Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Guilherme France Headshot
Felippe De Rosa Headshot

O controle de armas saiu vitorioso com o resultado da eleição norte-americana

Publicado: Atualizado:
BULLET CONTROL
atorresl via Getty Images
Imprimir

Os resultados das urnas das eleições norte-americanas apresentaram um cenário desafiador para a agenda progressista. A eleição de Donald J. Trump como o 45º Presidente dos Estados Unidos da América, somada ao controle do partido Republicano no Senado e na Câmara, desenha um cenário complicado para os Democratas pelos próximos anos.

Entretanto, nem todas as notícias que vieram das urnas na terça-feira são ruins para a agenda progressista. Principalmente em um tema caro para os membros do partido do presidente Barack Obama: leis mais rígidas em relação ao porte de arma. Em quatro estados - Califórnia, Nevada, Washington e Maine - legislações mais rígidas foram propostas nas cédulas de votação para que os eleitores decidissem sobre a compra e porte de arma e munições.

Os Estados Unidos hoje têm 300 milhões de armas de fogo em seu território e, em média, apresenta 91 incidentes por dia. De janeiro de 2013 a junho de 2016, 1.000 incidentes foram registrados, resultando em um total de 1.134 mortes e 3.950 feridos nesses ataques. Dentro desse quadro, em três dos quatro estados - Califórnia, Nevada e Washington - as proposições tiveram sucesso, enquanto elas foram rejeitadas em Maine.

Na Califórnia, a Proposta 63 limita a posse de munição por indivíduos, estabelece a pesquisa por antecedente criminais e psicológicos para a compra de munição, obriga o registro de perdas de armas, além de estabelecer um protocolo para confiscar as armas de condenados por assalto. A proposta feita pelo ex-prefeito de São Francisco e vice-governador da Califórnia, Gavin Newsom, chega pouco menos de um ano depois dos ataques de San Bernadino que mataram 14 pessoas e feriram 22. O ponto forte da campanha de Newsom foi contestar o argumento frequentemente perpetrado pela National Rifle Association (NRA) de que lei de controle de armas são um fardo para os cidadãos de bem que têm direito ao porte de arma pela Constituição norte-americana.

Em Washington, a proposta autoriza juízes a impedir que pessoas com problemas de saúde mental comprem armas de fogo. Além de reforçar a proibição contra pessoas com antecedentes criminais, a questão trouxe um debate importante: como armas de fogo facilitam o suicídio. Segundo um estudo publicado pela Escola de Saúde Pública de Harvard, existe uma correlação direta entre a exposição de armas de fogo e o índice de suicídio. O estudo aponta que, em estados com pouca disseminação de armas de fogo, o número de suicídios é quatro vezes menor do que em estados com ampla presença de armas de fogo.

A iniciativa em Nevada, por sua vez, tinha como objetivo expandir a pesquisa de antecedentes psicológicos e criminais para compras realizadas em vendedores privados - amigos, parentes e colecionadores - e também às transferências de posse entre indivíduos. Esse movimento em Nevada ataca uma falha na legislação em relação a esses vendedores privados, amplamente subestimados na legislação atual e que veem sua atividade aumentar consideravelmente com as vendas online. O movimento em Nevada é alinhado com as tentativas do Presidente Barack Obama de tentar atacar essas falhas legislativas com ordens executivas e demonstra uma preocupação com o aumento das atividades - e potencial perigo - dessas práticas privadas. A iniciativa foi aprovada pelos eleitores por uma pequena margem 50,45% contra 49,55%. Em Maine, no outro lado do país, uma medida semelhante, todavia, foi proposta e rejeitada.

Os resultados em todos os estados denotam um cenário semelhante. Em grandes centros urbanos, medidas para restringir venda e posse de armas de fogo e munição são bem-sucedidas. Mais afetadas pelo fantasma da violência urbana, as populações desses centros se contrapõem à população rural, onde do uso de armas para a caça esportiva de animais permanece um traço cultural importante.

Outra linha de análise mostra que todos os estados que tiveram propostas de medidas mais duras em relação ao controle de armas foram vencidos por Hillary Clinton. A predileção do eleitorado democrata por medidas mais duras em relação ao porte de armas entra, a partir de agora, em rota de colisão com as promessas do Presidente-eleito Trump. Apoiado pela NRA, Trump se comprometeu a preservar os direitos relacionados à Segunda Emenda e combater qualquer medida restritiva, mesmo as mais brandas, como impedir que indivíduos em lista de alerta por terrorismo possam adquirir armas de fogo.

Um importante aspecto nas votações por leis mais duras em relação ao controle de armas foi a participação e apoio financeiro do grupo "Everytown for Gun Safety", do milionário e ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg. Fundado em 2014 para avançar uma legislação mais dura e fazer frente ao tradicional lobby da NRA, Bloomberg mobiliza seus recursos e capital político para avançar essas iniciativas em estados e cidades, reconhecendo o poder dessas instâncias e a paralisia que tomou conta do Congresso Nacional.

A alternativa é viável. Pesquisas indicam que a maioria da população favorece restrições mais duras à compra e venda de armas de fogo e munição. É o Congresso norte-americano que vem se mostrando incapaz de realizar esses anseios. Levando a questão diretamente aos eleitores, proponentes dessas medidas, como visto, têm maiores chances de obter sucesso.

LEIA MAIS:

- O que esperar do presidente Donald Trump?

- Hillary ou Trump? Um guia prático para acompanhar a apuração das eleições nos EUA

Também no HuffPost Brasil:

Close
De que o mundo mais tem medo em Donald Trump
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual