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Como o Eurovision pode ter piorado a crise na Crimeia

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Comentamos há pouco mais de uma semana sobre o Eurovision. O festival, criado em 1956, mobilizou este ano uma audiência de 204 milhões de pessoas com cada país europeu enviando uma música competindo para levar o título e o festival para solo próprio. Pela própria concepção, trata-se de uma competição musical com alto apelo político, não raramente utilizada por governos nacionais como ferramenta de propaganda (ou provocação).

Pois bem, tratamos aqui do favoritismo da Rússia e o medo que pairava no ar com a possibilidade do país sediar um concurso essencialmente apoiado por fãs LGBT. As novas regras de pontuação desse ano, porém, deram a vitória para a arquirrival de Putin e cia.: a Ucrânia, cantando sobre a Crimeia.

Canção polêmica

A vencedora Jamala é descendente dos tártaros crimeios, uma etnia bem miscigenada: é o resultado da união de várias tribos como os turcomanos, pechenegues, búlgaros, cimerios, godos , kiptchaks, etc. São povos que se estabeleceram na região desde VII a.C até meados do século XVIII. Em 1944, sob julgo da União Soviética, os tártaros que ali viviam foram deportados da região. Stalin argumentou que o grupo apoiava o regime nazista e que teriam colaborado com as tropas alemãs durante a ocupação da região entre 1941 e 1944.

Quase 200 mil tártaros crimeios foram deportados, se estabelecendo principalmente no Uzbequistão, Cazaquistão e na República de Mari (hoje parte da Rússia). Desse total, 7% morreram de fome e 20%, morreram durante o exílio por causas diversas. Os ativistas da questão pedem que a manobra política seja reconhecida como genocídio. Pois bem, tudo isso para explicar: a avó de Jamala estava entre os deportados.

A música escolhida, "1944", já seria considerada uma escolha polêmica apenas por cutucar uma ferida exposta na região, mas a crise na Crimeia separatista e apoiada pela Rússia só piora a questão. A letra fala de um evento histórico, mas pode ser facilmente interpretada como uma alusão à situação atual de lá: "Quando estranhos estão chegando / Eles vêm para a sua casa / Eles matam todos vocês / E dizem / Nós não somos culpados / Inocentes".

E não poderia ser diferente. Já na final nacional que sagrou Jamala a vencedora e representante ucraniana no Eurovision, a cantora Ruslana - única vencedora ucraniana do concurso até então e uma das mais proeminentes ativistas políticas por lá - questionou o segundo favorito ao posto, Sunsay, quanto à sua suposta amizade com cantores russos (confira legendado para o português abaixo).

Uma vez escolhida, Jamala foi imediatamente contestada por trazer uma mensagem política na música. As regras do festival proíbem o fato, mas a EBU se negou a impedir a participação alegando que um assunto histórico era discutido. Do outro lado, a Rússia preparou um grande espetáculo para sair campeã: .mandou sua maior estrela pop, o famoso Sergey Lazarev, e montou uma apresentação pirotécnica com direito a projeções e telão em 3D. Não foi o suficiente.

Reações pós-resultado

Tão logo o país foi humilhado por ver seu favoritismo escapar e o título parar nas mãos de uma nação rival, a internet foi invadida por comentários raivosos. Várias petições foram criadas questionando a vitória e pedindo revisão do resultado. A própria EBU se manifestou dizendo: isso não vai acontecer.

Statement in response to petition on Change.org calling for the results of the 2016 Eurovision Song Contest to be...

Publicado por Eurovision Song Contest em Terça, 17 de maio de 2016

Declaração em resposta à petição no Change.org exigindo revisão dos resultados do Festival Eurovisão da Canção 2016.

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O Eurovision Song Contest 2016 foi um show espetacular e um testemunho de um ano de trabalho duro por tantas pessoas de tantos países. Os shows ao vivo eram produções de classe mundial para a televisão, com um clímax de suspense na noite de sábado.

Compreendemos as paixões e emoções que são gerados através do Eurovision Song Contest. À luz disto, temos tido conhecimento do seu pedido e apreciamos esta oportunidade para responder.

O vencedor do Eurovision Song Contest 2016 foi decidido por profissionais da indústria musical e por vocês, telespectadores em casa, cada um com uma participação de 50 por cento no resultado. Jamala da Ucrânia ganhou, graças ao amplo apoio de ambos os júris, bem como televoters. Ela o fez com um excelente desempenho de uma canção emocional, contando uma história pessoal.

A australiana Dami Im ganhou o voto do júri e a Rússia de Sergey Lazarev ganhou o televoto. Ambos merecem crédito por suas performances de classe mundial, suas grandes canções e por aceitarem suas derrotas como verdadeiros profissionais. Eles podem não ter ganho o concurso, mas responderam ao resultado como vencedores. Nós os respeitamos e os apreciamos por isso.

O Eurovision é uma competição. Só pode haver um vencedor. Entendemos que nem todos concordam com o resultado do Eurovision deste ano no entanto, em uma competição onde os resultados são decididos com base em uma opiniões subjetivas e muitas vezes muito pessoais, sempre haverá pessoas que não concordam. Independentemente disso, o resultado mantém-se válida por todos os meios, de acordo com as regras de como eles eram conhecidos por cada emissora participar, cada artista e cada fã dedicado.

A Ucrânia é, e continuará a ser, o vencedor do Eurovision Song Contest 2016. Se você concorda ou discorda, convocamos aqueles que assinaram a petição para abraçar o resultado, válido em conformidade com as regras, para continuar um diálogo construtivo sobre como reforçar e melhorar o Eurovision Song Contest.

Os questionamentos porém, não cessaram e as críticas continuam. Outra regra do Eurovision diz que as músicas candidatas devem ser apresentadas a partir de setembro do ano anterior. O problema: Jamala já tinha apresentado uma versão integralmente cantada em tártaro de 1944 quase um ano antes, em um show com uma retrospectiva de sua carreira. A EBU disse, no entanto, que por se tratar de uma divulgação limitada e sem visibilidade massiva, "1944" continuava vencedora.


Vídeo mostra Jamala interpretando "1944" quase um ano antes do Eurovision. Fonte: QHA

Irritados, fãs russos quebraram antenas de transmissão de TV na Suécia, o país anfitrião do concurso. "Decepção, fraude e plágio" foram as palavras mais utilizadas nos principais noticiários russos para descrever a questão. Para piorar: o país pretende realizar a seletiva nacional do Junior Eurovision - versão para crianças do concurso maior - em solo crimeio ainda nesse ano. Seria uma afronta direta ao governo ucraniano que reclama soberania sobre a província separatista. O concurso acontecerá no dia 15 de agosto na pequena Gurzuf.

A Ucrânia também não tem facilitado. O Ministro do Interior do país, Anton Gerashchenko já disse que pretende vetar a participação de alguns candidatos russos no concurso proibindo-os de entrar em solo ucraniano.

Temos o direito de estabelecer regras sobre o território do nosso país. É a Ucrânia quem decide quem tem permissão para cruzar a fronteira e quem não tem. O mesmo se aplica aos meios de comunicação russos. Assim, se o Kremlin decidir que alguém como (Yulia ) Chicherina ou (Iosif) Kobzon devem participar no concurso, vamos simplesmente proibi-los de entrar na Ucrânia. Faremos isso porque eles estão na nossa lista de pessoas que ameaçam a segurança nacional, - Gerashchenko em rede social

Em um ano que pregava a união com seu slogan - "Come Together" (ou "Venha Junto"), o Eurovision pode ter desencadeado mais uma crise diplomática na questão Crimeia e afastado a região ainda mais de uma solução para seu conflito que já dura dois anos.

LEIA MAIS:

- Como o maior festival de música do mundo pode trazer a questão LGBT à tona na Rússia

- O Estado Islâmico pode mesmo atacar o Brasil?

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