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O paradoxo da baixa autoestima

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Eu sempre desconfiei do conceito de baixa autoestima.

Não só pela sua prevalência nos manuais de autoajuda e psicologias de almanaque afins, embora já fosse razão suficiente.

Mas porque é uma saída fácil. É um mito gostoso de se acreditar, conveniente: "O seu problema é que você é muito melhor do que admite para si mesmo"; "Se ao menos você pudesse ver a pessoa maravilhosa que você é, não agiria assim".

Eu nunca consegui achar que esse conceito servisse para alguma coisa, mas é difícil tentar explicar para as pessoas que algo tão intuitivo seja falso.

Porque é, realmente, intuitivo. Todo mundo já experimentou essa sensação de autocomiseração, de desapontamento consigo, de raiva. Ou já esteve naquelas situações em que acaba se contentando com pouco, perdendo oportunidades por não se achar bom o suficiente.

Mesmo assim, eu acho que vale a pena tentar explicar por que considero a baixa autoestima um conceito falso.

Para começar, em um sentido mais profundo, ninguém estima nada além de si mesmo. Isso porque tudo o que percebemos no mundo passa pelo filtro da nossa própria subjetividade.

Se eu decido, ou sinto, que amo alguma pessoa, ou uma ideia, na verdade eu amo uma representação que eu faço dessa pessoa ou dessa ideia. Essa representação é carregada de mim mesmo. É limitada pelos meus limites e profundamente influenciada pelas minhas experiências. Ou seja, em tudo o que eu eu vejo e aprecio no mundo, existe algo de mim que eu estou vendo e apreciando.

"Não é que só o que exista do mundo sejam as nossas percepções, mas é que, para nós, só o que existe do mundo são as nossas percepções."

Alfred Binet

Por isso é difícil fazer sentido da afirmação de que alguém faça uma má avaliação de si mesmo. Tudo o que alguém valoriza é um pouco por valorizar a si, ainda que pense não encontrar esse valor em si mesmo.

E quem se avalia mal, ao fazê-lo, usa quais parâmetros? Não são os seus próprios? Em última análise, isso não equivale a dizer que quem se avalia mal tem um avaliador, superior, que incorpora e representa todos esses bons valores? E este avaliador, por acaso, é outra pessoa, ou a própria que se está avaliando? Eis o paradoxo.

Eu entendo perfeitamente as frustrações pontuais, claro. Quando alguém sente que preferiria ter agido de outra forma, mas não consegue ser tão nobre ou tão correta quanto gostaria de se imaginar. Há uma tristeza nessas ações, quando nos encontramos submetidos por forças maiores que nós. Só que isso acontece mesmo, o tempo todo, porque a realidade nos submete, nos limita. Vivemos em oposição ao real, não a nós mesmos.

Por trás dessas considerações está a visão de que o ser humano não é dividido. Ele é uma afirmação, um esforço, uma só potência de ser.

A tradição de dividir o ser humano é antiga e influente. Platão dividiu a mente em partes nobres e partes ruins, em razão e emoção. Descartes dividiu mente e corpo como duas substâncias diferentes. Freud dividiu o consciente e o inconsciente, os impulsos de morte e de prazer.

Assim, dividido, aprendemos a imaginar a baixa autoestima como se alguém, dentro de nós, pudesse ser nosso próprio algoz. Como se houvesse um segundo Ego. Mas, basta entender que somos, e somos necessariamente, apenas nós mesmos, para esta ilusão perder o sentido.

O mais famoso e polêmico filósofo a negar essa divisão do ser humano foi Nietzsche. Mas, para mim, o mais bem acabado pensamento dessa tradição é o de Spinoza,

Vou parafraseá-lo, pois citações literais de Spinoza são ininteligíveis fora de seu contexto, mas eis o que ele diz sobre autoestima:

A soberba consiste em fazer de si mesmo uma estimativa acima da justa. Mas não há afeto oposto a esse (baixa autoestima), pois, o homem que se imagina incapaz, dispõe-se de tal maneira a realmente ser incapaz.

Ou seja, aquele que se avalia pequeno torna-se, de fato, tão pequeno quanto se avalia. Na sequência, Spinoza ainda admite que existe o sentimento, que ele chamou "rebaixamento", de ter uma opinião tão ruim de si mesmo que seja aquém da justa. Mas, conclui:

O rebaixamento é um afeto raríssimo, pois a natureza humana luta contra ele tanto quanto pode. Assim, aqueles que se julgam os mais baixos e humildes de todos são, em geral, os mais ambiciosos e invejosos.

Embora o julgamento de Spinoza seja muito duro, ele tem alguma razão. Para entender, é preciso dar-se conta de que o oposto do amor não é o ódio, mas o Ego.

Amor e ódio são lados opostos de uma mesma moeda, o vínculo. Ambos requerem um objeto externo para o qual se abre um afeto.

Já o egoísmo é um fechar-se em si mesmo e, portanto, não é nenhum amor. Nem por si mesmo.

Amor e Ego são opostos perfeitos pois um nunca existe onde o outro impera e, quando há tanto mais de um, há tanto menos do outro.

Portanto, onde parece faltar amor por si mesmo, acredite, está é sobrando Ego.

Pegue, por exemplo, a pessoa que não consegue se livrar de um relacionamento malfadado e atribui isso, orientada pelos guias espirituais e psicológicos costumeiros, à baixa autoestima.

Esta pessoa, na posição de aconselhar outra na mesma situação, certamente saberia o que dizer. Sentiria profunda compaixão, amor até, pelo amigo afetado. Por que é mais fácil amar o amigo que a si mesma? Certamente essa pessoa não acha que o amigo é mais merecedor de felicidade que ela.

A diferença é que, ao se deparar com o sofrimento do outro, o Ego não atrapalha. É possível sentir compaixão, mesmo admitindo a derrota, a falência de um relacionamento, a rejeição (que o outro sofreu). Já consigo mesma é mais difícil, porque ninguém quer admitir a derrota. Ninguém quer conciliar a realidade com a ideia que tem de si mesmo. Uma ideia que não admite a falha e é, portanto, acima da justa.

Não existe baixa autoestima. O ser humano estima, imprime valor, ao mundo e a si mesmo, sempre e necessariamente. O que existem são os afetos que esse movimento provoca. A tristeza, quando o mundo nos põe em desacordo. A alegria, quando ele nos tira para dançar.

O caminho é sempre esse: buscar alegria, e amor. Basta tirar o Ego da frente, que é fácil de achar.

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