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Personagens fortes não salvam 'Esquadrão Suicida'

Publicado: Atualizado:
ESQUADRAO SUICIDA
Reprodução/YouTube
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Pouca gente enfrenta, de igual para igual, o Batman nos quadrinhos. Primeiro porque seu nível de habilidades é muito forte, mas principalmente pelo motivo de: os roteiristas amam o personagem. E curtem mais ainda dar uma forçada nos poderes dele para agradar aos fãs, que não são poucos.

Então, não é todo dia que se vê alguém peitando o personagem. Muito menos uma mulher negra e gorda. Essa é uma das imagens mais emblemáticas da personagem Amanda Waller nas HQs. Ela co-protagoniza o filme Esquadrão Suicida, que chegou aos cinemas na última semana e, dentro das telas, coloca vilões confrontando um inimigo e tendo que salvar as pessoas.

Fora das telas, o confronto vem sendo entre a crítica e o público - ela detestou o filme, eles estão curtindo.

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Não à toa a personagem vivida por Viola Davis é o grande destaque do filme. Com um roteiro fraco, uma direção preguiçosa, várias saídas óbvias e histórias bagunçadas de bastidores, Davis e Will Smith (que interpreta o Pistoleiro) concentram partes positivas da produção. Mas eles não conseguem salvar Esquadrão Suicida.

Na trama, que se passa após os acontecimentos vistos em Batman vs. Superman, a personagem de Viola Davis é responsável por unir uma força tarefa de criminosos para lidar com problemas que os heróis não poderiam cuidar. Dentro desse universo de filmes da Warner/DC, o DC Extende Universe, há o medo de "um novo Superman não ter os valores do antigo". Dessa forma, o governo americano precisa se precaver.

Davis interpreta uma personagem dúbia. Ela mete medo em todo personagem masculino no filme, tem poder e nenhum receio de demonstrar isso. Para chegar nesse patamar, há várias cenas que deixam suas ações bem questionáveis moralmente, o que dá mais camadas para ela.

No decorrer do filme, Smith acaba liderando a equipe em busca de sua redenção - provar à filha que ele não é tão mau assim. Numa trama onde vilões precisam salvar o dia, a coisa poderia ser mais cinza.

Não é.

Tudo é maniqueísta demais, rápido demais.

O filme ainda sofre com problemas sexistas. Quase toda mulher que aparece na tela, mesmo que ocupando uma posição de trabalho bacana dentro da história, acaba apanhando de algum personagem masculino.

É ofensivo e gratuito, um jeito muito fácil para demonstrar quão malvados são os personagens. Tem também muita esteriotipação (sic) - Katana é a asiática pequenina e mortal, Crocodilo é o feioso porradeiro, Amarra é o ameríndio que só aparece para ser morto - para pouca profundidade nesses personagens.

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Por ser a representação do soldado americano branco e idealista, Rick Flag se mostra um contraponto funcional ao Pistoleiro de Will Smith, mas é uma associação bem piegas. É como se o filme pegasse vários clichês ruins de filmes oitentistas e juntasse numa trama só.

Magia, a grande ameaça do filme interpretada por Cara Delevingne, é, nas palavras de Amanda Waller, "a maior meta-humana que conhecemos". Isso significa que esse universo cinematográfico bebe de um preceito dos quadrinhos que afirma que o Superman é vulnerável à mágica. Ou seja, em termos de poder, essa é a maior personagem já apresentada nos filmes Warner\DC. E mesmo assim, para montar o que seria seu exército de zumbis, uma poderosa e antiga entidade mágica precisa beijar as pessoas na boca.

Fico imaginando os produtores e o diretor chegando à conclusão de que o público-alvo acharia essa ideia muito boa. "Todo garoto de 13 anos de idade ia curtir ser beijado pela Cara Delevigne, num é? Então bota ela beijando todo mundo aí", deve ter dito um executivo da Warner num brainstorm do filme. Não sei se chega a ser ofensivo e pode ser exagero se importar com isso, mas incomoda o número de saídas preguiçosas pelas quais a direção optou.

Muito disso pode ser parte dos problemas que o filme sofreu nos bastidores. Algumas informações dão conta de que essa não é a versão que o diretor David Ayer queria colocar no cinema. Executivos do estúdio não estavam contentes com o tom que o filme estava tomando e decidiram optar por uma versão feita pela empresa responsável pelos trailers da produção. Os atores foram convocados para regravar algumas cenas e pode ter sido aí que inseriram a enxurrada de piadas, cenas de flashback e outras questões que não levam a lugar nenhum, como a pelúcia do Capitão Bumerangue.

Havia muita ansiedade no novo Coringa e na primeira representação da Arlequina. Evidentemente um relacionamento abusivo, a relação é mostrada com ares romantizados. Vários sites especializados já analisaram isso muito melhor, como o Collant Sem Decote, e isso pode ter um efeito muito perigoso na plateia.

Além disso, Jared Leto interpretou alguma coisa muito estranha ali, um gângster maluco, um vilão chapado inconsequente... Qualquer coisa, menos o Coringa.

Talvez aí deixe claro a diferença não apenas dos atores que interpretaram o personagem antes, como também dos diretores que trabalharam nesse personagem. Leto declarou não ter ficado contente com a edição que o filme sofreu, dizendo que muitas cenas suas foram cortadas da edição final que foi ao cinemas. Sua declaração convenceu menos que a interpretação no cinema.

Já Margot Robbie surpreende com seu carisma. Sua personagem sofre pela sexualização exagerada, principalmente no figurino - shorts curtíssimo, camiseta branca molhada no clímax do filme. Mas a caracterização da atriz rende risadas e mostra que ela estava à vontade no papel. Ao lado de Davis e Smith, é outro ponto interessante na atuação.

Entretanto, a história de origem é confusa e mostra a preguiça do roteiro: ao invés de explorar mais o lado psicológico da transformação que a terapeuta sofre ao ser exposta à psique do Coringa, eles somam uma lobotomia a isso, numa das cenas que evidenciam os abusos do vilão e choca desnecessariamente.

É uma espécie de atalho no roteiro que prefere deixar óbvia a situação em vez de construir a situação. Mesmo assim, Coringa e Arequina protagonizam uma das melhores cenas do filme, que dura pouquíssimos segundos e faz referência a um quadro do artista Alex Ross.

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Os números da semana de estreia no Brasil não deixam dúvida da diversão proporcionada e do sucesso na bilheteria. Informações divulgadas na segunda-feira (8) mostram que Esquadrão Suicida lidera o ranking nacional com um total de R$ 38,9 milhões de reais, levando 2,3 milhões de pessoas aos cinemas.

Mundialmente, o filme já bateu US$ 267 milhões. É inegável o carisma dos personagens e seu apelo com o público, com muito potencial para se tornarem memes como aconteceu recentemente com Deadpool.

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