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Temer e o retorno do liberalismo condicionado na política externa brasileira

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MICHEL TEMER
ASSOCIATED PRESS
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Em sentido figurado, pode-se dizer que a nova política externa de Michel Temer representa "os novos velhos tempos" na diplomacia brasileira. Em outros termos, a orientação de Temer retoma, atualizada ao contexto corrente, a visão de ordem internacional do governo Fernando Henrique Cardoso.

Na prática, isto significa a busca de ações que estejam subsidiadas à prioridade conferida à conquista de "estabilidade" e "credibilidade, tal como empregado pelo governo tucano em meados da década de 90.

Nessa visão, a restauração da confiabilidade internacional está associada ao compromisso com a estabilização macroeconômica e a manutenção da governabilidade, de acordo com o "parâmetros" das agências financeiras e do mercado internacional.

Tanto é assim que o "ajuste fiscal" no plano macroeconômico está sendo acompanhado de uma política externa cujo principal vetor seja o discurso da "inserção competitiva" do Brasil nas novas geometrias de comércio internacional.

No plano da diplomacia econômica, as orientações de Temer não são muito diferentes das de FHC: a busca de "relações maduras" com os Estados Unidos; União Europeia e Japão, negociação entre Mercosul e União Europeia, a participação nos principais exercícios multilaterais em curso - Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Neste último caso, embora essa ainda seja uma vertente importante da diplomacia econômica nacional, em função do efeito inercial da participação brasileira em longos processos de negociação econômica multilateral sem resultados substanciais, estratégias complementares estão sendo consideradas, tais como, acordos bilaterais de livre comércio e/ou preferências tarifárias.

No que tange ao Mercosul, FHC o via como um instrumento com o qual o Brasil poderia disputar um espaço econômico no mundo, além de um espaço em que o capitalismo brasileiro poderia ser expandido.

Para Temer, além de declarações pouco instrutivas de seu "chanceler" José Serra sobre a necessidade de fortalecimento e revitalização do Mercosul, não se sabe ao certo qual será o seu papel para a política externa brasileira.

Do ponto de vista prático, a principal semelhança entre os dois governos, portanto, é de perspectiva, da visão da ordem internacional. Ao buscar consolidar relações com a corrente principal da economia global - Estados Unidos, Europa e Japão -, com menor ênfase no Sul Global, um dos eixos do modelo Lula-Dilma, o Temer enfatiza uma determinada perspectiva da ordem mundial, representação está próxima ao sistema geoeconômico EUA-UE. Isto é, uma perspectiva em que a globalização é a tendência dominante, com o predomínio dos Estados Unidos, com base na sua superioridade militar, econômica e tecnológica.

Neste contexto, resta saber a "prioridade" que Temer pretende conferir à China, mas nessa área semelhanças ou diferenças com FHC seriam arbitrárias, uma vez que os chineses na década de 90 não eram um "imperativo comercial" como são hoje para o Brasil. Ademais, num mundo mais heterogêneo e competitivo do que de 20 anos atrás, a inclusão de Rússia e Índia podem vir a representar um contraponto saudável aos EUA na região.

É por esses motivos que a política externa de Temer reflete a visão das mesmas elites pertencentes à comunidade de política externa que orientaram a inserção internacional de FHC duas décadas atrás: setores do executivo, congresso, liderança empresariais, grupos de interesses que percebem que pela "insuficiência" de poder do País no cenário internacional a busca por credibilidade, e a postura defensiva daí decorrente correspondem a melhor estratégia de inserção internacional do Brasil.

É, portanto, a volta do liberalismo condicionado como eixo orientador da política externa brasileira.

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