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Donald Trump presidente e pesquisas impregnadas de imprecisão

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DONALD TRUMP
ASSOCIATED PRESS
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O mundo foi dormir apreensivo e acordou em choque. Em uma campanha que, dado momento, chegou a liderar com 15 pontos de vantagem, Hillary Clinton não teve a vitória fácil que se esperava dela. Ao contrário, a democrata não levou os delegados de estados considerados chave (notoriamente a Flórida, que por tradição, costuma definir o pleito) e perdeu feio para o republicano Donald Trump.

Populista e conservador, Trump se torna o primeiro presidente a chegar a Casa Branca sem nunca antes ter ocupado nenhum cargo público ou militar. Venceu com o apoio do que se convencionou chamar "minoria silenciosa", o eleitorado sem ensino formal e pouco acesso às plataformas de mídia, mas ao mesmo tempo com grande poder de voto.

São adultos viúvos de tempos de glória que a globalização levou a cabo e que, surpreendentemente, parece não ter sido captado com precisão pelas pesquisas eleitorais. Por que?

Ano de surpresas

Em 2016, os institutos de pesquisa apostaram e perderam. Previram a permanência do Reino Unido na União Europeia: o Brexit foi apoiado por margem estreita em um referendo marcado por polêmica e xenofobia (e agora, aguarda por uma definição de um imbróglio sobre a soberania do Parlamento em decidir a questão). Previram a vitória do "Sim" no referendo pela ratificação dos acordo de paz entre o governo da Colômbia e as FARC por larga vantagem: o "Não" venceu, jogando por terra um processo cansativo de negociação que durou anos. E agora Trump.

Em todos os casos, especialistas e representantes de pesquisas eleitorais se apressaram a chegar nos canais de televisão e rádio para se explicarem. Uns culparam o tempo em regiões do país, que afetaram a chegada até as urnas. Outros consideravam uma mudança de voto na boca da urna impossível de ser lida por pesquisadores. Nenhuma delas, porém, indicou o vencedor e nem mesmo a tendência de voto com precisão, o que nos deixa com a pergunta: seria 2016 o ano da bruxa solta ou há algo de errado?

Comum a todos os pleitos, um fator foi decisivo para os resultados obtidos: o voto não-obrigatório nos três países mencionados aqui. No Reino Unido, houve recorde de participação no referendo do Brexit (72% do eleitorado), mas o YouGov, equivalente ao nosso IBOPE, foi incapaz de mensurar quem estava indo até a urna: aqui, a população mais velha que representou o ponto de virada nos números finais.

"O que está claro é que houve um erro de avaliação dos mercados financeiros, dos mercados de apostas e dos meios de comunicação, apesar das evidências continuada de pesquisadores como a do YouGov que a corrida estava acirrada e o Brexit era uma possibilidade real", observou o instituto YouGov à época.

Na Colômbia, a taxa de participação do pleito de 37,43% frustou quem esperava índices dentro da média histórica entre 40 e 50%. Quem vive em grandes cidades, portanto longe das FARC e menos sensível à violência do conflito armado, preferiu se abster ou votar pelo "Não" a um acordo de paz que vem sendo costurado há vários anos através de reuniões mediadas em Cuba.

Nos EUA, o eleitorado democrata parecia ter atendido aos apelos de Hillary Clinton e Obama para comparecer às urnas. Estatísticas davam larga vantagem à ex-senadora mesmo diante de uma investigação do FBI em sua conta privada de e-mails e apresentavam uma vitória com folga nos swing states, estados sem posição ideológica definida. Ainda que seja cedo para avaliar números, os institutos foram incapazes de prever a ascensão de Trump em redutos silenciosos.

Venceu o republicano, para surpresa da imprensa mundial, mas não dessas pessoas, que enxergavam em cada pesquisa negativa, em cada cobertura midiática desfavorável ao candidato republicano, um motivo para votar nele. Donald foi de tudo um pouco nessa campanha: racista, demagogo, machista, homofóbico. Porém, ao contrário do que se espera, ao expor estes defeitos a imprensa lhe dava força em bolsões eleitorais que os jornalistas também não ouviam ou porque não tinham acesso a eles ou porque (na maioria das vezes) escolheu ignorá-los.

Perspectiva

Não me alongarei nas consequências da eleição de Trump para o Brasil. Ao longo do dia você certamente vai ler mais sobre isso aqui no HuffPost. É importante considerar, porém, que as perspectivas dos grupos de pesquisa apagam as luzes de 2016 com imagem arranhada.

Muitos jornalistas e internacionalistas se dão conta só agora que uma boa dose de "wishful thinking" (expressão cujas traduções possíveis se encaixam perfeitamente aos casos aqui falados: utopia, falta de realismo, desejo ilusório) influenciou a cobertura e os resultados.

"No Brasil não existe cobertura das eleições americanas. Existe torcida vitória pela vitória de Hillary Clinton", escreveu a repórter da Globo, Gioconda Brasil, há duas semanas no Twitter. Passados resultados tão vexatórios para quem ganha a vida prevendo fatos e destrinchando dados, será necessário refletir se esse não tem sido o modus operandi na imprensa mundial e não só aqui.

Viramos repórteres ou claque?

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