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Duas espécies de tatu e uma de lagarto foram descobertas no Brasil em apenas um mês

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Muita gente imagina que já conhecemos todos os representantes da nossa fauna. Ledo engano. Anualmente, centenas de novas espécies são descobertas por biólogos em todo o mundo e o que falta para ser descoberto está na ordem de milhões. E o Brasil, apesar de abrigar a maior biodiversidade do planeta, já estudada há séculos, ainda está muito longe de ter toda sua fauna completamente revelada.

Essa lacuna está concentrada principalmente nos grupos de invertebrados terrestres e marinhos. O que até mesmo a maioria dos biólogos desconhece é que mamíferos de médio e grande porte, considerado um grupo bastante conhecido, ainda guardam representantes que ainda não foram desvendados.

É o que demonstra os trabalhos do biólogo paraibano Anderson Feijó, doutorando em Zoologia pela Universidade Federal da Paraíba. Ele já havia publicado em 2013 a descrição de uma nova espécie de porco-espinho (Coendou baturitensis) e outra de cutia (Dasyprocta iacki), junto com o renomado Dr. Alfredo Langguth. Dessa vez, acaba de lançar em conjunto com o também biólogo e professor da UFPB, Dr. Pedro Cordeiro-Estrela, um artigo na revista Zootaxa, descrevendo duas espécies de tatu para a região amazônica, Dasypus pastasae e Dasypus beniensis.

2016-10-03-1475524711-3584288-kappleri.jpgTatu-de-quinze-quilos (Foto: Vicent Rufray/Biotope)

Você acha que a descoberta foi realizada no meio da mata? Nada disso. Ambas as espécies eram anteriormente reconhecidas como Dasypus kappleri, um tatu de médio porte, chamado popularmente de "quinze-quilos" (massa aproximada do animal) e relativamente comum na Amazônia. Feijó analisou dezenas de exemplares depositados em coleções científicas do Brasil, Colômbia, Venezuela, Equador, Peru e Estados Unidos e encontrou diferenças morfológicas responsáveis por separar o que era uma única espécie em três. Dasypus kappleri agora está localizada apenas ao norte do Rio Amazonas até a região das Guianas. Ao sul, está Dasypus beniensis. Já Dasypus pastasae ocorre ao leste da Amazônia, entre Venezuela e Bolívia. As três são quase idênticas e as duas últimas já foram consideradas como subespécies de D. kappleri, mas podem ser diferenciadas através de características do crânio, casco e cauda.

2016-10-03-1475524850-401734-mapafummy.pngDistribuição das espécies de tatu-de-quinze-quilos (Fonte: Feijó & Cordeiro-Estrela 2016)

Na edição anterior da mesma revista, os professores doutores Diva Borges-Nojosa, da Universidade Federal do Ceará; Ulisses Caramaschi, do Museu Nacional de História Natural do Rio de Janeiro e Miguel Trefaut Rodrigues, da Universidade de São Paulo, também revelaram para a Ciência uma nova espécie de lagarto, batizada de Placosoma limaverdorum, em homenagem ao professor aposentado pela UFC, Dr. José Santiago Lima-Verde e ao agrônomo Wilson Lima-Verde, proprietário do terreno onde o holótipo (exemplar que representa oficialmente uma espécie) foi coletado.

2016-10-03-1475524942-2778996-limaverdorum.png Nova espécie de lagarto cearense (Foto: Diva Borges-Nojosa)

Na década de 90, Borges-Nojosa já havia coletado indivíduos dessa espécie na Serra de Baturité, Ceará, distante pelo menos 1700 km ao norte da distribuição original das outras populações do gênero Placosoma. Na época, a bióloga já havia notado algumas diferenças em relação às outras espécies conhecidas, mas aguardou novas evidências para comprovar. Agora, depois de coletas em outras regiões do estado e de análises morfológicas complexas comparadas com outros representantes do grupo, os pesquisadores finalmente atestaram que essas populações do Ceará representam uma única espécie, localizada até o momento apenas nas Serras de Baturité, Maranguape e Pacatuba. Chamadas de brejos de altitude, essas serras são cenários conhecidos mundialmente por abrigarem espécies endêmicas, ou seja, que só existem lá, como os anfíbios Adelophryne maranguapensis e Adelophryne baturitensis, o periquito da cara-suja Pyrrhura griseipectus e o lagarto Leposoma baturitensis.

Além da excelente notícia em sabermos que nossa lista de fauna é crescente, essas descobertas são muito mais do que isso. Perceber de que forma esses animais se distribuem no mapa hoje é fundamental para entender os processos de evolução e dispersão das espécies ao longo de milhares de anos. Quando ocorreu a separação das populações do ancestral comum? Quem foram esses ancestrais? O que pode ter motivado essa separação? Terá sido um rio? Um evento climático? Uma longa migração e isolamento? Além disso, identificar essas diferenças morfológicas e moleculares das espécies pode nos dar a resposta para inúmeras relações ecológicas. Esse padrão de interdisciplinaridade, sem dúvida, é uma das maiores belezas da Biologia.

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