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A psicanálise está morta

Publicado: Atualizado:
PSYCHOANALYSIS
Tim Teebken via Getty Images
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Há tempos eu não discutia tanta psicanálise quanto neste ano.

Tudo começou com o congresso Brain, que aconteceu em Buenos Aires no primeiro semestre. Em entrevista à Folha, sobre o congresso, o neurocientista Ivan Izquierdo comentou que a psicanálise teria sido superada pelas neurociências.

A partir daí, vieram seguidas respostas, publicações acaloradas, tentando defender a boa e velha terapia.

Mas Izquierdo estava certo, a psicanálise morreu. E já vinha agonizando há muitas décadas.

Desde os anos cinquenta, com o behaviorismo de Skinner, que ela não tinha chance. Não porque uma ou outra seja a mais correta, mas porque o behaviorismo apostou nas fichas certas.

O que Skinner fez foi tomar uma decisão metodológica. Estudar, do ser humano, apenas aquilo que é claramente observado, ou seja, o comportamento. Quaisquer outros fenômenos, como motivações, sonhos, imaginação, tinham de ser ou negados, ou explicados como secundários.

Portanto, construiu-se uma teoria robusta, de forte consistência interna, apropriada para ser testada empiricamente até obter bons resultados. Tudo o que a psicanálise jamais conseguiu.

Os psicanalistas gostam de lembrar do caráter científico da psicanálise. De como Freud fazia hipóteses, punha-as em prática em sua clínica, discutia casos, revia a teoria. A obra de Freud é uma aventura épica de empreendimento intelectual. Um monumento, um patrimônio da humanidade. De influência tão absoluta que continua sendo estudada e aperfeiçoada até hoje. Tornou-se uma referência pop, emprestou seu jargão à linguagem popular, e tem firmes tentáculos em nosso imaginário cultural.

Tudo isso é verdade, menos que a psicanálise tenha qualquer caráter científico.

Tinha, veja bem. Tinha quando foi criada. Freud viveu uma das épocas de maior ruptura dos paradigmas científicos da história. Só que ele estava do lado que foi suplantado.

Freud ainda achava que fazer ciência era levantar hipóteses e testá-las em sua clínica. Tudo bem. Darwin também achava que isso era fazer ciência. Até Einstein, que publicou seus revolucionários estudos teóricos enquanto trabalha em um escritório de patentes, achava que isso era fazer ciência. Esta concepção fora herdada da Revolução Científica do século XVII. Newton achava que isso era fazer ciência.

Acontece que bem nessa época isso começou a mudar. Fazer ciência passou a ser algo muito mais exigente.

Não basta fazer hipóteses. Era preciso fazer hipóteses a respeito de fenômenos observáveis, usando conceitos embasados na experiência, e que pudessem ser confirmadas empiricamente.

E não bastava testar estas hipóteses através de observações finitas, casuísticas. Era preciso submetê-las a testes estatísticos rigorosos, para evitar que se assumisse por fatos resultados que se pudessem dever apenas ao acaso.

Então, não, a psicanálise não tem nada de científica. Ela é cheia de conceitos intangíveis e hipóteses não falseáveis, como o papel do complexo de Édipo na formação infantil, que não podem ser refutados pela experiência.

Exatamente o contrário acontece com o behaviorismo, que foi construído para ser uma teoria científica e, portanto, leva enorme vantagem.

É interessante que uma das respostas à declaração de Izquierdo, dada por Vera Fonseca em entrevista à Folha, confirme essa concepção errada de ciência. A psicanalista afirma que a "Neurociência confirmou muitas teses da psicanálise". Ora, então, se uma descoberta em astronomia confirmasse alguma tese astrológica, de repente, a astrologia passaria a ser científica? Evidências científicas de bons resultados com acupuntura, por exemplo, não tornam a acupuntura uma ciência, apenas em uma prática que dá resultados, em alguns casos, ao mesmo tempo em que erra feio em outros.

Teses validadas não tornariam a psicanálise uma ciência. Mas, nem sequer essa validação é verdadeira. Os próprios exemplos oferecidos na entrevista são apenas descobertas das neurociências que não entram em conflito com pré-concepções da psicanálise. Nenhuma tese da psicanálise se mostrou preditiva, elucidativa ou contribuiu de maneira nenhuma para os estudos em neurociências.

Seguindo este raciocínio, a psicanálise deveria ser, então, renegada à categoria do charlatanismo, de mãos dadas com outras práticas suspeitas como homeopatia, imposição de mãos, cirurgias espíritas, florais de Bach e afins.

Este assunto me interessa muito, pessoalmente, uma vez que eu sou um psicoterapeuta, com formação em psicodrama. Será que quando indico psicoterapia para um paciente, sou tão charlatão quanto o ortomolecular que testa fios de cabelo, ou o curandeiro que usa sanguessugas?

O cardápio de tratamentos com boas evidências científicas oferecidos em psiquiatria hoje é bastante extenso. Já não se trata mais de um antagonismo entre remédios e terapia. Nem entre psicanálise e a terapia comportamental-cognitiva (TCC). Há uma gama de recursos de vai da meditação à estimulação magnética transcraniana, da terapia comunitária à psicologia positiva. Há intervenções breves, motivacionais, protocolos de atividade física e reinserção social. Há muitas formas rápidas, baratas, bem estudadas e sistematizadas, que oferecem bons resultados com satisfatório grau de evidência.

Então, ainda precisamos das psicoterapias ditas profundas? Aquelas baseadas na transferência, que se alongam por meses ou anos, que não são sistematizadas e não têm claro respaldo científico?

Eu acredito que sim. Mas, o que eu acredito é irrelevante. "Achismo" não é argumento retórico, que dirá científico.

Esta impressão, crença, que seja, ocorre em mim e em muitos colegas como resultado da experiência. Resulta de observarmos, na prática, que alguma coisa acontece na psicoterapia que não acontece em outros tratamentos. Mas é difícil precisar o quê.

A primeira diferença que vejo entre a psicanálise e outras práticas que, mais facilmente, identificamos como charlatanismo ou medicina alternativa é que a psicanálise não vende facilidade.

Repare que todas as formas de tratamento com pouca evidência de eficácia tenta se vender através da conveniência. Quando não se apresentam como claramente mágicas, milagrosas, querem lhe convencer de que é uma alternativa revolucionária, fácil, prática e, até, mais eficaz que todas as outras.

Já a psicanálise não. Ela vende dificuldade. Seu marketing é o da sobriedade, do esforço. Ela serve para quem não quer se deixar enganar por saídas fáceis.

Isto não diz nada sobre sua eficácia, mas é um ponto bem relevante para distanciá-la de ser um "tratamento ineficaz". Não é isso o que ela é. Ela não busca resolver o seu problema. Curar o seu sintoma.

O que ela efetivamente busca é campo de intenso debate. Digamos, fazer de você uma pessoa melhor. Mais atenta, ou mais desperta. Mais feliz, talvez. Que tenha mais protagonismo sobre sua própria vida. Ou que faça dela mais sentido.

É difícil definir. Muitos pesquisadores usam conceitos e trabalham com entendimentos diferentes sobre essa questão.

O mais importante é entender que a psicanálise não compete com tratamentos psiquiátricos, com a TCC ou com a auto-ajuda. Nem se compara a práticas alternativas ou charlatanismo, e nem busca evidências científicas. É preciso largar essa ilusão da ciência da psicanálise.

Discursos como "os outros tratam a superfície, nós tratamos a subjetividade", ou "somos uma ciência com seus próprios métodos de validação", não são apenas quimeras, mas enfraquecem o que a psicanálise tem de melhor. Ao tentar levar o embate de volta ao campo dos tratamentos científicos, esses discursos se traem.

A psicanálise é um instrumento útil. Ímpar. Muito relevante. Mas justamente por não ser mais um tratamento, mais um protocolo. Por não dialogar com a ciência ou com os resultados. Por não ser prática ou eficiente.

Enquanto a ciência resolve, a psicanálise complica. Enquanto a ciência esclarece os fatos, a psicanálise discute valores. Enquanto a ciência é esperta, a psicanálise é íntegra. A psicanálise tem caráter.

Longa vida à psicanálise.

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