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Como a esquerda sequestrou o 'Bem'

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Jordi Elias via Getty Images
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Por mais que a dicotomia entre direita e esquerda, no debate político, seja simplista, é evidente que ainda é real.

Consideradas as nuanças de cada contexto regional, é fácil identificar os dois polos. Mesmo que signifiquem coisas totalmente diferentes nos EUA ou no Brasil, por exemplo. Lá, há a direita e a mais direita. Aqui, a esquerda e a mais esquerda.

E tudo se complica quando acrescentamos a segunda dicotomia, aquela entre progressistas e conservadores.

Em linhas muito gerais, direita e esquerda dizem mais respeito a modelos econômicos, enquanto progressistas e conservadores disputam modelos sociais.

Mas todas essas palavras, na verdade, causam mais confusão do que informam alguma coisa, já que cada um pode lhes atribuir o sentido que quiser.

Nos EUA, por exemplo, a palavra "progressive" é praticamente coextensiva com "liberal", posturas de esquerda, no contexto americano.

Já na Europa, existem os progressistas, os novos progressistas e, até, os "progressistas conservadores", por estranho que possa parecer (é como o ex-primeiro ministro britânico David Cameron se identificava, por exemplo).

No Brasil, há menos confusão. Os progressistas são claramente posicionados à esquerda. Há uma forte identificação dos movimentos sociais representantes das lutas das minorias, como o feminismo, o movimento negro e o movimento LGBT, com os ideais progressistas e com o socialismo. É como se fossem ideias inseparáveis umas das outras.

Muitos vão discordar desta afirmação, pelo simples fato de que os termos não são muito bem definidos. Em um sentido amplo, mais abrangente, o progressismo pode, de fato, se descolar da esquerda.

Nesse sentido amplo, tecnicamente chamado de sentido fraco, o progressismo tem a simpatia de quase toda pessoa de bom-senso. Ele clama por uma sociedade inclusiva, em que cada pessoa tenha o direito de viver de acordo com suas determinações, e que tenha oportunidades, segurança e goze da justiça comum a todos. Uma sociedade em que mulheres tenham as mesmas oportunidades e direitos que os homens. Ou seja, que tenham, efetivamente, o mesmo valor. Em que ninguém seja discriminado por sua raça. Em que orientação sexual não seja motivo de vergonha.

Nesse sentido, ser progressista é quase óbvio.

Mas, há o outro sentido, aquele chamado forte, mais estrito, mais exigente. Nesse sentido, ser progressista é identificar nas estruturas mais básicas da sociedade uma doença. Uma força insidiosa que contamina mentes e corações e que torna todos em fascistas incautos.

Essa doença é tudo aquilo de mais caro e mais óbvio a essa sociedade, aquelas coisas que mal se discute, que ninguém percebe e que são, por isso mesmo, tão poderosas. Entre elas, o capitalismo, a moral e a religião (especialmente o cristianismo).

Tudo o que a sociedade toma por valores, as tradições passadas de pais para filhos, os arquétipos imemoriais que ressoam naquela cultura, seriam os perpetuadores do machismo, do racismo, da homofobia, da conserva cultural que impede o progresso social.

O capitalismo, com seu individualismo meritocrático, com seu culto à eficácia e produtividade, com sua submissão da subjetividade ao valor econômico, é identificado como um dos principais vetores dessa doença.

Por isso o progressismo mesmo, que nem precisa se dizer radical, mas o verdadeiramente comprometido, é inextricavelmente socialista.

E é interessante que o movimento também se dá no sentido contrário: se os progressistas têm de ser socialistas, os socialistas também entendem que têm de ser progressistas. A intelligentsia socialista já não concebe o novo sistema sem que este se dê com e através dos movimentos das minorias.

É como a famosa colocação de Deleuze, um dos pensadores que mais contribuiu para a definição da esquerda contemporânea, de que ser de esquerda é perceber o mundo antes do indivíduo, e fazer-se minoria. Hoje, estes são ideais ligados pelo umbigo.

A religião também é identificada como um dos vetores óbvios. Claro, a essência da vivência religiosa é conservadora: é o "relegere", a repetida leitura do livro sagrado, das tradições, dos valores.

Tradicionalmente, e pela maior parte da história da humanidade, o discurso sobre moral e ética era de domínio religioso. A origem do valor moral estava atrelada a uma hierarquia, um eixo, que ia do sagrado ao profano e que determinava toda a estrutura social (do cidadão ao escravo, do rei ao plebeu), e (quase) sempre com o homem acima da mulher, o patrício acima do estrangeiro, o parecido acima do diferente.

Desde o Renascimento, no entanto, a humanidade vive uma grande crise do discurso moral. Valores tradicionais são questionados, a origem do valor moral é incerta, debatida por filósofos, teólogos, psicólogos e economistas. Há inúmeras e belíssimas empreitadas com o intuito de estabelecer uma teoria definitiva da moral. Submetê-la ao escrutínio da ciência, reduzí-la a impulsos neuroquímicos, ao resultado das pressões evolutivas, ou a uma escala econométrica.

Neste vácuo, no entanto, observa-se que o movimento progressista-socialista vem ganhando terreno. Ele propõe como critério de verdade a crítica social, e como critério de valor o empoderamento das minorias.

Ele assume, já na sua origem intelectual, um caráter anti-racional e anti-científico. Ou seja, ele não se preocupa com dados da realidade factual - que, alíás, seria uma quimera inútil e ingenuamente idolatrada pelas ciências -, substituída pela hermenêutica, para preocupar-se apenas com a crítica e o avanço de seus ideais de engenharia social.

No caminho, ele também assume outros caracteres: torna-se intransigente, totalitário e fundamentalista. E isso se dá, justamente, pelo "sequestro do Bem".

O movimento progressista entende que resolveu a crise do discurso moral. Ele conseguiu uma definição clara e precisa do que é o Bem. É bom ser mais inclusivo, empoderar os menos privilegiados, quebrar paradigmas e questionar os padrões majoritários e reacionários.

É interessante, porque estes não são maus valores. O problema não está em identificar estas boas coisas, mas em apropriar-se da definição de Bem de forma absoluta.

Para o progressista, hoje, não existe um conservador que lute por boas coisas, como justiça, prosperidade e liberdade. E daí é um passo para a crença de que não existe um conservador de bom coração.

Por isso, se você não é um militante, se você não é de esquerda, se você não reza segundo a cartilha, você é um "fascistinha", mesmo que não saiba. Você é do mal. E as pessoas de bem têm de ler livros sobre como conseguir conversar com você.

Enquanto isso, há a direita conservadora, extremista e raivosa, que é tão fundamentalista quanto. Mas também há a direita liberal; a direita progressista; os libertários que podem ser super capitalistas economicamente e, ao mesmo tempo, super progressistas socialmente, e os conservadores que também querem uma sociedade justa e inclusiva sem que se precise atacar os valores tradicionais.

Há uma enorme gama de pessoas que compartilham da ideia de promover o bem, alienando-se em guetos políticos cada vez mais intransponíveis.

É uma pena. Porque, independente de quem tenha mais razão nessa história, todas as pessoas de bem sabem que, divididas, não chegarão a lugar nenhum.

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