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'Guerra Civil' está nos cinemas. E bem que podia ficar só lá.

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GUERRA CIVIL MARVEL
Divulgação/IMDB.com
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Eu cresci nerd.

Não é uma coisa que se escolhe, na verdade. É mais algo que te acontece. Uma descoberta.

E eu fui um nerd tardio. Durante boa parte da minha infância fui só "tímido" ou "introvertido".

Só no colégio é que um amigo apareceu com uma xerox encadernada da edição portuguesa de Dungeons and Dragons e eu descobri uma identidade grupal, finalmente.

Por mais que as coisas tenham melhorado muito para os nerds, tem uma frustração interessante que ainda nos acomete. É que os não nerds não têm acesso a muitas coisas incríveis que nós gostaríamos de compartilhar.

Por exemplo, o universo Marvel.

Não é que a gente queria que todo mundo gostasse de ler quadrinhos. Mas a gente gostaria de poder compartilhar ideias, conceitos, discussões, soluções estéticas, que acontecem nos quadrinhos, e que ficam inacessíveis para quem não curte.

Por isso é um barato para nós, nerds, ver a enorme aceitação dos filmes do universo cinemático Marvel. De repente, a gente pode soltar um "Loki", ou "Jarvis" no meio de uma conversa normal e, surpresa!, as pessoas entendem o que você quis dizer.

Isso acontece com quadrinhos, mas também com séries de jogos, com a elegância do design de um CTCG, ou de uma demonstração matemática. São experiência estéticas, tão ricas quanto qualquer outra forma de arte, mas inacessíveis aos não iniciados.

Com frequência, nós temos de resistir àquela vontade de dizer "vem cá, você precisa ver isso", mesmo sabendo que você ia adorar, porque está envolto em uma embalagem que você não vai, jamais, se interessar em abrir.

Agora, todo mundo sabe o que é Guerra Civil. Com isso, é um pouco menos frustrante ter de saber que existe uma história muito profunda sobre política, autoritarismo e liberdades civis que era impossível de ser referenciada em uma conversa normal. Agora já dá para dizer "Essa situação é como na Guerra Civil da Marvel", e pronto, está feito um argumento.

Eu gostaria de deixar um conselho nerd: se você gostou do filme, vá ler os quadrinhos que contam essa história, pois são ainda melhores.

Guerra Civil foi um evento contado em praticamente todas as revistas da Marvel entre os anos de 2006 e 2007, em meio ao segundo mandato de George Bush. Poucos anos antes, em 2001, após os ataques de 11 de setembro, Bush havia assinado o Patriot Act, controversa lei que agredia direitos civis em nome da guerra contra o terror.

Um ano antes, em 2000, Joe Quesada, talentoso quadrinista da Marvel, assumia como editor-chefe da companhia.

Quadrinhos de super-herói sempre foram uma forma de escapismo. Mas Quesada resolveu mudar isso. O megaevento "Guerra Civil" contou a história de como um grupo de super-heróis adolescentes chamado Novos Guerreiros causou uma enorme tragédia perseguindo super-vilões. Uma explosão deixou centenas de mortos em uma escola, incluindo os heróis. E tudo foi registrado em vídeo, pois os jovens estavam gravando um reality show.

A reação do governo ao incidente foi propor uma lei de registro de super-heróis. Um grupo, liderado pelo Homem de Ferro, admitiu que não havia outra saída e que o registro era justo. Outro, liderado pelo Capitão América, viu no registro uma afronta às liberdades civis. A partir daí, todos os personagens da editora foram envolvidos em um logo debate político e social.

No filme a história é um pouco diferente e, até, menos contundente. As desavenças ficaram mais pessoais. Nos quadrinhos, o foco foi sempre político. Principalmente levando em conta o símbolo "Capitão América", pouco explorado no filme.

O contexto da Guerra Civil original é que fez dela uma obra prima dos quadrinhos, e um dos pontos altos do currículo de sucesso de Joe Quesada. A mensagem era que o governo estava matando a identidade dos EUA, violando seus ideais mais fundamentais.

E, para dizer isso, Quesada apenas precisou tornar o Capitão América um inimigo de Estado. Seria difícil ser mais contundente.

Nós, nerds, à época, ficamos com aquela vontade de dizer "vem cá, você precisa ver isso" para um monte de gente.

O filme chega ao Brasil em um momento interessante. Nas conversas mais exaltadas o conceito de guerra civil não chega a ser raro. Fala-se em País dividido, há muros para separar manifestantes, há coxinhas e mortadelas.

Nesse aspecto, o filme deve falar aos brasileiros. É possível discutir como pessoas boas, honestas, de quem sempre gostamos ou, até, víamos como heróis, podem acabar em lados opostos de uma disputa radical.

Mais importante, é possível ver, de fora, as distorções que estamos enfrentando diariamente, de dentro da polarização política. Talvez o filme ajude a entender que ambos os lados estão cheios de pessoas boas, apenas com convicções diferentes.

O que o filme não aborda, mas os quadrinhos sim, é a questão da identidade nacional. A alegoria dos quadrinhos permitiu à Marvel afirmar que a América, como um ideal de país, estaria em desacordo com o governo americano, na época do Patriot Act.

E isso me fez pensar sobre a identidade nacional no Brasil. Existe uma ideia de Brasil que não seja, apenas, uma extensão do governo? Quão mais difícil é nossa situação, em meio às intensas disputas ideológicas e partidárias, sem nenhuma identidade estabelecida para nortear nossos caminhos possíveis?

Falam em falência da Nova República, mas não sei se o que assistimos é o final de algo, ou, ainda, apenas o nascimento. É fato que, o que vivemos, não é nada. São os estertores de um modelo falido. E para onde vamos, ainda, ninguém sabe.

Nem sabemos quem somos, como país. Somos uma republiqueta bolivariana sulamericana? Somos o país do futuro? Somos estatólatras ou liberais? Somos bons em futebol? Somos um Estado laico ou uma teocracia parlamentar?

Ainda não sabemos nada. Não nos reconhecemos no Congresso, nem na favela, nem na varanda gourmet. Estamos na fase da guerra, destruindo tudo.

Que fazer? Não sei. Na dúvida, vá assistir Guerra Civil, que é entretenimento de primeiríssima categoria.

Mas, seja um pouquinho nerd e debata o filme. De preferência, com alguém que não concorda com você.

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