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Pokémon Go é tão bom quanto ópera

Publicado: Atualizado:
POKEMON GO
REUTERS/Paulo Whitaker
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Há milhares de textos por aí tentando explicar o sucesso de Pokémon Go. E outros milhares detratando o jogo, coisa de idiota, sinal da falência cutural do mundo moderno, e por aí vai.

Jogos eletrônicos e smartphones são dois dos alvos preferidos dos críticos paranóicos que adoram demonizar as tendências modernas. Antigamente era a TV, a "idiot box", arauto da decadência da humanidade. Hoje, esquecemos a TV para castigar a internet e celulares, que há tempos tomaram a primazia de nossas atenções.

Só que, antes ainda da TV, esse fenômeno já acontecia. Na Grécia antiga, Sócrates já avisava dos perigos da escrita, tecnologia "nova" que estava acabando com a arte do diálogo, isolando cada pensador em suas próprias ideias. Imagino o horror que deve ter sido a invenção da prensa de Gutenberg. De repente, a proliferação dos livros acabaria com a arte milenar dos copistas, das iluminuras. De repente, ninguém mais precisaria sair para ir a uma biblioteca, enfurnados, antissociais, em suas próprias casas lendo livros. Jamais teremos Alexandria ou Iona novamente, por culpa dos malditos livros.

Primeiro a escrita, depois a prensa; depois o rádio; a TV; a internet; os celulares e, agora, Pokémon Go. Tudo conspirando para nos deixar cada vez mais idiotas. O gênio humano, mesmo, só poderia prosperar nas cavernas.

Abuso da ironia para tentar transmitir o quanto essa ideia é absurda.

É fácil falar mal de qualquer novidade, até aí tudo bem. Mas, jogos eletrônicos são um capítulo à parte. Minados por preconceito e desinformação, os "games" deixam de ser reconhecidos pelo que eles são: uma forma de arte.

Games são produzidos para atrair e agradar às massas e fomentam um negócio multibilionário. Verdade. Mas o mesmo pode ser dito do cinema, música e, até, da literatura.

Como em todas as outras formas de arte, há uma produção que visa o mercado. No caso dos games, inclusive, eu argumentaria que muitos dos blockbusters comerciais têm uma qualidade superior ao que se produz em música, cinema e literatura - nesta mesma categoria.

O que nem todo mundo sabe, no entanto, é que também há uma cena riquíssima de games independentes, autorais. Para cada blockbuster genérico lançado no mercado, há uma dezena de jogos produzidos por pequenos estúdios, ou como projetos menores de grandes estúdios, que buscam formas novas e criativas de expressão e engajamento.

Por exemplo, há jogos que foram produzidos como forma de lidar com problemas pessoais. "That Dragon, Cancer", lida com o drama real de uma criança com câncer, e "Papo & Yo" recria, na fantasia, a infância abusiva de seu designer.

Outros exploram e documentam diferentes culturas e folclores, como "Never Alone" e "Cross of the Dutchman".

Outros, ainda, são puro entretenimento, mas exploram de forma única e criativa a essência da linguagem dessa mídia, seja por meio do design (como Spelunky); ou da narrativa (Life is Strange); ou, ainda, fazendo com que design e narrativa se tornem indispensáveis um ao outro, de modo a criar uma forma de contar história que seria impossível em qualquer outro meio (Brothers: a Tale of Two Sons).

Essa lista é dolorosamente pequena, pois eu me vi forçado a pegar quase que arbitrariamente alguns exemplos em meio a centenas de outros exemplos excelentes. A cena de games é muito rica e ainda desconhecida do público mainstream.

E Pokémon Go? É arte?

Bom, para ser sincero, enquanto um game, propriamente dito, Pokémon Go é bem ruim. O tutorial é péssimo. O lançamento foi cheio de problemas com servidores e bugs.

Ainda há muito pouco o que se fazer no jogo, embora todos esperem que muito mais conteúdo seja acrescentado aos poucos. O grind (parte do jogo em que a progressão se torna lenta e dependente de horas e horas de ações repetitivas) é necessário e muito mais intenso do que um joguinho casual como esse deveria requerer.

Muitas coisas importantes são completamente aleatórias. E o sistema de batalha é bem rudimentar e pouco confiável.

Ainda assim, observe o que está acontecendo nos parques e praças de sua cidade: quem já ouviu falar de alguma performance de arte contemporânea que tenha ressignificado os espaços públicos e engajado a população de forma tão maciça, espontânea e significativa?

No fim de semana eu saí com minha filha para caçar pokémons. Nós conversamos com estranhos nas ruas, taxistas, crianças de bicicleta, lojistas, todos rindo e interagindo com minha menina de cinco anos, trocando ideias e histórias de suas caçadas aos monstrinhos. Identificamos grafites nunca vistos, fachadas nas quais nunca tínhamos reparado. Passeamos pelo cemitério e conversamos sobre estátuas, anjos e morte.

Pode ser que me levem o celular qualquer dia desses, é verdade. Mas esse é um problema da porcaria de país em que vivemos, não do pobre do Pokémon Go.

Como o grind é terrível, Pokémon Go não deve durar muito. Quer dizer, estes jogos costumam durar bem seus cinco ou seis anos. Até mais de uma década, a depender da produtora (Niantic) adicionar novos conteúdos e eventos, cuidando da comunidade de jogadores hardcore. Mas a febre que leva milhões a brincar pelo mundo todo vai passar rápido.

Não tem problema. Pokémon já se provou uma intervenção artística de sucesso. Foi a primeira utilização da realidade aumentada como linguagem a atingir tantas pessoas. Revolucionou o que entendemos por jogo social.

Certamente, servirá de inspiração para muitas outras experiências desse tipo, que seguirão refinando essa nova linguagem e oferecendo vivências estéticas, emocionais, a uma legião de jogadores. Isso é arte.

Quanto a ser tão bom quanto ópera. Bem, isso pode ser entendido como elogio ou como crítica. Eu, particularmente, odeio ópera.

Mas uma coisa é certa: eu aprecio games como aprecio arte. E não me venha nenhum apreciador de ópera querer me convencer que uma forma de expressão seja inerentemente superior a outra. Não é.

Pokémon Go não é o melhor dos games. Mas é tão bom quanto ópera. Entenda como quiser.

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