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Mais uma plaquinha levanta

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Toda semana se criam bandeiras de causas alheias. "Eu não mereço ser estuprada", "Eu não mereço ser assassinado", "Somos todos macacos", "Eu também sou Cláudia".

Muita gente se manifesta, está na moda ser bacana, e seus Facebooks, Twitters e Instagrams ficam lotados de fotos apoiando alguma vítima.

Só que não é bem assim.

Não somos Cláudia, mulher pobre e negra, que foi morta por policiais na favela em que morava, mal atendida e arrastada pela rua no percurso ao hospital.

Não somos o Daniel Alves ou o Tinga, jogadores negros que receberam grandes ofensas racistas durante partidas de futebol.

Não somos o DG, negro, que foi assassinado em uma favela ocupada pelas UPPs.

Não somos a mulher estuprada que ficou com medo de denunciar seu estuprador por que talvez duvidassem dela.

Não somos o menino gay que foi espancado e morto porque estava andando na rua.

Nós somos diferentes. E temos que enxergar essa diferença. Ela existe por causa de privilégios que temos por sermos homens, brancos, escolarizados, ricos, livres, heterossexuais, magros, bonitos, sem deficiências físicas, empregados legalmente ou donos de um negócio, praticantes de uma religião permitida no país, de etnia que é a maioria do país em que vivemos.

Temos muitos privilégios e querer "ser" a vítima está bastante aquém do que se pode fazer para minimizar esses crimes. A plaquinha feita no conforto dos seus lares é um jeito tímido de assumir que não se faz nada pelo outro. E parece ser suficiente para a maioria.

Enquanto isso, você continua ganhando mais que seu colega de trabalho negro ou mulher. A polícia continua vitimando negros, simplesmente porque são negros. Homossexuais não têm os mesmos direitos você tem. E mulheres também não. Você anda no ônibus com medo de te roubarem o celular, mas não passa pela sua cabeça que você pode ser estuprado e morto no caminho para casa. Você entrou em uma boa faculdade, fez intercâmbio e pode trabalhar no que gosta, porque seus pais tiveram dinheiro para garantir sua educação. Aliás, você vive em um país livre e não teve que pedir asilo e se sujeitar a trabalho escravo. Você vive na cidade e tem acesso a médicos e hospitais particulares, sem depender da ajuda do exército, de médicos que não querem trabalhar no interior ou da saúde humanitária de ONGs. Você anda na rua de mãos dadas com quem você ama, e não é questionado sobre porque o nome do RG é de homem, se você é uma mulher.

Você não merece meu like. Porque você acha que não é preconceituoso só porque tem amigos negros ou gays. Também acredita que não é machista porque, né, você tem mãe, esposa, irmã, filha. E porque você acha que está livre de acusação de preconceito só porque você pertence a uma minoria ou não tem todos os privilégios que eu citei acima.

Superioridade é algo que ensinaram a você. É o que o sistema teima em afirmar através das leis existentes, dos privilégios que o judiciário confere, das bancadas de políticas excludentes patrocinadas por grandes corporações e fazendeiros. E aquele seu tal privilégio do qual falei antes pode agir aqui. Pode tornar ambientes corporativos mais justos e igualitários, educar crianças de maneira igual e sem distinções de gênero, denunciar um amigo que abusa de mulheres, andar com amigos gays e não se sentir especial por causa disso.

Aliás, não se deve fazer isso para ser especial. A vida do outro lado da tela não é medida em likes.

Abaixe sua plaquinha e levante um radar das suas atitudes. Já é um começo.