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Eu não luto pelo fim da cultura do estupro

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Eu queria ter outro título. Eu queria trocar a foto do meu perfil com a consciência limpa e compartilhar textão dizendo o quanto eu faço no meu dia a dia para combater a cultura do estupro.

Mas eu não combato.

Aprendi e melhorei muito nos últimos anos, é verdade, e com isso virei radical para alguns amigos meus. Não foi o suficiente.

Eu ainda sento com eles na mesa do bar e ouço falarem das "piranhas que comeram no Tinder", das "vagabundas de mini saia na festa", das "que gostam de provocar" ou ainda de como eles gostam "de sentar a rola nessas putas".

E a culpa é minha.

Porque dou risada, porque assisto os vídeos, porque tento salvar um Snap, porque espalho um nude, porque fico quieto. A culpa é minha porque abro a matéria da Globo.com de uma atriz que "mostrou demais", porque eu curto a página do Danilo Gentili, porque acho o Frota mais pitoresco que criminoso. A culpa é minha porque às vezes sou eu quem conta uma história misógina pra embalar aquela rodada de cerveja.

Mas se é impossível pensar num lado positivo desse crime, é possível dizer que foi um divisor de águas pra mim. Foi o misto de culpa, raiva, nojo, ódio e vergonha que eu precisava para colocar o parágrafo (e minhas atitudes) anterior, no passado.

Eu dava risada, assistia os vídeos, salvava um Snap, espalhava um nude, ficava quieto. Eu abria a matéria, curtia a página, contava a história.

Daqui pra frente, amigos que me leem, quero deixar claro que o que pra vocês é "puta", "piranha" e "vagabunda", pra mim é uma mulher com completa autonomia sexual que faz sexo quando ela quiser e com quem ela quiser e quantas vezes ela tiver vontade - ou que só se veste como bem entende.

E se você não acha isso ou, pior, acha que isso é exagero e que o mundo está cada dia mais chato, desculpe, você não combate a cultura do estupro e acabou de ganhar um adversário.

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