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A importância de seus colegas no aprendizado e ensino online

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Foi em uma aula de inferência estatística na faculdade que me conscientizei da importância de meus amigos no meu aprendizado. A professora levava transparências (o ppt de 40 anos atrás) de um livro da área - livro que já estava nas mãos dos alunos. Ela lia o mesmo em voz alta, narrava, enquanto todos nós devíamos ficar sentados, escutando, "aprendendo".

O resultado? Líamos o conteúdo em casa e ninguém tinha vontade de ir a aula, para escutar uma narração em velocidade lenta as 7 da manhã de uma segunda feira. Mas a presença era obrigatória.

Após uma revolta dos alunos, a coordenação do curso respondeu: a combinação de narração e transparências era um método de ensino de sucesso de muitos anos. Ironia que um professor de estatística tenha feito tal afirmação sem base científica.

Tive ótimos professores de estatística e outros mais clássicos, com essa abordagem behaviorista do século passado, em que o cérebro do aluno é uma página branca a ser preenchida com a narração de um professor (prefiro chamar este estilo de profissional de narrador para condizer com sua atuação). O problema não é daquele professor, da área de estatística, da minha faculdade ou do Brasil. É global, basta procurar uma aula qualquer na internet: sente-se para escutar uma longa narração.

Existem diversas alternativas e teorias do aprendizado que vieram depois da utilizada pela minha ex-professora. No nosso caso, usávamos duas alternativas: toda segunda e quarta sentávamos em um grupo de 3 alunos e cada um compartilhava o que havia entendido, construindo o conhecimento de cada um, tapando buracos a partir do que cada um já estava entendendo - uma experiencia social de construção do conhecimento. Além disso, durante a aula, sem a professora escutar, perguntávamos uns aos outros nossas dúvidas, que eram respondidas com o vocabulário que conheciámos até o instante, nada além, nada aquém.

Todas essas práticas que nós alunos desenvolvemos sem querer, são técnicas utilizadas por alguns professores do ensino presencial, teorizadas e estudadas por muitos anos.

Mas e no mundo online? Como trazer características do ensino construtivismo social de Vygotsky, do construtivismo de Papert ou do construcionismo de Piaget para um universo "frio" e "desumano" como a Internet?

Engana-se quem julga a rede e a distância como fatores impossibilizadores de convívio, experiências e aprendizado social construtivista, pois ela é rica em exemplos do genero.

O primeiro site que chamou a atenção e reforçou a colaboração de alunos como fatores fundamentais no aprendizado foi o extinto Livemocha. A plataforma utilizava o conhecimento forte de um aluno em um assunto para ajudar alunos que estudavam aquele conteúdo. Mas como saber que um aluno é capaz de ajudar outro?

Professores clássicos muitas vezes acham a idéia revoltante, tomados de seus postos de dententores do conhecimento, não por maldade, mas por não se recordarem como aprenderam junto com seus colegas dezenas de anos atrás. Em geral eles não percebem que saber e explicar são duas coisas distintas e ambas devem ser treinadas. O Livemocha apostava em alunos cuja língua mãe era uma para ajudar outros que estudavam ela.

Hoje em dia o iTalki é um site que usa tal idéia, dando um passo além: ele intermedia o contato entre alunos de uma língua e quem sabe ensinar ela, seja por um estudo formal de ensino de língua (como diplomas de ensino de faculdades), ou prática. Ele categoriza os primeiros como professores e os demais como tutores, além do aluno contar com a oportunidade de praticar a língua com outros nativos de forma gratuita.

Similarmente, o Alura detecta os alunos de maior participação, promovendo os mesmos a moderadores de suas áreas e incentivando a discussão e a interação entre eles e o resto dos alunos. O status é tão importante que moderadores usam o mesmo em seu currículum, por ser uma experiência real de ensino daquilo que aprenderam.

Diversos sistemas incentivam a troca de dúvidas e respostas online, a resolução e correção conjunta de exercícios e o desenvolvimento de trabalhos em grupo.

Todos eles são pequenos exemplos de uma vasta gama de sistemas de ensino online que se utilizam do poder do peer-to-peer para o ensino e aprendizado.

Por outro lado, tais métodos acreditam que praticar e construir sozinho algo novo com base no conhecimento prévio é base para o aprendizado. Aplicativos de aprendizado de língua como o HelloTalk e o HelloPal permitem ao aluno criar frases novas e utilizá-las para bater papo, além de ter correções feitas por, adivinha, outros seres humanos como nós.

Aplicativos que vem sendo utilizados para tampar o buraco das preferencias de cada tipo de aluno. Alguns tem maior estímulo através do aprendizado prático como nos últimos dois mencionados, outros preferem aprender através de clipes de música e a transcrição de letras. A área de aprendizado de línguas é rica em tais variações, apesar de na maior parte dos casos cada um focar somente em um tipo de aluno, exigindo que o cliente invista o tempo em encontrar o que funciona melhor para ele.

Alguns casos, como no Alura, entende-se que cada aluno terá sua maneira preferencial. Para não perde-los, detectou-se que alguns alunos preferem a parte passiva do aprendizado através de um estímulo visual como vídeo, outros através da leitura, e disponibiliza o conteúdo de um curso nos dois formatos. Conclusões similares existem na literatura científica de cursos presenciais.

É claro que todos esses métodos estão mais para o lado "adquirido" do debate "habilidades são inatas ou adquiridas", e devemos também levar em consideração habilidades inatas dos indivíduos em suas escolhas, mas isto é um tema para um outro post.

Em um mundo onde o ensino presencial ainda é dominado por pensamentos behavioristas, o mundo digital mostra avanços e oportunidades interessantes. Em breve escrevo com mais detalhes sobre oportunidades, vantagens e desvantagens de diversas dessas soluções tecnológicas como potencializadores do aprendizado.

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