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Você pode nunca ter ouvido falar de Marco de Bari. Mas deveria. E vai

Publicado: Atualizado:
MARCO DE BARI
Reprodução/Facebook
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Eu comecei a escrever este texto bem mais cedo, muito antes de a notícia ser oficialmente confirmada. Há momentos em que ser um repórter faz você ter de antecipar o que terá de reportar. Muito antes de precisar. Neste caso, não só por dever de ofício e dificuldade técnica, mas também por consideração. Hoje eu preciso te contar sobre o Marco de Bari.

Se você é brasileiro e é um maluco por carros, tem obrigação de saber quem ele é. Se não é uma coisa nem outra, juro que é alguém que vale a pena conhecer. Ele era um dos maiores fotógrafos automotivos que o Brasil já produziu. Um que não só era apaixonado por fotografia, mas também pelos objetos que ele retratou.

Ele sabia qual era o melhor ângulo deles, qual era a luz certa para torná-los ainda mais deslumbrantes. E o momento exato em que devia apertar o botão e registrar o momento. Como ele deve ter feito na última terça-feira, 5 de julho, enquanto fotografava um Mitsubishi Eclipse AWD 1990. Às 10h34 daquela manhã, uma grua do estúdio onde ele estava fazendo caiu em sua cabeça.

Seu assistente, Daniel Guedes Fernandes Dionizio, de 25 anos, também foi atingido na cabeça e na perna. A perna teve de ser amputada, mas Dionizio viverá. Bari morreu hoje, sexta-feira, 8 de julho, pela manhã.

Senna

Marco, como eu às vezes tinha o privilégio de chamá-lo, nasceu em 2 de fevereiro de 1963. Eu fui criado olhando para os carros que ele fotografou para a Quatro Rodas. Ele começou a trabalhar lá em 1989, mas só apareceu como membro oficial da equipe no expediente da edição de setembro de 1994, já como editor de fotografia. Isso não o impediu de fazer algumas das fotos de capa mais memoráveis da história da revista. E de fotografar algumas pessoas icônicas, como Ayrton Senna. Você pode vê-los juntos na foto abaixo. Bari é o cara à direita depois de Senna.

marco de bari

Bari era quem organizava as fotografias da desmontagem dos carros de teste de longa duração da Quatro Rodas. Como o Volkswagen up! abaixo:

marco de bari

Versatilidade

Ele também era um fotógrafo versátil. Ele tirou uma das últimas fotos de capa da Playboy brasileira na Editora Abril, que também edita a Quatro Rodas. A revista masculina é publicada agora pela PBB Entertainment.

Bari alcançou o sonho de todo homem (não, não é tirar fotos de mulher pelada e carros para ganhar a vida, mas sim fazer o que gosta para pagar as contas). Ele era um fotógrafo em tempo integral, sempre prestando atenção a algo que ninguém tinha percebido. E registrando o inusitado de uma forma artística.

lua são paulo marco de bari

Esta acima é São Paulo, sua cidade. Um lugar feio se você não sabe para onde olhar. Nem como. Bari tinha esse dom até quando olhava para o chão:

marco de bari

Histórias. Muitas delas

Em uma de suas muitas sessões de foto de carro, uma cobra decidiu atravessar a estrada. E lá estava ele para preservar o momento para sempre. Suas viagens lhe renderam muitas histórias engraçadas. Que ele nos contava rachando o bico. Como quando ele foi preso na Alemanha porque estava em um porta-malas para fotografar o carro que vinha atrás. Ou quando Ayrton Senna limpou as rodas do carro que ele iria fotografar ao lado do grande piloto. Ou muitos outros que só os que estavam com ele serão capazes de contar daqui em diante. Como Juliano Barata, editor do FlatOut! e também um grande fotógrafo, além de seu aprendiz. Se Bari era o Mestre Miyagi, Barata é o "Daniel San". E Bari contava suas histórias como você pode ver abaixo, com caras e bocas.

Eu tive minha quota quando trabalhei com ele na Quatro Rodas. Especialmente quando ele precisava de ajuda para fotografar carros em movimento. Ele gritava, gesticulava e xingava para nos fazer dirigir no ritmo certo, na direção que ele queria. E ele ficava bravo e bufava se as coisas corriam mal, como bom descendente de italiano que ele era. A luz tinha que estar perfeita. A velocidade. Tudo. E o resultado está em seu trabalho. Felizmente, tiveram a ideia de entrevistá-lo e registrar parte de seu trabalho em vídeo.

RIP, Bari

Foi por isso que começamos antes este texto de despedida. Bari não merecia qualquer registro, escrito às pressas. Precisava ser algo que pudesse transmitir a quem não o conheceu o tamanho da perda que sua partida representa. Escrito com a esperança de que nunca fosse preciso publicá-lo, mas que as notícias da gravidade de sua situação não aconselhavam ignorar.

Gostaríamos de não ter precisado escrever isso e colocar no ar. Ele era um grande torcedor do Palmeiras, o pai amoroso da Nicole e um ótimo marido para Juliana. Ele era um cara legal e um profissional muitíssimo respeitado. Ele era um amigo. E fará uma falta incrível. Obrigado, Bari. Foi um privilégio ter trabalhado contigo.

*Texto originalmente publicado em Motorchase