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Temer não vai resolver nada. Mas você pode.

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MICHEL TEMER
EVARISTO SA via Getty Images
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O apego do governo ao poder só não é mais ridículo que o apego do brasileiro a seus governantes.

Dilma não vai renunciar, ou assim profetizam todos os que a conhecem. Teremos, o país inteiro, de aturar cada um dos longos dias desse processo de impeachment até que ela perca seu mandato definitivamente.

A imensa maioria dos brasileiros quer que isto termine. Quer que o País volte a andar, com seu tradicional marasmo, mas, ao menos, que ande. Ninguém mais aguenta o Brasil parado.

Só que ninguém sabe, é claro, se o impedimento da presidente será solução para alguma coisa.

Quem ainda teima em defender o governo aponta para o risco de que, concretizado o tal "golpe", tudo voltará a ser como antes. O novo governo, afinado com a elite e o poder estabelecido, acabará com a Lava Jato, arquivará as investigações, e a corrupção reinará soberana novamente.

Acontece que a política é feita de pessoas. Eu, que estudo pessoas, não política, vejo este momento que vivemos como uma oportunidade interessante de evidenciar o quanto a política responde a aspectos psicológicos.

De um ponto de vista estritamente político, é um contrassenso que o governo Temer tenha qualquer apoio popular, após a rejeição maciça ao governo Dilma. Mas, psicologicamente, faz todo sentido.

Derrubar Dilma vem sendo um processo desgastante, exigido pelas constantes evidências de incompetência administrativa e falência moral. O custo desse processo é altíssimo, agravando a crise econômica e acirrando disputas políticas.

Há uma necessidade premente de calma, de descanso. Há um imperativo, um fenômeno macro psicológico, que vai dar ao governo Temer uma chance de fazer algo, de mostrar serviço.

Então, entendo que alguma acomodação deverá acontecer. Mesmo com as investigações revelando mais e mais escândalos, a população acabará respondendo menos a eles. A indignação aguda que marcou os últimos anos deverá arrefecer.

Este fenômeno poderá dar ao governo Temer uma janela de oportunidade, mas apenas isso. Há sempre o risco de que se capitalize em cima da imagem de um salvador da pátria. Mas, acredito, estamos um pouco mais imunes a isso atualmente.

Está acontecendo um amadurecimento, e correspondente aumento de complexidade, do nosso cenário político. As mudanças são profundas. E a principal delas é a percepção, cada vez maior, de que o poder não está centralizado em Brasília, nas mãos do Executivo e Legislativo.

O poder está mais difuso. Está nas instituições. No Ministério Público, na Polícia Federal, na opinião pública, nos movimentos populares (que já não são mais exclusividade de um lado do espectro político, e isso é ótimo).

E o receptáculo final desse processo de difusão do poder é o indivíduo. Entre cada um de nós e o eixo Palácio-Congresso havia um abismo de poder. Hoje há um gradiente muito mais sensível.

A saída para a crise não está no fim do governo Dilma. Muito menos no novo governo Temer. A saída está no fortalecimento das instituições que representam a sociedade e, em última análise, de cada um de nós.

É preciso haver iniciativa, participação, empreendedorismo, caridade. Um terceiro setor independente do Estado. A tal reforma política por que tanto clamamos, que torne cada um em agentes realmente efetivos da política e da sociedade.

Pequeno parêntese:

Em 1964 o jornal NY Times publicou um clássico artigo a respeito do assassinato de uma jovem chamada Kitty Genovese. Segundo o jornal, 37 pessoas testemunharam o assassinato, que levou algumas horas para ser consumado, mas ninguém chamou a polícia.

Os detalhes do caso não foram corretamente retratados na reportagem, mas este episódio se tornou o exemplo paradigmático de um fenômeno, estudado por psicólogos, chamado de bystander effect (efeito do espectador).

Segundo este efeito, a probabilidade de que alguém intervenha em uma situação de crise é menor quanto maior for a percepção de que outras pessoas também possam intervir.

A explicação mais comum para esse fenômeno é a chamada "difusão de responsabilidade". Ou seja, quando há outras pessoas que, imaginamos, podem resolver uma situação, cada um se sente menos responsável por fazê-lo.

Outro dia eu me lembrei desses estudos ao passar por uma grande avenida em São Paulo e ver um pequeno incêndio na fiação elétrica, no alto de um poste. Com centenas de carros por minuto, mais pedestres e moradores da região, todos testemunhando o incêndio, era óbvio que alguém já havia de ter chamado os bombeiros. Minha primeira, e instintiva, reação foi passar direto.

Mas, lembrando-me do bystander effect, resolvi ligar para a emergência. A atendente só me informou, com uma voz que não escondia o anticlímax, que "Já estamos sabendo". Confesso que cheguei a me sentir meio ridículo. "É óbvio que alguém já tinha ligado", pensei. O que só mostra como é difícil ir contra estes instintos psicológicos.

No entanto, é justamente por isso que podem acontecer situações, aparentemente absurdas, em que centenas de testemunhas observam um incêndio sem que ninguém, de fato, chame ajuda.

Então, acho que a metáfora com o momento político brasileiro já está bem clara. Dilma impedida. Governo de transição. Novas eleições no horizonte. O país em chamas.

O que fazer? Quem virá nos salvar? Onde estão os novos líderes, os bons políticos, afinados com os novos tempos?

Eu não sei quais as chances de que existam os bons políticos. Mas, certamente, ela é tão menor quando maior for a certeza de que cabe a alguma outra pessoa assumir esse papel.

Não é necessário ser candidato a nada. É uma saída, também, é claro. Você já pensou em parar de se indignar e fazer a boa política com suas próprias mãos? Ao invés de ficar esperando que alguém confiável surja?

Mas, não é a única saída. Mais importante, ainda, é parar de se preocupar com quem vai resolver as coisas em Brasília, e entender que quem pode resolver a crise é você, hoje mesmo, da sua casa, em sua comunidade. Com trabalho, com civilidade e, até, participação política.

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