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Não espere por paz na Turquia em um futuro próximo

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TURKEY
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Considerada a ponte entre Ocidente e Oriente e lar de um povo que já foi dono de boa parte da Europa, a Turquia enfrentou nas últimas semanas, duas grandes ameaças à sua integridade nacional: um atentado terrorista promovido pelo Estado Islâmico (EI) em Istambul com um saldo de 42 mortos e a tentativa de golpe militar, televisionada e acompanhada de perto pela internet no mundo inteiro.

O país ainda lida com a crise dos refugiados sírios que aportam em suas praias e traça a estratégia para combater separatistas curdos (que consideram terroristas), mas não há sinais de paz no horizonte. O motivo é um só: o presidente turco, Recep Erdoğan.

Vista grossa ao EI e agressões à imprensa

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O autoritário presidente Erdoğan colocou a Turquia em risco. Foto: VK/Reprodução

No poder desde 2003 como primeiro-ministro e presidente desde 2014, Recep Erdoğan o sonho de restaurar a grandeza do Império Otomano. A maneira como conduziu seu objetivo, porém, jogou pretensões por água abaixo e colocou o país em uma posição perigosa.

Fundador do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), o presidente era aliado do ex-primeiro-ministro Necmettin Erbakan e foi preso logo após um golpe militar em 1997 que derrubou seu mentor. Na prisão por quatro meses acusado de recitar poemas com conotação religiosa, o então prefeito de Istambul deixou o cárcere para vencer com ampla margem de votos, a eleição parlamentar em 2002. Gradualmente, foi inserindo o islamismo na vida cotidiana da nação de forma cada vez mais intensa.

Tanto tempo no poder foi deixando Erdoğan cada vez mais centralista, impedindo a dissociação de sua imagem em relação ao país. Movido por interesses nacionalistas, o presidente fez vista grossa durante muito tempo à ascensão Estado Islâmico porque os jihadistas matavam curdos, etnia separatista que tenta a criação de uma nação própria há décadas.

Ponto de entrada de estrangeiros que partiam para Síria e Iraque, a Turquia fez vista grossa ao controle de suas fronteiras, inclusive posicionando tanques estacionados a 1 km de distância da cidade fronteiriça síria de Kobanî, sem nada fazer enquanto combatentes do Estado Islâmico dizimavam a maioria curda que vivia no local.

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Tanques turcos estacionados próximos a Kobanî. Foto: Sputnik News

Em determinado momento, porém, Erdoğan não teve escolha. Deixar o Estado Islâmico crescer, cada vez mais próximo do território turco, era colocar o destino do país em jogo. Ainda assim, Ankara se recusou a armar os combatentes curdos, na linha de frente do conflito, temendo que, uma vez terminada a guerra, os separatistas se voltassem para a administração central. A Turquia entrou na coalizão internacional, bombardeando a Síria e o Estado Islâmico, mas também acusada de usar os ataques aéreos para destruir bases dos próprios curdos (falamos um pouco sobre aqui).

As constantes denúncias das ações militares escusas do governo, dos envolvimentos de Erdoğan em casos de corrupção e dos flagrantes desrespeitos aos direitos humanos fizeram dos jornalistas turcos o principal alvo do governo. De acordo com o Twitter, a Turquia foi responsável por 72% dos pedidos de remoção de conteúdo da rede social em 2014. No último levantamento realizado pelo Comitê de Proteção aos Jornalistas, o país também figurava na liderança da lista com o maior número de jornalistas presos no mundo: 49, mais que o Irã, China e Arábia Saudita, por exemplo.

Repórteres foram perseguidos, ameaçados e presos enquanto o número de atentados no país cresceu e o descontentamento da população também. Esses fatores culminaram com a tentativa de golpe na última semana.

Seeker Daily explica o descontentamento da população turca com a Presidência.

A tentativa de golpe explicada

A Turquia tem um histórico longo de golpes (o último deles em 1996), então o que vimos na última semana foi repentino, mas não uma surpresa completa. Erdoğan passava férias na cidade de Marmaris, na costa turca quando a escalada golpista começou.

Militares ocuparam e bloquearam as ruas, tomaram o controle das duas principais pontes sobre o Bósforo (que limita a Europa e a Ásia). A TV estatal TRT parou de transmitir e a CNN Turca foi na onda, também saindo do ar depois de transmitir o presidente que, por Facetime (logo ele, que tanto esforço fez para bloquear redes sociais), pedia para a população resistir ao golpe. "Minha bandeira é minha honra, meu país é minha honra e é por isso que eu vim aqui morrer. Estou preparado para morrer", disse.

Erdoğan entra ao vivo por Facetime por apoio popular. Fonte: Al Jazeera em inglês

A população atendeu, de fato, o apelo e foi às ruas deixando como saldo um total de 265 mortos (161 deles civis) e mais de seis mil presos entre militares, juízes e membros do governo. Mas é preciso entender quem foi às ruas: homens de bigode grosso (o oposto ao que pregam os turcos seculares) gritando não chavões patrióticos, mas "Allahu akbar", termo para "Deus é Grande" e frequentemente utilizado por terroristas e extremistas islâmicos. Praticamente nenhuma mulher. Apoio dos jovens inexpressivo.

A razão é muito simples: desde que assumiu o poder, o presidente turco acumula funções, transforma-se em indispensável para a manutenção do Estado e amplia gradativamente a influência da religião muçulmana no cotidiano turco. O país está se tornando cada vez mais conservador e Erdoğan espera ser tão importante quanto Allah, o seu partido conservador na retaguarda.

Ruim com ele, pior sem ele (?)

Considerada a segunda maior força militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), compartilhando arsenal nuclear e com localização estratégica no conflito contra terroristas do Estado, a Turquia não pode ser ignorada ou frustrada (especialmente em um momento delicado como o de agora). Os Estados Unidos mantêm uma base aérea estratégica na cidade turca de Incirlik, indispensável ao combate contra os terroristas na Síria e Iraque.

Com uma região instável, dona das chaves da porta de entrada na Europa, instabilidade política seria fósforo em um galão de gasolina. Não haveria garantias de que o país continuasse honrando seus acordos militares e suas parcerias ideológicas, tornando a Turquia um amplo solo fértil para o terrorismo.

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Erdoğan chora durante funeral coletivo realizado em Ankara no domingo (17).

Porém, já não dá mais para fechar os olhos para os desmandos de Erdoğan. O responsável pela diplomacia francesa, Jean-Marc Ayrault já deu o grito e avisou: a UE apoia o Estado turco de direito, mas não passa cheque em branco para presidente. Com o temor de que o apoio popular possa dar poderes sem precedentes a ele (e com a ameaça de possível restauração da pena de morte no horizonte), o Ministro da Justiça da Alemanha, Heiko Maas também se posicionou sobre o político. "Aquele que restringe os direitos fundamentais e a independência dos poderes executivo, legislativo e judicial está a empurrar o país para longe dos valores básicos da UE".

O presidente reprime pesadamente quem é contra seu governo: quando ele e sua família foram acusados de corrupção, por exemplo, Erdoğan comandou um expurgo que demitiu, prendeu e calou todos os que participaram das investigações. Agora, tende a se tornar ainda mais autoritário. Ironicamente, aquele que clamou por apoio para derrubar um golpe militar pode se transformar ele próprio, um ditador.

LEIA MAIS:

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- A União Europeia diante do fracasso: Como fica o bloco pós-Brexit

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