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Assista a uma aula de cultura negra americana na série Luke Cage

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LUKE CAGE
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Nos anos 70 nasceu, nos EUA, um gênero cinematográfico conhecido por "blaxploitation". Termo que mistura as palavras black (negro) e exploitation (exploração). Ou seja, filmes que buscavam explorar o mercado consumidor tentando ser atraentes a um certo nicho, no caso, os afro-americanos dos guetos urbanos.

A típica produção blaxploitation tem uma estética de filme B, trilha sonora de funk e soul e um elenco majoritariamente negro. "Shaft", de 1971, foi um dos primeiros exemplos. Até os anos 90, Spike Lee ainda manteve o gênero vivo.

O sucesso dessas produções, no entanto, ultrapassou os guetos, alavancando a popularidade e consequente exploração de todas as formas de arte negra, como música, literatura e artes visuais.

Nos quadrinhos, a Marvel entrou na onda e lançou seu primeiro personagem blaxploitation em 1972, Luke Cage, herói de aluguel.

A Marvel já tinha um super-herói negro protagonista, o Pantera Negra, que apareceu no cinema em Guerra Civil e tem filme próprio esperado para 2018.

Mas, enquanto o Pantera era um príncipe africano, Luke Cage era um adolescente negro do Harlem, envolvido com gangues, que se tornou invulnerável em um experimento secreto na prisão.

Como uma personagem comenta na nova série do Netflix, há algo de poderoso na imagem de um homem negro à prova de balas que não precisa ter medo.

Essa é a principal característica de Luke Cage como um personagem. Ele não é, como tantos outros, um super-herói que, por acaso, é negro. Ele é um homem negro que, por acaso, tem super poderes.

E não é por ter super poderes que ele se torna um herói. "Hero for Hire" (Herói de Aluguel) é a mais famosa alcunha do personagem nos quadrinhos. Luke sempre foi retratado como um dos mocinhos, um homem de bom coração e íntegros valores. A diferença é que ele nunca se viu como os heróis tradicionais, e nunca viveu o mesmo mundo dos heróis tradicionais. Luke veio do gueto, da dificuldade, das franjas da sociedade. Luke cresceu como um negro nos EUA, e não tinha ilusões sobre a existência de heróis. Nem mesmo quando ele podia ser um.

Este aspecto do personagem, no entanto, não foi explorado na série. O Luke Cage da Netflix tem consciência social e quer resgatar os valores de sua comunidade. O moletom com capuz furado de balas, que ele veste quase como um uniforme de super-herói, é referência direta a Trayvon Martin e ao movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

Isso é uma grande força para a série, sem dúvida. Mas, este aspecto do personagem, especificamente, é um dos maiores defeitos.

Luke consegue ser, discutivelmente, o personagem menos interessante de toda a série.

Os irmãos vilões, Black Mariah e Cottonmouth, foram magistralmente desenhados. Eles são complexos, cheios de nuanças, dúvidas e interagem entre si de formas surpreendentes e instigantes. Transitam entre o idealismo e a psicopatia com a graça de bailarinos. São ótimos.

Misty Knight, policial negra, decidida, independente, pode até ser vista como uma personagem mais simples. Mas, quem conhece sua versão nos quadrinhos, a caçadora de recompensas de cabelo afro, vestido vermelho e braço biônico, se delicia acompanhando a construção de um personagem em fogo brando ao longo de toda a série.

Shades e Diamondback são menos interessantes, mas cumprem seu papel.

Já o personagem título é simples e direto como uma flecha. Suas motivações são sempre claras, seus métodos bem definidos, sua moral inabalável. Não há nenhum conflito interno. Sendo que o original dos quadrinhos explorou tão bem a dualidade entre o pragmatismo de um negro pobre no Harlem e o poder e nobreza de um super-herói, não reproduzir isso na série é, simplesmente, imperdoável.

Os acertos de Luke Cage, no entanto, superam muito seus defeitos. E o maior acerto, a alma e a identidade da série, é seu mergulho na cultura negra americana.

A trilha sonora é impecável. Os títulos de cada um dos 13 episódios são nomes de músicas do duo de hip-hop Gang Starr. Vários episódios colocam músicos reais no palco do nightclub fictício Harlem's Paradise em apresentações musicais arrebatadoras que servem como trilha para algumas das cenas mais impactantes. Veja uma relação completa dos maiores momentos musicais da série, incluindo uma playlist para o Spotify, neste link.

Mais do que uma boa trilha sonora, a série usa a música como forma de integrar sua temática, os personagens e o contexto cultural que eles representam. Em uma das melhores sequências, o rapper Method Man, do Wu-Tang Clan, faz uma homenagem ao herói que o salvou de um assalto cantando um rap original, Bulletproof Love, já liberada no Youtube pela Marvel.

Além disso, Luke Cage é uma série lotada de referências literárias. Se você acha que um homem invulnerável e super forte é muito irreal, espere para ver como Luke discute literatura e cita escritores e poetas ao falar com ex-presidiários e policiais como se todo esse universo da literatura negra americana fosse de conhecimento comum.

Luke carrega uma cópia de Little Green, de Walter Mosley, no segundo episódio, que tem interessantes congruências com o enredo do livro. Ele ainda cita George Pelecanos, escritor e um dos roteiristas da melhor série pouco famosa da história da televisão americana, The Wire, e que é uma clara influência em Luke Cage. No último episódio, Luke encontra uma cópia de The Heat's On, de Chester Himes, e tem uma breve discussão literária. Na verdade, há tantas referências a grandes escritores, principalmente negros americanos e ligados à Harlem Renaissance, que é difícil encontrar uma lista exaustiva. Mas, quem quiser iniciar um clube de leitura de Luke Cage, além de me mandar um convite, pode procurar aqui e aqui.

Adicione a isso as inúmeras referências históricas, que brotam dos diálogos e, até, naturalmente, das localizações do Harlem, reais ou fictícias. O Edifício Crispus Attucks, por exemplo, não existe no Harlem, mas a figura histórica, sobre quem Luke dá uma breve aula no final de segundo episódio, é real.

Essas são as características que fazem de Luke Cage uma série especial. Não só por ser bem produzida, com boas atuações e personagens legais. Mas porque busca uma identidade própria, uma temática para além do enredo básico, uma forma de enriquecer quem se expõe a ela, além de apenas entreter.

Como faz toda boa obra de arte.

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