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Como o maior festival de música do mundo pode trazer a questão LGBT à tona na Rússia

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LGBT
Diverse Images/UIG via Getty Images
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No próximo sábado (14), a Europa inicia mais uma final do Eurovision Song Contest. Será a 61ª desde que o festival foi criado, em 1956. Na época, a ideia foi reunir o continente em torno de um campeonato musical em que cada país enviaria uma canção para representá-lo. O vencedor ganharia o direito de sediar o evento no ano seguinte.

Mas conforme o concurso cresceu em número de países (começou com 7 países e neste ano, concorrem 42), cresceu também sua audiência e relevância. Tornou-se a maior audiência de um evento não-esportivo no mundo e, só no ano passado, atraiu 197 milhões de espectadores. Era previsível: mesmo proibidos, os países começaram a usar a transmissão do festival como uma ferramenta de capitalização política.

Em 2016 não vai ser diferente. Temos a Grécia que, em tempos de refugiados aportando em sua costa, canta sobre a chegada à terra de Utopia. A Sérvia - um dos países com altos índices de violência doméstica, de acordo com dados do Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento (PNUD) - vem com uma música sobre abuso.

De volta ao festival depois de se ausentar em 2015 para concentrar esforços contra as ocupações russas na Crimeia, a Ucrânia também não deixou barato. Traz esse ano uma música sobre a deportação dos tártaros crimeios pelos russos para a Ásia Central. A letra é carregada de simbolismos. Jamala canta: "Quando estranhos estão chegando / Eles vêm para a sua casa / Eles matam todos vocês / E dizem / Nós não somos culpados / Inocentes". A própria final nacional para escolher o representante ucraniano foi carregada de discussão política (confira legendado aqui).

eurovision

Ironicamente ou não, as preocupações políticas em torno das canções enviadas em 2016 não fala de política. Ao contrário, trata-se de um pop genérico, vazio e com letra melosa. "You're the only one", entrada que pode dar a vitória à Rússia e causar uma ruptura dentro do festival famoso por abraçar a comunidade LGBT.

Os vencedores mais populares do Eurovision. Fonte: EBU/The Independent

A Rússia como centro das atenções

Desde que instituiu a lei que proíbe "propaganda homossexual" no País, a Rússia é constantemente vaiada no Eurovision, largamente adorado por gays de toda a Europa. Em 2014, as gêmeas Tomalchev sofreram com gritos da plateia que acompanhava a votação em Copenhague.

Depois de serem registradas chorando, a organizadora do festival - a União Europeia de Radiofusão (EBU) - instituiu um sistema de aplausos pré-gravados para abafar os apupos contra o País em 2015. Foi necessário que as apresentadoras interrompessem a apuração dos votos e pediram que os espectadores "deixassem questões políticas de lado e se preocupassem a construir pontes entre os povos". Criticada, a instituição e a SVT, emissora pública sueca responsável por realizar a edição de 2016 - já declararam que não vão usar o sistema anti-vaia.

Mas, depois de finalizar em 2º lugar no ano passado com uma música que clamava por paz, a Rússia veio com toda a intenção de ganhar. Para isso, conseguiu, depois de quatro anos de negociações, levar sua maior estrela pop da atualidade para Estocolmo.

Sergey Lazarev é largamente conhecido nas ex-repúblicas sovitéticas e se disse convencido a competir ao ouvir a música composta para ele, "You're the only one". Além do fator "celebridade", o país investiu pesadamente na apresentação: contratou compositores conhecidos no mundo eurovisivo, bailarinos caros, vários cenografistas e coreógrafos, além de desenvolver uma performance em um telão tecnológico que se adapta aos movimentos do intérprete.

População LGBT vulnerável no País

O maior medo é que a vitória russa ocasione em violência para gays, lésbicas e trans quando o país sediasse o evento em 2017. Não seria a primeira vez: em 2009, quando a Rússia foi anfitriã, 800 pessoas foram detidas por se terem manifestado a favor da homossexualidade nas ruas de Moscou, no mesmo dia em que acontecia a final do festival. Bem antes da lei anti-propaganda gay ser instituída.

Os incidentes já começaram. A caminho de uma pré-festa eurovisiva em Moscou, utilizada pelos artistas para promoverem suas músicas antes do festival, o representante de Israel enfrentou problemas com a imigração. Andrógino e gay, Hovi Star teve o passaporte arrancado das mãos e rasgado em uma das páginas pelos oficiais do aeroporto. A situação foi denunciada pela representante espanhola Barei a um jornal. À época, Barei declarou achar "difícil uma vitória [da Rússia] por causa disso, boa parte do público votante do festival é homossexual, e, se eu fosse gay, não votaria na Rússia, por uma questão humana".

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Foto divulgada no Twitter mostra passaporte de cantor israelense danificado. Fonte: Twitter/Reprodução

Fã do concurso desde de 2010 e dono do ESC Brasil, o maior site do gênero por aqui, Eduardo Lobo está em Estocolmo para acompanhar o festival ao vivo pela segunda vez. Ele diz que não acredita em boicotes ao festival caso a Rússia saia mesmo campeã e que a vitória poderia trazer um efeito contrário: os países participantes enviariam artistas defensores da causa LGBT para competir. "Eles querem essa oportunidade justamente para afirmar que podem sim sediar o evento tranquilamente e amenizar a imagem que ficou das Olimpíadas em Sochi", diz Lobo sobre as prisões de ativistas durante as competições de inverno em 2014.

Eduardo disse ainda que não se intimidaria a ir em uma edição sediada pela Rússia e que acredita que os eurofãs serão protegidos por um forte esquema de segurança, como manda a EBU. A resposta para tanta controvérsia será conferida no sábado, à partir das 16h no horário de Brasília. A final pode ser acompanhada ao vivo pela internet neste link ou pela TV a cabo, através dos canais RTPi (com comentários em português) ou TVE (comentários em espanhol).

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