo -- o mesmo que faltou e foi capaz de tirar Dilma Rousseff do comando do País. Embora o ministro da Educação, Mendonça Filho, tenha garantido que sempre esteve disposto ao diálogo, a União Nacional dos Estudantes não foi convidada para discutir os projetos com o governo nem para o Conselhão, que será retomado pelo presidente Michel Temer.

Fica o sentimento de que só há diálogo quando há consenso, quando as opiniões convergem, sobre o que já foi decidido e não tem mais volta.

Sem conversa, é mais fácil deixar que a Justiça e polícia resolvam.

LEIA MAIS:

- Número de alunos que terão a prova do Enem adiada sobe para 240 mil

- 'Sempre estive disposto ao diálogo', diz ministro da Educação sobre reforma do Ensino Médio

Também no HuffPost Brasil:

Close
'Escolas de Luta': Retratos das ocupações que sacudiram o Brasil
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual