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O que esperar do presidente Donald Trump?

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TRUMP PRESIDENT
Win McNamee via Getty Images
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Qualquer análise sobre um futuro governo Trump depende de uma simples questão: podemos acreditar em tudo que ele fala e escreve nas redes sociais?

Existe um lado que argumenta, talvez esperançosamente, que tudo que Donald Trump vem dizendo e fazendo tem objetivo eleitoreiro. Ou seja, para chamar atenção e ganhar eleitores, ele tem dito coisas que não acredita ou, pelo menos, não pretende efetivar. Nesse sentido, governaria de maneira mais razoável e sensata.

De outro lado, há quem acredite que ele verdadeiramente crê no que diz e promete e pretende, realmente, implementar as medidas apresentadas durante a campanha. Assim, a meta, por exemplo, de construir um muro na fronteira com o México seria uma de suas prioridades.

Se Trump fez uma campanha guiada pela xenofobia, pela misoginia, pelo racismo e pela LGBTfobia, temos poucos motivos para acreditar que seu governo será diferente. Não se sustenta a vã esperança de que aquilo não passasse de um candidato falando o que seus apoiadores queriam ouvir.

A história nos ensina que é melhor acreditar no que as pessoas dizem do que torcer para que tenham uma boa intenção por trás de mentiras e falsas promessas. E a própria história da campanha eleitoral sinaliza qual desses lados deve ter razão: em diversos momentos, tentou-se controlar Trump, colocá-lo para ler os discursos prontos e evitar polêmicas. Foram breves e fugazes momentos em que o candidato seguiu a orientação de seus assessores. Difícil acreditar que, imbuído do poder da Presidência, haverá algo capaz de restringi-lo.

Chegamos, então, em um outro problema: os poderes da Presidência. E esse é um problema de autoria dos próprios democratas, ao menos em parte. O presidente Obama expandiu muito os poderes e competências de seu cargo. Por meio de decretos executivos interferiu em questões como imigração, mudança climática, etc. Claro, a razão pela qual fazia isso era o Congresso de maioria republicana que não aprovava nenhuma de suas prioridades. Entregar a Presidência superinflada a Donald Trump será tarefa indigesta para o Presidente Obama.

Existe, em tese, um sistema de freios e contrapesos que poderá contrabalancear e quiçá prevenir eventuais excessos do presidente Trump. Acontece que esse sistema está, atualmente, nas mãos dos republicanos. Eles detêm a Câmara dos Deputados e frágil maioria no Senado. A pièce de résistance de democratas será, sem dúvida, o Senado - lá, para a maioria das questões serem decididas, é necessária maioria de 60 votos e democratas possuem 48 cadeiras. Há, ainda, a esperança que os próprios líderes republicanos sejam capazes de conter eventuais excessos de Trump, como a deportação forçada de milhões de imigrantes prometida na campanha.

A Suprema Corte representará o último bastião contra a ofensiva conservadora. Apesar de Trump ter a oportunidade de indicar mais um juiz, seu equilíbrio tênue deve permanecer - 4 liberais, 4 conservadores e 1 moderado. Esse moderado, o Juiz Anthony Kennedy terá mais importância do que nunca. Felizmente, ele costuma se juntar aos liberais em favor de direitos de homossexuais, de mulheres e minorias. Se (tentar) cumprir algumas das promessas feitas, no entanto, como a deportação de milhões de imigrantes, Trump deve realizar o feito de unir toda a Suprema Corte em sua oposição.

Na seara da política externa, Trump causa preocupações imediatas para os principais aliados norte-americanos - não que eles tenham denunciado isso nas felicitações ao recém-eleito. Cortes de gastos militares, afastamento da OTAN e a reaproximação com a Rússia de Putin são só algumas das promessas que devem deixar Merkel, Hollande e May com insônia.

Suas declarações polêmicas gerarão constantes constrangimentos. E seu pavio curto manterá todos na beira de seus assentos. Qualquer provocação é suficiente para lhe provocar uma reação desproporcional. Resta saber se, com os dedos nos códigos nucleares, o Presidente Trump encontrará o autocontrole que, até esse momento, o eludiu.

Impactos para o Brasil, mais especificamente, são difíceis de mensurar. O país nunca chegou a ser mencionado especificamente pelo candidato republicano. Em tese, sua tendência protecionista pode prejudicar o comércio bilateral entre os países. Mas as promessas de rever a NAFTA e o TPP não nos afetam diretamente. Caso a postura isolacionista prometida de fato se concretize, caberá ao Brasil decidir qual, se é que algum, espaço pode vir a ser preenchido por iniciativas brasileiras. Um ponto, todavia, inquestionavelmente, afetará o Brasil. Serão quatro anos de instabilidade política que, por sua vez, gerarão períodos de instabilidade econômica e retração de investimentos em mercados mais arriscados, como o nosso.

Trump não segue um roteiro. É facilmente distraído e atraído por polêmicas sem sentido. E aí jaz uma esperança mais realista: que o presidente Trump se veja envolvido em tamanhas confusões, desde seu primeiro dia, que seu mandato passe sem qualquer outra marca significativa na história além de ter derrotado a primeira mulher candidata a Presidente.

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