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A política de Theresa May, a nova 'Dama de Ferro' do Reino Unido

Publicado: Atualizado:
THERESA MAY
Neil Hall / Reuters
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O Reino Unido tem desde a última quarta-feira (12), a primeira mulher como primeira-ministra em 25 anos, quando Margareth Thatcher deixou o poder. Trata-se de Theresa May, conservadora nascida no sul da Inglaterra, neta de trabalhadoras domésticas e secretária do Interior do primeiro-ministro demissionário, David Cameron.

Vinda de família humilde e graduada em um curso pouco comum para quem segue a vida política (se formou em Geografia na Universidade de Oxford), May começou a carreira no Banco da Inglaterra, onde trabalhou por seis anos. Foi vereadora, presidente da educação, parlamentar e a primeira mulher a ocupar o cargo de secretária-geral do Partido Conservador.

Casada há 36 anos com um ex-colega da faculdade, decidiu não ter filhos. Agora, se prepara para assumir o comando de uma das principais potências do mundo em meio à negociação mais difícil da história do Reino Unido em 40 anos: o Brexit.

Força eleitoral inesperada

Como você deve saber, o Reino Unido é governado em um sistema no qual o primeiro-ministro é eleito pelo partido (ou coalizão entre as legendas, caso não haja maioria) com mais cadeiras no Parlamento. Dá-se a ele o voto de confiança, que pode ser retirado a qualquer momento.

Foi o que aconteceu com David Cameron: ao perder a votação que selou a saída do país da União Europeia, o político perdeu apoio e viu sua trajetória política ir pelo ralo. O mandato, válido até 2020, continua com seus aliados, mas passa agora para as mãos de May.

Cameron renuncia ao cargo logo após reconhecer o resultado do Brexit. Fonte: BBC

A eleição da conservadora, porém, não era esperada quando o resultado do referendo que selou o destino do Reino Unido foi anunciado. À época, o favorito ao posto de primeiro-ministro era o ex-prefeito de Londres Boris Johnson, um dos principais líderes pelo Brexit.

Mas uma traição mudou o destino do então pré-candidato: indeciso pelo referendo, Johnson foi convencido pelo ministro da Justiça, Michael Gove a assumir o posto. Apontado como vencedor do referendo, Johnson já tinha convocado uma coletiva de imprensa para anunciar sua candidatura, quando seu gabinete recebeu uma ligação de Gove não para apoiá-lo, mas avisar que também seria candidato. Vários outros aliados debandaram para o lado de Gove e restou a Johnson renunciar da corrida.

Era tarde. No primeiro turno, May atropelou os concorrentes, angariando 165 dos 330 parlamentares Conservadores, mais de três vezes o número de votos de Gove (48). May também venceu o segundo turno das votações, deixando para trás sua concorrente feminina: Andrea Leadsom, que abandonou a disputa logo depois. Leadsom tinha sido muito criticada dias antes por dizer que seria melhor primeira-ministra por ter filhos que vão herdar "o que acontecer depois".

Com apoio expressivo, May venceu e venceu com força. A posse foi adiantada de setembro para julho e ela agora enfrentará o desafio que a negociação com a União Europeia deve impor a seu país.

Guinada à direita

Considerada uma política ponderada, May advogou pela permanência na União Europeia, embora tenha sido marca pela disputa com o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos no caso Abu Qatada. Qatada foi preso em Londres em 2002, acusado de propaganda radical. Depois de uma longa batalha no Tribunal, o clérigo foi deportado para a Jordânia, onde foi julgado e absolvido em 2014. Na época, a agora primeira-ministra reclamou da falta de soberania representada pela UE, que impedia o Reino Unido de aplicar suas próprias leis.

Esperava-se, portanto, uma política conciliadora porém firme no propósito de defender os interesses nacionais. Mas a britânica parece ter tomado outro caminho, ao exonerar nove secretários de governo de Cameron e nomear um dos gabinetes mais alinhados à direita da história recente do país.

O maior choque: o fanfarrão Boris Johnson, que ofendeu, literalmente, toda a Europa é agora o Ministro das Relações Exteriores. O líder de maior afronta ao bloco vai se sentar ao lado de seus pares em Bruxelas todos os meses pelos próximos dois anos e esfregar em suas caras, o fracasso do projeto de unidade europeu. Europa afora, Johnson foi recebido no cargo com adjetivos pouco gentis: "mentiroso", "enganador", "irresponsável" foram os termos ouvidos na Alemanha e na França.

Britânicos demonstram surpresa com a nomeação de Johnson.

As surpresas, porém, não ficaram restritas às Relações Exteriores. May escolheu David Davis como o "secretário do Brexit", encarregado de dar início às conversas com a UE, Philip Hammond para as Finanças, político conservador e pouco comprometido com as medidas econômicas da era Cameron, e a própria ex-rival Andrea Leadsom na Agricultura, uma das áreas mais afetadas pelo referendo já que semantinha com subsídios da UE.

2016-07-16-1468685947-1896953-Capturar.PNGDa esquerda para a direita, David Davis, Philip Hammond e Andrea Leadsom.

Também estão na lista Justine Greening, Ministra da Educação e a primeira lésbica a ocupar um ministério e Elizabeth Truss, criadora do Great British Food Unit.

O caminho até o Brexit

A essa altura, reverter o referendo pela saída da União Europeia parece impossível. Embora o resultado não fosse vinculante (ou seja, o governo não seria, em teoria, obrigado a seguir as urnas), May dá todos os indicativos de que não pretende rever o pleito.

Assim que assumiu o posto, ela telefonou para a chanceler alemã, Angela Merkel e para o presidente francês, François Hollande e pediu mais tempo para dar início às negociações e, torno do Brexit. O resto dos países pede uma saída rápida, mas, na liderança moral e econômica da UE, Merkel parece disposta a conceder alguns meses à colega desde que Londres decida que tipo de modelo de parceria com a UE o Reino Unido espera manter.

Com a equipe econômica anunciada, a Europa deve assistir um Reino Unido com plano econômico mais contracionista e pragmático. As consequências - em ambos os lados - serão sentidas ao longo de décadas.

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