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A saída do Reino Unido da União Europeia e o futuro do bloco

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BREXIT
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A União Europeia, maior experiência de integração na atual sociedade internacional, passa por um de seus momentos mais delicados desde a sua criação: a saída do Reino Unido do bloco (Brexit, como ficou conhecida a abreviação de British Exit).

Idealizada com o objetivo de evitar novos conflitos armados, como as duas Guerras Mundiais que tiveram a Europa como seu principal palco, e com origens nos acordos das Comunidades Europeias da década de 50, a União Europeia já acumula décadas de avanços rumo à supranacionalidade. Trata-se de um processo que marcou a sociedade internacional, tornou-se exemplo aos processos de integração e alterou a geopolítica global.

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Em uma decisão histórica e bastante controversa, a maioria dos cidadãos do Reino Unido decidiu por deixar o bloco em referendo realizado no último 23. O Brexit foi a opção de 51,9% dos britânicos (17.410.742 votos), enquanto 48,1% votaram pela permanência na União Europeia (16.141.242 votos), totalizando cerca de 1,3 milhões de votos de diferença entre as duas opções.

A vitória do Brexit representa a primeira retirada de um país desde a criação do bloco e torna-se ainda mais traumática pois trata-se da saída da segunda maior economia da União Europeia.

O Reino Unido nunca foi um membro completamente engajado na União Europeia. Membro desde 1973, os britânicos não participaram da formação das primeiras comunidades e sempre viram a integração com muitas ressalvas, tanto que nunca adotaram a moeda comum e não participavam do Acordo Schengen, apesar de participarem de mecanismos de livre circulação de pessoas.

A questão da imigração e os custos de participação no bloco eram alguns dos principais argumentos dos defensores do Brexit. Acreditavam que a retirada do Reino Unido do bloco diminuiria o fluxo migratório gerando maior empregabilidade para os britânicos. Além disso, pensavam também que as contribuições que atualmente o país faz para o bloco poderiam ser direcionadas internamente aos serviços públicos. Ambos argumentos baseiam-se no medo e são falaciosos, entretanto, foram capazes de convencer parte do eleitorado.

Aproximadamente metade das exportações britânicas tem como destino os demais países da União Europeia. A saída do Reino Unido do bloco, deverá gerar a queda nestas exportações, já que o país não gozará mais dos benefícios de tarifas e demais mecanismos comerciais diferenciados por conta da participação. O argumento do desemprego causado pela integração cai por terra, já que a saída do bloco que gerará aumento da taxa pela queda do comércio exterior intra bloco.

Quanto à questão migratória, vale acrescentar o retrocesso xenófobo que ela representa e uma constante necessidade de culpar os estrangeiros pelas crises econômicas internas. Argumento mais simples do que compreender as verdadeiras razões dos problemas econômicos do país. Ademais, observa-se pelos dados que as contribuições britânicas para a União Europeia são facilmente superadas pelos investimentos do bloco no país, que perderá boa parte de seus atrativos para tais investimentos após sua saída da União Europeia.

A decisão por uma margem pequena demonstra que o Reino Unido encontra-se dividido, o que já se constatava pelas ferozes campanhas e debates travados ao longo do período anterior ao referendo. Inglaterra e Gales apoiaram majoritariamente a saída do bloco, enquanto Escócia e Irlanda do Norte (também acompanhadas por Londres) optaram pela permanência.

Podemos observar também uma diferença de posição entre as gerações. Entre os jovens de 18 a 24, 72% votou pela permanência no bloco. Interessante observar que quanto maior a faixa etária, menor o percentual que desejava a permanência no bloco, chegando até os 34% dos cidadãos de mais de 65 anos, onde, portanto, mais de 60% desejavam o Brexit.

As consequências começaram a ser sentidas imediatamente. Escócia e Irlanda começam a reconsiderar a possibilidade de deixarem o Reino Unido para manterem-se na União Europeia. Enquanto isso, o primeiro ministro britânico David Cameron, principal liderança para a permanência no bloco, anunciou sua renúncia e deverá deixar o cargo em outubro. A saída da União Europeia deverá ser conduzida por um novo premiê.

Além disso, a libra sofreu uma queda para níveis que não se via desde 1985. Por todo o mundo as bolsas despencaram, atingindo queda de 8% no Japão, por exemplo. Duas das principais agências de risco do mundo, a Standard & Poor's e a Fitch, rebaixaram a nota do Reino Unido por conta da incerteza criada pelo Brexit. Standard & Poor's também rebaixou a nota da própria União Europeia nos últimos dias.

A vitória do Brexit coloca a União Europeia diante de um desafio sem precedentes e o futuro do bloco e do Reino Unido em um terreno de incertezas. O próximo primeiro ministro britânico terá a difícil tarefa de negociar os termos de saída do país do bloco e as consequências para o Reino Unido e para a Europa ainda são incertas.

Trata-se de um retrocesso não apenas no processo de integração europeu, mas no avanço rumo a uma sociedade internacional com menos fronteiras para produtos e pessoas. A concepção de soberania absoluta ainda parece convencer em detrimento da abertura de mercados e de fronteiras para a livre circulação de pessoas. Os argumentos de protecionismo comercial e barreiras à imigração nos levam ao atraso e não a um mundo mais livre.

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