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O legado da Olimpíada é uma saudade

Publicado: Atualizado:
OLIMPIADA
REUTERS/Christian Hartmann
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Eu nunca fui muito brasileiro.

Nasci aqui, é claro, no coração de São Paulo. E até já me senti bem paulistano. Mas, também, São Paulo não é lá muito Brasil. Tem muito asfalto e nenhum mar. Mais garoa e menos sol. E eu ouvia meu nono dizer "manja che te fa bene" todo almoço de domingo. Gostava mais de ser ítalo-brasileiro que brasileiro.

Já nasci branco pálido, daqueles que não pegam cor ao sol, só queimam e fazem bolhas. De olhos azuis, que fecham instintivamente durante quase todo o verão.

No exterior, já fui confundido com francês, italiano, judeu, mas nunca com brasileiro.

Sempre fui introvertido. Fugia das rodinhas de samba e, até, das turminhas cantando Legião ao violão.

Não sei o que é ginga. Sou péssimo em futebol. Nas aulas de educação física, corria sempre para onde não estava a bola, com medo de receber algum passe.

Nunca fui malandro, nem carismático, nem galanteador ou especialmente simpático. Sempre fui o anti-clichê brasileiro.

Nunca gostei de praia. A tal da energia que recarrega as baterias, que as pessoas tanto falam, nunca senti.

Sentia apenas calor, areia pinicando, bichos espinhudos furando meu pé, gente urinando ao meu lado. Até hoje, para mim, ir à praia é só um jeito desconfortável de ler um livro. (Frase que, eu juro, não é minha, mas não lembro quem é o autor - se alguém souber, dou o crédito).

Sempre me escondi do carnaval, cujo maior significado, para mim, era o completo tédio diante da TV - na infância - ou o atestado de incompatibilidade tribal - na adolescência.

Com sorte, eu conseguia me refugiar no eixo shopping-cinema tão paulistano. Com azar, planejava o suicídio ao som de pagode e samba em alguma viagem da qual não pudera me esquivar.

Aos quatorze, fui militar. Em um ímpeto de hombridade, desafio, ousadia e falta da menor noção do que fazer da vida, resolvi cursar o ensino médio na Marinha. Lá poderia, quem sabe, ter aprendido a amar o Brasil. Se havia algo que os milicos deveriam ter me ensinado, seria isso, ao menos.

Mas, não. Também lá fui meio diferente. Enquanto a maioria estava no começo de uma longa e estável carreira no serviço público, cheia da vibração militar esperada dos jovens oficiais, eu sempre soubera que estava só vivendo uma aventura.

Os ideais mais nobres do militarismo já me vieram manchados pelo recente histórico da ditadura. Sabia que não podia confiar nos militares, nem nos políticos, nem no País. O Brasil não era para ser levado a sério.

Com o passar dos anos, amadurecendo, isso só piorou. Morro de vergonha alheia ao ouvir os gritos de "sou brasileiro" nas torcidas ufanistas. Que muito orgulho? Que muito amor? Quem aqui não desiste nunca? Nossa história é, sendo muito generoso, modesta. Uma sucessão de acasos, derrotas e mesquinharias. Golpes seguidos de golpes. Extermínio, escravidão, exploração, pobreza e ignorância.

Ironizamos o sonho americano propagandeado nos Estados Unidos. Mas, lá, o tal sonho é uma narrativa fantasiosa que alimenta uma máquina de realizações e progressos liberais.

A narrativa brasileira é, também, a de um sonho. Só que nossa fantasia não alimenta nada. É a narrativa do brilho que emerge inesperado, do herói que surge do acaso. Focamos mais as adversidades que a superação.

Temos de continuar pobres, ignorantes, vivendo no caos e no improviso, pois só assim podemos nos vangloriar da gambiarra, dos casos inspiradores que conseguiram chegar lá, mesmo sem apoio, planejamento ou organização.

E vamos nos alimentando desses uns e outros casos esporádicos, que surgem porque, estatisticamente, tudo o que pode acontecer um dia acontece. Assim, vamos acreditando no país do futuro, desde que ninguém venha tentar arrumar nada.

No entanto, como viver quase quarenta anos no Brasil e não se deixar levar nem um pouquinho? Mentira, claro. Se tem uma coisa que eu gostaria mais do que me sentir brasileiro, eu gostaria de gostar de me sentir brasileiro.

Quando eu viajo para o Rio e me descubro subitamente embasbacado, maravilhado pela beleza única daquela cidade, o que eu não daria para curtir essa emoção desimpedida, orgulhoso, com lágrimas nos olhos. Sem ter de me lembrar do caos da saúde pública, do tráfico, dos arrastões.

Quando eu leio nossa incrível literatura, aprecio nossas artes visuais, ouço nossas músicas sublimes, o que eu não daria para sentir arrepios de emoção sem ressalvas. Mas não dá. Não consigo sentir orgulho do Brasil sem rir de mim mesmo.

E, então, veio a cerimônia de abertura da Olimpíada.

Uma festa que não muda nada, é claro. Mas, talvez por ter sido uma grande surpresa; talvez pela capacidade da arte de pular a razão e falar diretamente às emoções, mesmo às mais tolas; talvez por ter tocado nessa grande vontade reprimida de ufanismo, ou, talvez, por ter sincronizado o país inteiro em um fenômeno emocional mais coletivo que individual, a verdade é que aquela festa mudou muita coisa. Ao menos, dentro de nós.

Por duas semanas todos vivemos um clima diferente. Cada um responde em intensidades diferentes a esses fenômenos, mas poucos saíram ilesos.

Os jogos foram incríveis. O Rio se tornou, de fato, uma cidade olímpica.

O Brasil ganhou um pouco mais de identidade, de reconhecimento e, por que não, de orgulho.

Um orgulho diferente. O Brasil não contou vantagem. Não tentou mostrar que é grande. Mas mostrou que é rico, diverso, bonito, e que tem algo para dizer.

Não falo só das mensagens politicamente corretas enfiadas de forma um tanto forçadas na cerimônia. Mas da mensagem que todo o evento transmitiu ao mundo: de que há outras realidades, outras dificuldades, outras caras e outras maneiras.

A instituição "Olimpíada" aprendeu muito com o Brasil. Mais do que o inverso, possivelmente.

Foi tudo uma grande histeria, dirão, com razão, os mais céticos. Foi mesmo. Terminados os jogos, continuamos no mesmo buraco. A mesma violência, a mesma corrupção, a mesma cultura do jeitinho, da malandragem, da valorização da miséria e da ignorância.

Exceto que, por essas duas semanas... O que será que ficou? Será que um pouco disso que vivemos não "continua aqui/ na superfície da pele/ que em mim sente/ o vento do passado/ no presente"?

No encerramento, o belíssimo poema de Arnaldo Antunes, Saudades, celebrou mais essa identidade nacional, a tal palavra que dizem não ter tradução. Confesso que foi o momento que mais me emocionou.

Porque eu sei que vou sentir saudades. Eu sentirei saudades do brasileiro que eu nunca fui.

E acho que vamos todos sentir saudades de um Brasil que nunca tivemos.

Quem sabe quanto tempo ainda vai levar pra ele voltar.

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