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Existe cultura boa e cultura ruim?

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Um caso horrível, e o Brasil inteiro se mobilizou contra a cultura do estupro.

Trabalhando com adolescentes no SUS - e eu trabalhei especificamente com meninas por muitos anos - corre-se o risco de começar a achar que esses casos são corriqueiros.

Eu já ouvi o relato de um grupo de adolescentes contando de uma música no baile funk cuja coreografia pede que elas virem de ponta cabeça e se deixem ser penetradas. Parece inacreditável, mas está aqui.

Eu já vi duas meninas de 14 e 15 anos se estapeando por um traficante cuja atenção ambas disputavam, gritando as proezas sexuais que cada uma fazia para ele. Esse é o critério de status: satisfazer mais o seu homem.

Em um hospital, soubemos que as meninas se desafiavam a abaixarem as calças, coladas à grade que separava um corredor por onde passavam os meninos, para que estes pudessem penetrá-las. Quem conseguia completar a travessura vinha contar para as outras, comemorando, cheia de moral.

Uma menina de 13 anos, epiléptica, me contou como uma vez acordou de uma crise nua, em um quarto de hotel no centro: "O cara com quem eu estava tinha saído fora, claro, dou razão pra ele. Ia chamar ambulância ia ser preso, que eu sou de menor". O tema do relato era como ela, usando drogas, tinha parado com as medicações. Só isso. Em sua cabeça, ela estava contando como ela tinha feito besteira.

Já acolhi uma menina chorando, explicando que ela mesma tinha pedido para ser internada depois de ver sua amiga levar um tiro na cabeça do ex-namorado, enquanto fumavam pedra na cracolândia, no meio da rua, em plena luz do dia.

Essas histórias chocam, mas são inúmeras. O caso do estupro coletivo, filmado, lançado na internet, é de rara complexidade e, não à toa, chamou atenção. No entanto, acertam aqueles que apontam para o caráter cultural do caso. Além da investigação e punição dos criminosos deste caso específico, precisamos olhar para o fenômeno.

Porque isso não é raro. E existem as condições para que continue acontecendo.

Agora, como fazer o diagnóstico preciso dessa cultura do estupro? Como identificar a cultura certa e a cultura errada? É aí que o assunto fica muito complicado.

Em julho do ano passado o apresentador Zeca Camargo fez uma crônica a respeito da comoção nacional com a morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo. Foi uma enorme polêmica.

A crônica de Zeca Camargo pode ser criticada de diversas maneiras, mas é um exemplar de rara complexidade e lirismo na TV brasileira. Zeca comparou a comoção com a morte do cantor com a moda dos livros de colorir, que estava à toda na época. Apontava para um vácuo cultural com uma metáfora simbólica que me remeteu a Vilém Flusser - a ideia de que vivemos uma era de formas sem conteúdo.

De qualquer forma, perdão do trocadilho, um conceito que é inescapável naquela crônica, e que foi o ponto pelo qual ela foi mais duramente criticada, é o de que existem culturas e culturas. Ou, mais diretamente: existe cultura boa e cultura ruim.

Um pouco depois, em agosto do mesmo ano, o Ministério da Cultura protagonizou outra polêmica, desta vez ao defender o outro lado. Nas redes sociais, o MinC postou que:

"Funk é cultura sim e se reclamar vai ter baile funk todo dia na Esplanada"

Aqui, o conceito inescapável é o de que não existe como atribuir valor a uma manifestação cultural. Todas são igualmente boas. Nos termos usados pela manifestação do MinC: "Partiu respeitar as diferenças? ;)".

Afinal, existe uma cultura boa e outra ruim? E, se houver, quem decide?

A comoção nacional contra a cultura do estupro, que estamos vivendo, deixa claro que há, sim, limites. Há manifestações culturais que devemos aprovar e incentivar, e há aquelas que devemos combater. Como saber? Qual o critério?

Tradicionalmente, o critério que define estas coisas é muito subjetivo e um tanto abstrato. Trata-se de um critério de conformidade estética. Justamente por isso, ele tem sido atacado como algo arbitrário, esnobe, associado ao poder das elites.

Em um longo processo, estes padrões culturais vêm sendo questionados, dando espaço para uma espécie de "democratização" das artes. Passamos a ver com bons olhos a valorização das artes populares, a contracultura, a cultura de guetos.

Nisso há, também, um critério: a crítica social. Valorizamos a cultura que emerge das camadas menos favorecidas da sociedade, que dá voz às minorias e à população marginalizada, em detrimento da cultura elitizada.

Por exemplo, em 2014 acompanhamos o escândalo das denúncias de estupros na faculdade de medicina da USP. Como resultado, O Ministério Público proibiu as festas universitárias e o Show Medicina, espetáculo cultural tradicional que acontecia anualmente na faculdade.

Não houve dificuldade nem polêmica em se proibir atividades culturais promovidas pela "elite" (alunos da FMUSP). Mas parece insuportavelmente autoritário proibir essas mesmas manifestações quando elas representam a cultura da periferia.

Eu não defendo festas que favoreçam estupros em uma faculdade. Mas me parece absurdo defender que elas aconteçam em qualquer lugar e, especialmente inacreditável, que se proponha acolhê-las na Esplanada. Será que tocariam aquela pérola musical que linkei acima no Proibidão da Esplanada?

Esse critério me parece um contrassenso, mas existe um pensamento vigente que o acolhe bem. É como se fosse uma espécie de ação afirmativa, uma correção de injustiças sociais que protege os desprivilegiados.

Mesmo que aceitemos isso, o que acontece quando os interesses de duas minorias diferentes estão em conflito?

Devemos valorizar a cultura do funk nas favelas, porque ela representa uma população excluída e carente de representação, mesmo que seja uma cultura machista que estimula estupros? Ou devemos censurá-la em nome das mulheres, minoria oprimida em uma sociedade machista, mesmo que isso pode a voz das periferias?

Que impasse!

Mas é um impasse útil. Ele revela o quanto esse critério pseudoprogressista é falho, tolo, carente de lógica interna.

É como se vivêssemos uma adolescência cultural, rebelde sem causa, em que é fácil derrubar padrões e contestar a ordem, mas não se oferece nada para pôr no lugar.

O que sai da minoria para invadir o status-quo é bom. O que se tenta impor no sentido inverso é ruim. Mas isso é só forma, sem conteúdo, como os livros de colorir do Zeca.

O critério da crítica social é pobre. E encontrar um critério melhor não é fácil. Em última análise, essa discussão ultrapassa o campo da estética para entrar na ética (mistura que os filósofos chamam de "axiologia" - o estudo dos valores).

O critério para julgamentos de valor desse tipo deve buscar algo mais profundo que a apenas a crítica social. Uma espécie de verdade humana, uma correspondência àquilo que é excelente, bom, para os seres-humanos. Aqueles construtos elusivos chamados virtudes, sobre os quais milênios de pensamento humano se debruçaram para sempre concluir mistérios.

Ainda assim, apressamo-nos em desconsiderar as virtudes. Passamos a associá-las a imposições elitistas e excludentes, e esse é o erro mais trágico dos tempos modernos.

Seja lá quais forem as virtudes, elas são as formas pelas quais os humanos se valorizam, se respeitam e se celebram. Elas são os critérios de valor por excelência.

Precisamos sair da adolescência cultural e atingir a maioridade. Estágio em que teremos maturidade para dialogar com todas as representações sociais, minoritárias ou não, para valorizar aquilo que comemora a humanidade, e repudiar o que nos degrada.

Chega de cultura de estupro, de crime e de ódio. Cultura, mesmo, é a da virtude.

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