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O mérito de Rafaela Silva e o chorume dos ultraconservadores

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RAFAELA SILVA
David Ramos via Getty Images
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Fim de luta, medalha de ouro para o Brasil no judô. Rafaela Silva aos prantos. Lágrimas minhas acompanhadas de sorriso. Na primeira entrevista, o desabafo. A atleta relembra os ataques de racismo após sua derrota nas Olimpíadas de Londres. Minhas lágrimas, assim como as de milhões de brasileiros, também se transformam em choro copioso.

Vou dormir feliz, principalmente vendo a reação das pessoas na internet sobre o assunto. Começo a ver pessoas fazendo aproveitamento político do caso (com viés tanto de direita como de esquerda), mas nada longe do esperado.

Eis que um meme postado em uma página de ultradireita me chamou atenção. Em uma tentativa deturpada e infeliz de negar a importância do feminismo e das ações afirmativas, aquela velho chorume (não consigo arranjar outra definição) de usar um exemplo de superação de dificuldade como via de regra para qualquer minoria neste País:

rafaela silva

O que você lerá daqui pra frente não é o enaltecimento de um lado político em demérito de outro. É apenas a refutação de um meme ridículo, que, por acaso, é ultraconservador. Veremos por que a Rafaela Silva também precisou do feminismo e de ações afirmativas para alcançar essa medalha e também como esses fatores NÃO DIMINUEM EM NADA O SEU SUCESSO, em hipótese alguma.

1) Por meio do feminismo, mulheres puderam competir nos Jogos. Em 1900, seis mulheres feministas enfrentaram as regras olímpicas, obrigando a organização a criar um evento paralelo. Esse torneio paralelo foi levado até 1928. O Barão de Coubertin, criador das Olimpíadas Modernas, inclusive pediu demissão afirmando que a presença feminina era uma traição ao espírito olímpico. Para quem acha que o feminismo de hoje não é mais necessário, saiba que há muito a ser conquistado. No Brasil, a principal ainda é a divergência nos valores de patrocínio, pauta que foi levantada pela atleta Sandra Pires na década de 80 contra Carlos Arthur Nuzman (antes presidente da CBV, hoje no COB), por conta de um patrocínio da marca esportiva Rainha. Atletas masculinos e femininos tinham que vestir o uniforme com a marca, mas só os homens recebiam grana.

2) Precisou do feminismo para entrar na Marinha. Com mulheres na corporação somente a partir da década de 80, apenas em 1996 foi aceita a promoção de oficiais mulheres, por meio de lutas feministas.

3) Precisou também de auxílio. Além da atuação do Instituto Reação, coordenado pelo medalhista olímpico Flávio Canto, ela foi, durante anos, beneficiária do Bolsa Atleta, programa do Ministério do Esporte que atende jovens promissores. Sem o benefício da bolsa e dos patrocínios adquiridos, a atleta, como ela mesma já declarou, jamais alcançaria êxito. Além disso, sua entrada na Marinha não se deu por meio tradicional e sim pelas vagas fruto de uma parceria entre os ministérios da Defesa e do Esporte. Ou seja, cotas reservadas para esses atletas.

4) Mas, apesar de tudo isso, é claro que ela conquistou por mérito próprio. O fato de ela ter recebido bolsa, além dos benefícios históricos do feminismo, só ajudou para que ela pudesse estar em uma condição mais justa (ainda que esteja longe, muito longe do ideal) de competir com quem não enfrenta problemas de misoginia, pobreza e racismo. Mérito maior é ter vencido ainda em um patamar social muito inferior à maioria de suas concorrentes. Se tem uma coisa que essa mulher tem na vida é mérito. Certamente mais do que maioria de nós. Não há problema em falar sobre meritocracia esportiva, desde que se entenda antes que ela só funciona isoladamente quando houver isonomia. De resto, ou as pessoas citam exceções como se fossem regras (ou como se pudessem facilmente virar regras) ou soltam chorumes como esse.

5) Enquanto há pessoas soltando esse meme falando pela Rafaela, com esse tom conservador, é bom lembrar que a atleta é declaradamente de esquerda. Isso não faz dela melhor ou pior, mas significa que quem usa esse meme, sem dúvida, está utilizando a imagem da atleta para propagar uma posição política contrária à dela, o que denota uma grande desonestidade intelectual.

É triste saber que, mesmo diante do choro de desabafo pelos atos racistas que ela sofreu, alguém ainda prefira ignorar isso e tirar um discurso ultraconservador de onde não existe. É chorume... E todo chorume fede.

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O ouro de Rafaela Silva no judô na Rio 2016
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