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O que a Olimpíada mostrou sobre o mundo até agora

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A Olimpíada termina esta semana e ainda falta muita coisa para acontecer, mas é inegável que ela já entregou exemplos do cenário do mundo atualmente. Nas quadras e fora delas, vimos situações que não só denotam o caráter político que qualquer competição entre nações sempre traz, mas também evidências de problemas e crises no mundo que não ficam restritas ao mundo do esporte.

O mundo (por enquanto) quer distância do governo interino brasileiro

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Temer tem presença internacional minguada. Foto: Mark Humphrey/Reuters

A abertura de uma Olimpíada é sempre um momento de força política do país que a sedia. Não raro, o prestígio da diplomacia do anfitrião também costuma ser medido pela quantidade de chefes de Estado que costuma receber. Com 18, o Brasil teve a pior média desde Sydney 2000. Londres em 2012 teve o maior número: foram 90. Pequim, a gigante metrópole asiática, conseguiu atrair cerca de 70. Atenas contou com 48 enquanto a já mencionada cerimônia australiana somou 24. De destaque mesmo, o Rio só recebeu o presidente francês, François Hollande.

A ausência em massa pode ser explicada por dois motivos. O primeiro deles e mais imprevisível: o banimento de atletas russos por doping. O caso, denunciado por repórteres do país, mostrou que a trapaça em competições oficiais era política de Estado, sustentada há 30 anos com dinheiro do Ministério dos Esportes russo. O banimento irritou o Kremlin e afastou da festa a maioria dos aliados russos: e nessa conta, coloque a maioria das ex-repúblicas soviéticas.

O segundo é mais óbvio: nenhum país quer ser visto como aliado de Michel Temer enquanto sua situação política não se resolver. Na improvável chance do impeachment de Dilma Rousseff não se concretizar, pegaria muito mal uma foto oficial de um presidente provisório que participou ativamente da deposição de sua cabeça de chapa.

Dos EUA, nem mesmo o vice-presidente Joe Biden compareceu (mandaram o secretário de Estado, John Kerry). A Alemanha até chegou a prometer enviar seu presidente, Joachim Gauck figura menor no cenário doméstico, mas nem ele nem a chanceler Angela Merkel compareceram. Ninguém do Reino Unido ou do próximo anfitrião, o Japão.

A vida segue complicada para Israel

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Or Sasson cumprimenta Islam El Shehaby, que o ignora. Foto: Toru Hanai/Reuters

Marcou a semana a imagem acima. Depois de vencer, o judoca israelense Or Sasson estendeu a mão para cumprimentar o adversário, o egípcio Islam El Shehaby, que o ignorou e saiu do tatame sob fortes vaias. Apertar a mão do colega não é obrigatório no judô, mas se curvar sim. Mesmo assim, El Shehaby burlou as regras e foi amplamente vaiado pela torcida, sendo forçado a retornar e abaixar a cabeça protocolarmente para evitar uma suspensão pela Federação Internacional de Judô.

A situação foi apenas uma amostra da extrema animosidade que ainda reside entre os países árabes e Israel, considerado um estado invasor. O Egito é um dos poucos a reconhecer a existência do vizinho judeu, mas as relações diplomáticas não são boas. A briga acontece principalmente pela soberania da Península do Sinai, área egípcia rica em petróleo e ouro e capturada por Israel durante a Guerra dos Seis Dias em 1967 (falamos um pouco aqui, no tópico sobre a Palestina).

Não bastasse a demonstração pública de inimizade no judô, Israel tem sido vítima de uma série de intolerâncias também nos bastidores da Rio 2016. Durante a abertura, atletas libaneses se recusaram a irem juntos com os israelenses ao Maracanã. A chefe da delegação do Líbano, Salim al-Haj Nicolas, mandou que o motorista fechasse a porta do ônibus, enquanto os atletas de Israel insistiam em entrar. Acabaram viajando até o estádio em conduções distintas. Também por questões fronteiriças, Israel e Líbano estão oficialmente em guerra e não mantêm relações diplomáticas.

Completando a tríade de intolerância e falta de fair play, a saudita Joud Fahmy se recusou a disputar uma prova contra a judoca Christianne Legentil, das Ilhas Maurício, no domingo (7). Isso porque, se passasse, se veria forçada a lutar contra Gili Cohen, de Israel. Pelo Twitter, a delegação da Arábia Saudita disse que Fahmy tinha "machucado as pernas e os braços no treinamento".

Nem tudo a ferro e fogo entre as Coreias

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A norte-coreana Hong Un-jong posa com Lee Eun-ju. Foto: Dylan Martinez/Reuters

Causou surpresa a imagem da atleta norte-coreana Hong Un-jong tirando uma selfie com "inimiga" Lee Eun-ju. Houve quem previsse anos de trabalhos forçados para Un-jong ao voltar para casa. Outros viram na imagem um pequeno passo na retomada de relações diplomáticas entre as duas porções da ilha. Nem um nem outro.

Como brilhantemente lembrou a BBC, a fechada Coreia do Norte tenta, pelo esporte, estabelecer relações diplomáticas com o mundo desde 1980. A capital Pyongyang chegou a negociar o envio de uma delegação mista por três ocasiões antes do discurso belicista subir o tom e as relações com a Coreia do Sul se deteriorarem. O mais próximo disso foi o desfile sob a mesma bandeira, nas Olimpíadas de 2000, em Sydney.

Quanto a Hong Un-jong, o pior que pode acontecer a ela é uma sessão disciplinar. Como são compulsoriamente membros do Partido Comunista norte-coreano, os atletas são banhados em honra e riqueza se alcançam feitos internacionais ou passam por uma sessão de xingamentos, caso envergonhem o país aos olhos do mundo.

Depois de algumas horas ouvindo críticas, o atleta pede desculpas e promete melhorar no futuro. Pode ser que perca mordomias, mas dificilmente será fuzilado ou levado para campos de trabalho forçado. A própria Hong Un-jong já tinha sido fotografada antes abraçando a fantástica atleta estadunidense Simone Biles e nem por isso deixou de competir na Rio 2016.

Mas a vida dos atletas da Coreia do Norte continua tão fechada quanto sempre foi. Ao início das competições, a Samsung anunciou a criação de uma versão limitada do seu smartphone Galaxy S7, na cor preta e com os anéis olímpicos grafados. No entanto, por se tratar de uma companhia sul-coreana, a Coreia do Norte proibiu que os atletas recebessem os aparelhos.

Tudo é ruim... até ser bom

zika

Zika afastou atletas e ocupou manchetes internacionais. Foto: Nacho Doce/Reuters

As manchetes antes da Olimpíada eram as piores possíveis: crise econômica, zika, balas perdidas, água poluída, ameaça de terrorismo. Jornais americanos chegaram a cunhar um termo novo para a tempestade perfeita que se aproximava: "desástrofe". Tudo uma grande balela, ao fim e ao cabo.

Ameaças como as feitas pelos lobos solitários do Estado Islâmico não podem ser ignoradas, sobretudo depois de tentativas de ataques aos estádios da Eurocopa e os atentados recentes à França. Mas já comentávamos aqui desde abril: não é do feitio do califado realizar ataques em áreas com segurança reforçada. Ao contrário, os jihadistas preferem pegar a população desprevenida, espalhando o terror pela surpresa. A distância geográfica para Síria e Iraque também não ajuda os terroristas e, para um lobo solitário, é difícil planejar um atentado de grandes proporções como os vistos na Europa.

Mesmo com o medo de estrangeiros e com as brincadeiras da goleira estadunidense Hope Solo (carinhosamente recebida com gritos de deboche e vaias por onde passou no Brasil), o zika também não apresentou grande ameaça. Como a própria OMS divulgou, agosto não é um mês propício para proliferação do mosquito Aedes aegypti. Tudo isso só prova que a histeria em torno da capacidade de um país sediar ou não a Olimpíada quase sempre é injustificada, e o prognóstico melhora uma vez iniciadas as competições.

Pequim 2008 foi alvo de uma série de reportagens negativas devido aos protestos no Tibet e à poluição do ar (o ar na cidade de fato é perigoso, mas seus efeitos só são sentidos a longo prazo). Já Londres 2012 viu sua segurança (acredite ou não) questionada depois que a G4S, empresa responsável pela área, não conseguiu colocar na rua parte dos 10,4 mil homens que fariam o patrulhamento olímpico.

E nem bem terminaram os Jogos de 2016, os de 2020 já estão sob olhares da imprensa. A Foreign Policy já publicou reportagem em que coloca a realização das Olimpíadas por lá em dúvida. Entre os motivos, o "escândalo" de plágio da logo oficial, a readequação do design do estádio nacional (sob o temor do estouro do orçamento e de não ficar pronto a tempo) e o clima da cidade em julho, que seria "extremamente arriscado para os atletas".

O ciclo mostra: tudo é ruim para a imprensa estrangeira. Até ser bom.

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Moda e estilo no desfile das delegações na Rio 2016
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