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Genocídio moderno: Os relatos do massacre contra os Yazidi pelo Estado Islâmico

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TERRORISM
Oleg Zabielin via Getty Images
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A Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria, vinculada ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, divulgou recentemente um relatório em que chama, pela primeira vez, a perseguição promovida pelo Estado Islâmico (EI) aos yazidi de "genocídio".

Falamos um pouco aqui, no texto sobre Nagorno-Karabakh, sobre o quão difícil é reconhecer o status de genocídio, que demanda provas concretas de extermínio motivado por origem ou religião (além de muita vontade política). A notícia vinda da própria ONU só reforça a gravidade da situação à que está exposta essa minoria étnica que habita o norte do Iraque e a Síria.

Mas quem são os Yazidi?

Subdivisão dos curdos, grupo étnico que habita partes da Síria, Iraque, Irã, Turquia, Armênia e Geórgia, os yazidi são uma minoria religiosa monoteísta que mescla cultos ao zoroastrismo (praticado pelos persas) e as religiões iazdânis (de adoração aos anjos).

Com origens que remontam à antiga Mesopotâmia, eles acreditam que Deus criou o mundo e o deixou sob julgo de um grupo de arcanjos chamados de "Sete Mistérios". O chefe desse grupo seria Melek Ta'us, ou o Anjo Pavão, com características associadas ao nosso Diabo. Ninguém se converte yazidi: é preciso nascer um, já que sua religião prega que eles são descendentes de um menino nascido de uma semente armazenada em um jarro por Adão.

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O Anjo Pavão, em representação artística Yazidi. Fonte: Pinterest/Reprodução

Atualmente, existem entre 800 mil e 1 milhão de yazidi espalhados pelo mundo. 650 mil deles vivem no Iraque e 50 mil na Síria, dois países largamente ocupados pelo Estado Islâmico. Como o Anjo Pavão é considerado maligno por outras vertentes religiosas, seu povo é chamado por conservadores por "adoradores do Diabo", motivo pelo qual são perseguidos pelo EI como infiéis.

O massacre promovido pelos jihadistas

Localizado no nordeste do Iraque, a menos de 15 quilômetros da fronteira síria, o monte Sinjar foi palco da primeira grande ofensiva do EI contra os Yazidi. Nas primeiras horas do dia 3 de agosto de 2014, combatentes terroristas cercaram o local, lar da maioria dos yazidi, e promoveram um cerco total que durou dias.

Pouco mais de 50 mil pessoas foram mantidas sem comida nem água. Homens foram obrigados a se converter ao islamismo ou seriam mortos, meninas foram capturadas como escravas sexuais dos combatentes (uma delas, de 9 anos, ficou grávida depois de ser estuprada) e meninos foram arrancados das famílias e levados para campos de treinamento. À época, 40 crianças morreram como resultado direto da violência apenas nos dois primeiros dias de cerco, de acordo com informações do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Calcula-se que 5 mil pessoas foram executadas pelos terroristas. A libertação efetiva só veio em dezembro do mesmo ano, graças à abertura de um corredor militar pelas Unidades de Proteção Popular (YPG) curdas.

CNN acompanhou o resgate de reféns Yazidi depois de uma semana.

O relatório da ONU é baseado nos relatos de sobreviventes do massacre em Sinjar e traz relatos horríveis.

Mulheres e meninas foram presas em escolas. Combatentes do EI foram até salas onde podiam selecionar quais sequestradas seriam levadas com eles. Elas se encolhiam nos cantos das salas, as mães escondendo suas filhas. A seleção de qualquer garota era acompanhada por gritos enquanto ela era violentamente puxada para fora da sala. Suas mães ou quaisquer outras mulheres eram brutalmente espancadas quando tentavam segurá-las.

[...] Elas começaram a se arranhar até sangrarem, em uma tentativa de se tornarem pouco atraentes para potenciais compradores. Algumas cometeram suicídio. No local de exploração principal em Raqqah, uma garota tentou se matar se jogando do segundo andar de um prédio e, gravemente ferida, teve socorro negado e proibido pelos combatentes. Algumas mulheres e meninas se mataram cortando seus pulsos ou garganta, enquanto outros se enforcaram usando seus lenços de cabeça. (Páginas 11 e 12 do relatório)

Os valores pagos por elas variavam entre e dependendo do estado civil, idade, número de filhos e beleza. Um combatente sírio comprou uma mulher Yazidi em um leilão de escravos em 2015. Ao colocá-la em seu carro, ele disse a ela 'Você é como uma ovelha. Eu comprei você'. Ele a vendeu sete dias mais tarde para um lutador argelino ISIS vivendo em Aleppo. (página 13)

O Estado Islâmico vende mulheres com crianças pequenas como um pacote. Uma vez que uma menina atinja a idade de 9 anos, ela é tirada de sua mãe e vendida como escrava. Quando um menino atinge 7 anos, ele é enviado para um campo de treinamento e de lá para a batalha [...]. Nos centros de treinamento ou acampamentos, não há nenhuma referência à religião de nascimento dos meninos yazidi'. Seu passado é considerado apagado e todo o contato com sua família e comunidade é efetivamente cortado. Em vez disso, uma nova identidade é imposta à força. (página 17 a 19).

A situação atual

Conversamos brevemente com o presidente da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria, o professor brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro. Diplomata e ex-secretário de Direitos Humanos de Fernando Henrique Cardoso, o professor trabalha há meses no relatório em Genebra, na Suíça. "Chegamos à caracterização de genocídio depois de um longo trabalho de investigação em condições dificílimas", conta.

De acordo com o diplomata, existe uma preocupação generalizada na ONU com as mais de três mil mulheres e meninas que ainda são mantidas presas pelos terroristas. A maioria foi solta mediante pagamento de resgate com valores entre mil a mil (aproximadamente R$34 mil a R$ 85 mil). "Nada é feito para libertar essas mulheres e quase nada e feito para assistir psicologicamente as que escaparam", destaca o professor.

Vídeo mostra momento em que mulheres Yazidi são separadas de suas famílias.

Há duas semanas, 19 meninas foram colocadas em gaiolas de ferro e, em seguida, queimadas até a morte em praça pública em Mossul, terceira maior cidade do Iraque. De acordo com a imprensa local, elas se recusaram a ter relações sexuais com os militantes do grupo enquanto eram escravas sexuais.

Estimativas internacionais dão conta que entre 40 mil a 130 mil yazidis tenham escapado desde o início da ofensiva jihadista. Desse total, 11 mil vivem hoje na Alemanha. Entre 600 a 800 fugiram para a Turquia enquanto outros centenas de milhares vivem em assentamentos na própria Síria, à espera de socorro humanitário.

Um fator complicador para o envio de ajuda militar é quem protege esse povo atualmente: o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Militante pela independência curda, a organização existe desde 1978, o PKK é considerado uma organização terrorista pela Turquia, que o combate com a mesma brutalidade reservada ao EI.

A situação é completamente insana: ao denunciar aos americanos a localização dos postos jihadistas, os curdos acabam sendo bombardeados pelos turcos, que integram a coalização militar internacional sobre a liderança dos EUA (confira aqui, um ótimo post do jornalista Guga Chacra explicando o imbróglio diplomático).

Guerrilha feminina do YPG para libertar os yazidi do Estado Islâmico. Fonte: AJ+

Enquanto isso, a Comissão liderada por Pinheiro pediu que os crimes cometidos no Iraque contra os Yazidi sejam levados "urgentemente" pelo Conselho de Segurança da ONU ao Tribunal Penal Internacional. O relatório reitera o pedido pelo reconhecimento internacional do crime de genocídio. "Esperamos que o relatório ajude a libertar os escravos do EI e que o estados membros da ONU se mobilizem para ajudar aqueles que escaparam", clamou Pinheiro ao fim da entrevista.

Conheça mais sobre os Yazidi no artigo do Huffington Post US, clicando aqui (em inglês)

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