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Pra que ter uma onça exibida como mascote?

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ONA PINTADA
Reprodução/Secom
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Mais uma tragédia envolvendo animais em cativeiro. Após a passagem da tocha olímpica por Manaus, Juma, uma onça pintada (Panthera onca) acabou sendo abatida com um tiro. Ela estava sendo exibida no evento e pertencia ao Centro de Instrução de Guerra na Selva(CIGS), sob responsabilidade do Comando Militar da Amazônia (CMA), órgão vinculado ao Exército Brasileiro.

De acordo com a nota emitida pelo Exército, a onça fugiu ao ser encaminhada para uma jaula após a exibição, adentrou uma zona de mata, foi perseguida, encontrada e atingida com um tiro tranquilizante. Os militares afirmam que não houve eficácia nesse método e o animal acabou avançando sobre um dos militares. Para preservar a vida humana, um tiro de pistola foi disparado na cabeça da onça.

Uma vergonha que já está repercutindo internacionalmente, principalmente porque a espécie é símbolo das Olímpiadas, que acontecerão esse ano no Rio de Janeiro. Diante disso, precisamos falar sobre duas coisas. Primeiro, sobre esse caso em específico e depois sobre confinamento de animais silvestres.

Apesar de não termos mais detalhes sobre o ocorrido, uma coisa é certa, se a onça fugiu, alguém errou feio. Estamos falando de um predador, topo de cadeia e que em situações de estresse pode trazer riscos à vida humana. Um evento com fogos e barulho de forma alguma é ambiente propício para um animal silvestre desse porte. Se ela não deveria nem ter saído do seu recinto, o que dizer da falha apresentada em sua condução.

Quanto ao tiro, apesar da polêmica, se de fato havia risco à vida humana infelizmente não houve o que fazer. E eu acredito fortemente que a decisão foi bastante difícil e dolorosa, pois nos parece clara a afeição dos militares pelos seus animais. Mas os questionamentos maiores não estão sobre a necessidade do tiro e sim sobre o que ocorreu antes.

Quais foram as sequencias de erros que podem ter acontecido para que fosse necessário chegar nesse ponto? É preciso saber mais detalhes sobre o que aconteceu em sua perseguição. Um tiro de tranquilizante pode, principalmente em um primeiro momento, causar mais estresse no animal e é preciso saber se quem preparou o composto utilizou a dosagem correta e se estavam preparados para esse tipo de acontecimento. Outro ponto é saber se a distância de segurança entre os militares e o animal foi respeitada na hora do tiro. Queremos acreditar que sim, mas para isso precisamos de mais explicações por parte do CMA ou do CIGS.

Essa tragédia se junta ao caso do gorila Harambe do Zoológico de Cincinatti (Estados Unidos) e dos leões abatidos no Chile após um homem ter se jogado na jaula para tentar suicídio, levantando um caloroso debate sobre a necessidade ou não de zoológicos. Antes de mais nada, é preciso afirmar que zoológicos cumprem uma função de extrema importância para a conservação da vida silvestre.

Além da atividade óbvia de educação ambiental, programas de reprodução e de estudos genéticos em cativeiro promovem material de valor imensurável para programas de reintrodução e recuperação de fauna na natureza. Além disso, zoológicos são responsáveis por financiamentos de 350 milhões de dólares todos os anos direcionados a projetos de conservação na natureza. Pedir a extinção de zoológicos é fruto de muito romantismo aliado a total desinformação. Obviamente, precisamos discutir a conduta de muitos estabelecimentos, mas isso não justifica a eliminação da atividade.

Entretanto, para o caso da Juma, precisamos debater muito além disso. Apesar do CIGS abrigar um zoológico que mantem animais provenientes de ações contra a caça e do tráfico, muitos sem possibilidade de reintrodução, me pergunto qual é a mensagem de expor um animal vivo na multidão como mascote?

Seria uma mensagem de educação ambiental ou de conservação? Discordo. Para mim, a mensagem é de domínio humano sobre a fauna, claramente ilustrada pela foto de dois onceiros (como são conhecidos os militares que tratam das onças) segurando Juma por uma coleira. Precisamos rever se esse tipo de conduta é de fato interessante. Vejam bem, não estou dizendo que manter essas espécies em cativeiro ou domesticadas é sempre sinal de erro.Nem todo "domínio" é ruim.

O Instituto Onça Pintada, coordenado pelo Dr. Leandro Silveira, é um exemplo de instituição que, além de manter pesquisas em campo, também exerce atividades com onças cativas, a maioria órfãs pela caça e faz isso com excelência. O próprio CIGS mantem animais silvestres para fins de proteção e por isso merece elogios, mas é importante que fique por aí. Exibição em público, principalmente nessas condições não me parece adequado. Se for para fazer algo mais, o mais importante seria fornecer meios para que o CIGS possa atuar como provedor de reintrodução dessas espécies.

Espero que esse triste ocorrido possa servir como fator de mudança. Mas ideal também seria se toda essa comoção em torno de um único animal também servisse para mobilizar a sociedade para gritar contra a diminuição de praticamente todas as populações da espécie. Em apenas 30 anos, perdemos 27% de nossas onças. Muitas Jumas, infelizmente, invisíveis.

Abaixo, segue o link de um vídeo onde também explico essas questões.

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